Escrevia no último artigo que Portugal chegava a estas presidenciais numa encruzilhada rara: não se decidia apenas um nome para Belém,
mas qual o
modelo político, qual contrapeso queríamos para o país. O voto “pelo equilíbrio, pela confiança, pelo Seguro”, uma escolha de campo que transcendia
lealdades partidárias automáticas.
O 18 de janeiro confirmou essa intuição. António José Seguro venceu a primeira volta com 31,11%; André Ventura chegou à segunda volta com
23,49%. Mas os números são superfície. O que importa agora é transformar esperança em realidade no dia 8 de fevereiro.
Há um risco evidente nesta segunda volta: reduzir tudo a voto negativo. “Voto em Seguro para não votar em Ventura.” É compreensível e até desejável. Mas insuficiente.
A primeira volta demonstrou algo mais profundo: que a maioria dos portugueses está cansada de política de confronto permanente. Cansada de
discursos que dividem em “bons” e “maus”, que prosperam na provocação, que tratam instituições como inimigas.
Mas reconhecer que desejamos outra forma de fazer política é diferente de garanti-la. Não basta eleger Seguro, é preciso que o seu mandato tenha força suficiente para influenciar a governação pelos próximos cinco anos.
Esta é a primeira segunda volta em quarenta anos. A última foi em 1986, entre Mário Soares e Diogo Freitas do Amaral. Essa raridade tem significado: a fragmentação política é genuína. Nenhum candidato tem apoio automático dentro do seu espectro.
Mas significa também verdadeira mobilização eleitoral. As pessoas estão a tomar decisões conscientes, nem sempre automáticas. Há espaço para
argumentação, não apenas para tribalismo.
Seguro posicionou-se, desde o início, como “presidente de todos”. A campanha enfatizava temas que transcendem divisões: mudança tranquila, estabilidade política, cooperação institucional. Não são promessas radicais. Refletem um entendimento simples de que a governação funciona quando há consenso possível em questões fundamentais.
Agora a oportunidade é outra: validar que essa abordagem tem força suficiente para impor uma agenda diferente. Não no sentido de ignorar conflitos
ideológicos, que existem e importam, mas de garantir que resolver problemas prevalece sobre vitória simbólica.
Os portugueses entenderam também que a política se faz de projetos, de ideias, de discussão profunda sobre Portugal. António José Seguro ao longo dos últimos meses ouviu especialistas sobre Transparência, Política Internacional, Habitação, Ambiente, Saúde, Interior, Democracia, Juventude, entre outros. Não se limitou ao combate político e às ações de mobilização de apoiantes.
Eleger António José Seguro significa também que o tom de governação mudaria radicalmente. Não haverá ataques a instituições judiciais porque
desagrada uma sentença. Não haverá criminalização de jornalistas. Não haverá polarização sistemática como instrumento de poder.
Não são promessas pequenas. São o fundamento mínimo de qualquer democracia liberal funcional. Em Portugal, após anos de campanhas que
prosperaram invertendo estes princípios, recuperá-los seria transformador.
A escolha de 8 de fevereiro será observada internacionalmente como ponto de rutura ou continuidade democrática europeia. Uma vitória de Seguro sinalizaria que, mesmo em fragmentação, consensos democráticos são possíveis. Não se trata de mesquinhez partidária. Trata-se de validar formas de governação. E essa validação só ocorre se o eleitorado escolher conscientemente.
Quando escrevi sobre “Voto Seguro”, focava-me na escolha de modelo. Agora o desafio é consolidar essa escolha com força suficiente para ressoar através de toda a estrutura política portuguesa.
Esta transformação não se faz com sondagens, faz-se com a expressão do voto. E por isso é fundamental que todos se mobilizem para dia a 8 de
fevereiro. A encruzilhada continua. Mas temos agora oportunidade concreta de a resolver.
Publicado em: 29/01/2026