Hugo Soares ironizou: “Greves gerais acontecem sempre quando os governos não são de esquerda”. É factualmente mentira,
e ironicamente um mantra. Em 2010, com José Sócrates no Governo, houve Greve Geral. Quando quem governa confunde direitos com privilégios, tratam trabalhadores como fardo, mães como preguiçosas e precários como descartáveis, reacende-se a luta coletiva. Este Governo, embalado pela retórica da Agenda Trabalho XXI, não moderniza: fragiliza. Não é progresso, é preconceito disfarçado de modernização.
Legislar que uma mãe só possa amamentar até aos dois anos, mediante atestados sucessivos, é tratar a parentalidade como desvio, não proteção.
Limitar a flexibilidade de horários ou negar o direito ao luto gestacional, é negar humanidade no momento mais vulnerável. Estas medidas não são apenas técnicas: traduzem o preconceito de Estado que atravessa a educação pública e as relações laborais. Quem precisa, incomoda; quem depende, atrapalha; quem sofre, fica invisível.
No Vale do Ave, cada despedimento flexibilizado é um ataque à dignidade coletiva, num momento particularmente difícil de setores fundamentais como o têxtil. Um ataque à estabilidade do emprego, à negociação coletiva e aos direitos laborais. O futuro é hipotecado porque o Governo decidiu que
estabilidade é capricho. O preconceito do poder transforma cada trabalhador num problema, cada mãe num risco, cada jovem num número de exportação.
A Agenda Trabalho XXI repete a lógica do preconceito: legislar como se todos abusassem dos seus direitos, castigar quem menos pode perder. Tirar direitos laborais é tirar dignidade, pertença, democracia. O discurso da modernidade serve apenas para mascarar cortes, facilitar despedimentos e precarizar maternidade.
É por isso que há greve geral. Não por capricho ou reflexo partidário. É porque o Governo decidiu interpretar, de cima para baixo, “o que os jovens querem”, assumir que “dispensam contratos para a vida”, ou como Cotrim Figueiredo ensaia, proteger quem não tem emprego fragilizando quem o tem. Nada disto foi sufragado, não faz parte do programa eleitoral e não reúne consenso da população. É uma escolha de poder, feita à revelia da justiça social, numa época de números recorde de empregos em Portugal.
Guimarães conhece este custo: fábricas encerradas, famílias desalojadas, direitos rasgados. Esta agenda é tudo menos neutra: é um ataque frontal ao
tecido humano da cidade.
A história ensina que, sempre que o Estado vira costas ao sofrimento, cresce a resistência. Não é o preconceito institucionalizado que decide quem tem direito a ser pessoa. É a força solidária de quem, no terreno, recusa ser descartável. E agora? Vamos aceitar ser peças de um mercado indiferente ou construir, juntos, uma sociedade onde ninguém é invisível?
Resistir é possível, urgente e começa em cada gesto de solidariedade, cada recusa do preconceito, cada defesa do direito a pertencer.
Publicado em: 29/01/2026