Domingos Bragança irá receber a Medalha de Honra Municipal no dia 24 de junho, a mais alta distinção do concelho no dia do Feriado Municipal.
Sabendo que a tradição impõe que a atribuição destas distinções ocorra na Sessão Solene da celebração da Batalha de São Mamede, não deixa de ser particularmente simbólico que o Presidente de Câmara que tanto procurou cuidar da efeméride veja o seu legado reconhecido naquela noite.
Em dezembro de 2024 escrevi nesta coluna um artigo a que chamei “Ter o Futuro como Legado” (Ter o Futuro como Legado) que tentava, de forma pouco exaustiva pela dimensão da crónica, elencar a marca que Domingos Bragança nos deixava. Fi-lo no tempo e na forma que considero certos, abrindo espaço a que os meses de campanha eleitoral fossem sobre o futuro, e não fazendo depender a minha convicção na defesa do legado de calendários políticos. Não repetirei, pois, por agora, esse mesmo exercício dado que o ano e meio que se
seguiu àquela reflexão deu-lhe ainda mais sentido, como é o caso da importância do Deucalion, a solução do desnivelamento da variante de Silvares para a N206, a dimensão nacional das comemorações dos 900 anos da Batalha de São Mamede, ou os frutos da aposta no Aeroespacial. Recomendo, contudo, a releitura, recuperando 3 citações:
“Domingos Bragança é um político de corpo inteiro, com um instinto incomum, uma capacidade de trabalho inesgotável, uma densidade filosófica e ideológica em vias de extinção e um líder com uma ideia clara do concelho que ajudou a desenvolver, como vereador, vice-Presidente e agora como Presidente. Fazer um balanço a partir das materializações da sua governação afigura-se tarefa difícil, e obrigaria a vários artigos temáticos consecutivos. Opto, assim, por evidenciar a sua ideia de Concelho, que se concretiza, em traços gerais, pela
aposta que faz na Cultura, Ciência e Educação como motores do desenvolvimento económico e social do concelho, pela capacidade de dar mais cidade à cidade, acrescentando camadas de qualidade ao polo urbano central de Guimarães, sem perder de vista uma das suas marcas fundamentais: a coesão territorial, com investimento em todas as freguesias
do concelho. Esta é uma visão alicerçada no “chão comum” da Sustentabilidade Ambiental, e da defesa do Planeta, e da Coesão Social e Territorial.”
“Ao conjunto de concretizações, importará falar do que se acrescentou ao património coletivo, e ao orgulho vimaranense. A perseverança, por muitos considerada utopia, permitiu que o presidente Domingos Bragança duplicasse a área classificada pela UNESCO, através do Património Mundial de Couros, e que Guimarães conseguisse ser nomeada Capital Verde Europeia de 2026.
Estas, sem qualquer contestação, são marcas suas e da sua determinação.”
“Será já para lá dos seus mandatos que seremos Capital Verde Europeia, que celebraremos os 900 anos da Batalha de São Mamede, que inauguraremos a Escola Hotel do IPCA, para qualificar a oferta turística, ou que nos tornaremos num importante polo europeu de Engenharia Aeroespacial, com a abertura da nova escola e o desenvolvimento do projeto Guimarães Space Hub, em parceria com a Universidade do Minho e com o CEIIA. “
Não repetirei esse exercício, também para não me colocar numa posição que não me cabe. Nem a mim, nem a ninguém. Domingos Bragança deixou um legado que só tem um herdeiro: o concelho de Guimarães. Foi também assim que o próprio escolheu. Ao político que me desafiou para ser candidato a uma junta de freguesia com 20 anos, subscreveu a minha ficha de militante no Partido Socialista, me escolheu para líder da bancada na Assembleia Municipal, me convidou para Adjunto da Vereação e seu Vereador, devo gratidão.
Sou dos que acredita que a política se faz com visão, propósito e convicção.
Esta abordagem nem sempre é a que dá ganhos imediatos, é mais bem entendida a todo o momento ou gera ondas de entusiasmo. Domingos Bragança teve visão, propósito e convicção e, ainda assim, venceu 3 eleições consecutivas com maiorias absolutas. Conseguiu o equilíbrio entre fazer o que acredita que deve ser feito e gerar a aceitação necessária para se reeleger com alguns dos melhores resultados em democracia.
Fê-lo, mas continuo convicto de que o tempo ainda lhe reforçará mais essas maiorias de convictos do seu trabalho. Particularmente na dimensão do investimento na ciência e conhecimento, saberemos a médio-longo prazo o quanto essas fundações ajudaram a edificar uma nova Guimarães.
Esta justa homenagem encerra em si mesma uma outra dimensão que não posso ignorar, e eleva quem a pratica. Domingos Bragança foi Presidente de Câmara durante 12 anos pelo Partido Socialista, a que junta quase outros tantos como Vereador e Vice-Presidente. O facto de a atribuição da Medalha de Honra Municipal provir de um autarca recém-eleito pelo PSD, é facto digno de registo e saudação. A elevação democrática que Ricardo Araújo transporta para este ato deve ser congratulada, mais ainda num tempo em que a política é
campo de batalha sem tréguas, cordialidade ou diplomacia.
O atual Presidente de Câmara e o seu partido fizeram oposição ao projeto político que Domingos Bragança liderou. Já em funções executivas, abandonaram alguns dos projetos que o mesmo desenhou, e criticaram tantas outras opções. Mas nada disso deve impedir de ver o essencial que é o contributo de décadas de transformação do concelho de Guimarães em que o anterior Presidente teve funções de liderança, ou de grande responsabilidade.
Este ato de inteira justiça tornará Domingos Bragança cidadão honorário do concelho que liderou. E entendo-o também como o ato de consagração de um legado e de uma carreira política local – como escolheu – que o coloca acima de disputas políticas ou de aproveitamentos partidários de ocasião.
Sei o que sempre disse querer ser no dia em que deixasse a Câmara, e é para o recato de cidadão atento a partir de Abação, que lhe envio um abraço sentido de profundo agradecimento pelo seu serviço a Guimarães.
Publicado em: 16/06/2026