A propósito do que leu na minha última crónica, na parte em que escrevia que “Guimarães não se deixa ficar para trás e veste-se como qualquer outra
cidade do nosso tempo”, o meu amigo Nuno Saavedra confidenciou-me a resposta que lhe deu uma professora universitária no Quebec que fotografou Guimarães em 1983, quando lhe perguntou se gostaria de regressar a Guimarães: que sim, que gostava de voltar, apesar de Guimarães já não ser “tão apelativa, tão vivida”. Ou seja, mesmo de longe se percebe que há um “je ne sais quoi” de deslaçamento na nossa vivência comunitária. Impõe-se voltar a pensar a cidade do lado de dentro, porventura prescindindo da prática corrente desde que Guimarães calçou as botas de um cosmopolitismo que não calça bem: encomenda-se um estudo a especialistas que por aqui pousam uns tempos, com inquéritos e audições (este que escreve já perdeu às entrevistas que deu para tais estudos) e que, no fim, apresentam um relatório com um grafismo apelativo e um par de ideias da moda, condimentadas por umas quantas banalidades mais ou menos folclóricas. Estudos tão perfeitos e definitivos, que seriam merecedores do destino que o todo-poderoso Santos da Cunha dava aos papéis que o entediavam — a cadeira onde se sentava — para ficarem… “debaixo de olho”.
Este ano, Guimarães veste-se de verde. Fez-se um trabalho muito competente para alcançar o selo de Cidade Verde Europeia. Não nos cansamos de repetir que nos nossos rios já não corre o arco-íris e que até já nadam peixes no de Couros. Salvamos os rios, mas ainda não salvamos o Mundo. Está prometido que este ano, mais do que de celebração, será tempo de reflexão sobre questões ambientais. Vamos a isso.
Julgo que haverá consenso em que o problema ambiental de Guimarães mais urgente é o da mobilidade. Hoje Guimarães é mais amiga do automóvel do que dos seus cidadãos. Também aqui temos tido muitos estudos e poucos resultados. Muito trânsito, carros que circulam com a urgência dos que vão tirar o pai da forca. Estacionamento, em modo de “fica já aqui”. No passeio, por exemplo, que é grátis e tem menos probabilidade de multa do que em lugar com parquímetros, se se esquecem as moedas. E é um espanto ver senhoras e senhores jovens e atléticos, que vão de carro para o ginásio e estacionam em cima do passeio, porque caminhar um pouco lhes deve cansar as pernas musculadas.
Já era tempo de, em vez de estudos de mobilidade (em quantos já vamos?), apostarmos em soluções simples. Como mexer na velocidade a que se pode circular na cidade, criando zonas pedonais, onde a circulação ocasional de veículos não possa ultrapassar a velocidade de passada (6 km por hora), e zonas residenciais, ou de coexistência, com escolas e parques infantis, onde os limites vão de 10 ou 20 km. E estabelecer a restante malha urbana como zona de 30 km. Quais os custos? Muito baixos. Seguramente muito menos do que construir um parque subterrâneo. Passaria por criar pequenos parques de estacionamento periféricos, instalar passadeiras elevadas e sinalética, além do inevitável reforço dos transportes públicos dentro do concelho.
O maior investimento teria de ser naquilo que aparentemente tem faltado: coragem política para enfrentar incompreensões e resistências e paciência para explicar soluções. Será assim tão difícil explicar ao comércio dito tradicional (por onde anda ele, que já quase o não vejo?) que os peões, que compram por impulso, são melhores clientes do que os automobilistas — que não veem montras, porque estão focados em encontrar onde estacionar. Fariam mais negócio, a cidade seria mais atrativa, reduzir-se-ia a poluição e haveria menos ruído.
A poluição sonora, que não é exclusiva dos automóveis, é outro problema ambiental com que se confronta Guimarães, tendo como principal responsável a entidade que deveria zelar para a eliminar, a Câmara Municipal. E não falo apenas das “raves”, que promove com cada vez maior frequência, no centro de uma cidade com população envelhecida e muitos residentes em lares para idosos. Refiro-me ao recurso aos malfadados sopradores utilizados na limpeza urbana: poluem pelo ruído, poluem pela queima de combustível, poluem pelas partículas que lançam para o ar e para cima de quem passa. Nos dias em que as árvores perdiam a folhagem, era vê los e ouvi-los, em equipas de cinco ou seis, manhã cedo, quase noite, a soprarem folhas, avenida acima e avenida abaixo. O ruído que produzem é o equivalente a um concerto de rock ou a uma britadeira. Diz quem sabe que a emissão de poluentes, numa hora de trabalho, por cada soprador, equivale a uma viagem de quase 2.000 km num carro moderno com motor de combustão. Será que faz sentido, em termos de custos e benefícios, económicos e ambientais?
E será que a cidade está agora mais limpa do que no tempo da vassoura?
Quer-me parecer que não.
António Amaro das Neves
Publicado em: 29/01/2026