Estamos hoje, dia em que provavelmente estará a ler estas palavras, a viver em pleno a celebração do dia de Natal, data comemorativa de um extraordinário
acontecimento ocorrido há mais de dois mil anos e vivido com grande intensidade e entusiasmo em praticamente todo mundo, de um modo especial no mundo ocidental cristão.
Percorrendo algumas das leituras próprias desta época natalícia, como habitualmente costumo fazer, fiquei especialmente sensibilizado com a profundidade e actualidade da mensagem de Natal de 2005 de Sua Santidade o Papa Bento XVI da qual transcrevo alguns excertos, que lembrava as palavras escutadas nas nossas igrejas na noite de Natal: “Hoje nasceu o nosso Salvador”, o anúncio celestial que convida a não ter medo, o anúncio de Esperança ocorrido naquela noite há dois milénios.
Questionava se terá ainda algum valor e significado um “Salvador” para o homem do terceiro milénio. Se será necessário um Salvador para o homem que alcançou a Lua e Marte e se dispôs a conquistar o universo. Para o homem que investiga indefinidamente os segredos da natureza e consegue até decifrar os códigos maravilhosos do genoma humano (maravilha obra divina).
Se necessita de um Salvador o homem que inventou a comunicação interativa, que navega no oceano virtual da Internet e, graças às mais modernas tecnologias dos meios de comunicação, já fez da Terra, esta grande casa comum, uma pequena aldeia global.
E afirmava: “Apresenta-se, este homem do vigésimo primeiro século, confiante e auto-suficiente artífice do próprio destino, fabricante entusiasta de indiscutíveis sucessos”.
Mas chamava a atenção de que, embora pareça, não é bem assim, lembrando que, nesta época de abundância e de consumo desenfreado, ainda se morre de fome e de sede, de doença e de pobreza. Ainda existe quem é servo, explorado e ofendido na sua dignidade; quem é vítima do ódio racial e religioso, e é impedido, por intolerâncias e discriminações, por intromissões políticas e coerções físicas e morais, de professar livremente a própria fé.
Há ainda quem vê o próprio corpo e dos seus seres queridos, especialmente crianças, destroçado pelo uso das armas, pelo terrorismo e por todo o tipo de violência numa época em que se invoca e proclama o progresso, a solidariedade e a paz para todos. Veja-se, Gaza, Ucrânia, Nigéria, e tantos outros países de África, Ásia e América latina.
E que dizer daquele que, privado de esperança, é obrigado a deixar a própria casa e a pátria para encontrar noutra parte condições de vida dignas para o homem? Quão bem presente é esta realidade no nosso Portugal?
Que fazer para ajudar quem é enganado pelos falsos profetas de felicidade, quem é frágil nas relações e incapaz de assumir responsabilidades estáveis para o próprio presente e para o futuro; quem se encontra percorrendo o túnel da solidão e, com frequência, termina escravo do álcool e da droga? Que pensar de quem escolhe a morte pensando de exaltar a vida?
Como não pensar que, mesmo do fundo desta humanidade satisfeita e desesperada, se levanta um clamor aflitivo de ajuda? É Natal: hoje entra no mundo “a luz verdadeira, que todo o homem ilumina”, “O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós”, proclama João Evangelista.
Hoje, precisamente hoje, Cristo vem novamente “entre os Seus” e a quem o recebe dá “o poder de se tornar filho de Deus”; ou seja, oferece a possibilidade de ver a glória divina e de compartilhar a alegria do Amor, que em Belém se fez carne por nós. Hoje mesmo, “o nosso Salvador nasceu no mundo”, porque sabe que precisamos d’Ele.
Não obstante as numerosas formas de progresso, o ser humano permaneceu igual ao de sempre: uma liberdade dividida entre bem e mal, entre vida e morte.
É precisamente ali, no seu íntimo, naquilo que a Bíblia chama de “coração”, donde ele tem sempre necessidade de ser “salvo”. E, talvez, na época atual pós-moderna, tem ainda mais necessidade de um Salvador, porque a sociedade em que vive tornou-se ainda mais complexa, e mais enganosas se tornaram as ameaças para a sua integridade pessoal e moral. Quem pode defendê-lo senão aquele que o ama, a ponto de sacrificar na cruz o seu Filho unigénito como Salvador do mundo?
Cristo é o Salvador, também do homem de hoje. Quem fará ressoar em cada canto da Terra, de modo credível, esta mensagem de esperança? Quem se empenhará a fim de que seja reconhecido, tutelado e promovido o bem integral da pessoa humana, como condição da paz, respeitando cada homem e cada mulher na própria dignidade? Quem ajudará a compreender que com boa vontade, sensatez e moderação é possível evitar que os contenciosos se agravem e, assim, levá-los a soluções justas?
Que a Luz que mais uma vez neste Natal desponta possa iluminar as mentes dos responsáveis políticos de hoje, que parecem não conseguir encontrar os caminhos da paz deixando-se capturar pelas tentações do domínio económico impondo a lei da força à força da lei.
Feliz e Santo Natal para todos.
Guimarães, 22 de Dezembro de 2025
António Monteiro de Castro
Publicado em: 29/01/2026