Os dias em que se preparava a Capital Europeia da Cultura de 2012 foram momentos de aprendizagem, para a vida, sobre Guimarães, os vimaranenses e a
natureza humana. Cito de memória que escrevi, a propósito do que então acontecia, que havia quem chegasse a Guimarães convencido de que vinha iluminar um território de bárbaros, e depois se queixava, em voz baixa, que era difícil trabalhar com esta gente — como se a nossa recusa em nos ajoelharmos perante a imensidão da sua sapiência fosse ingratidão. O que nunca chegaram a perceber é que a vida cultural vimaranense não começou com eles, nem acabaria depois deles (e quase nada acrescentaram, sabemos agora). Esta é a terra de Martins Sarmento, de Alberto Sampaio, de Raul Brandão, de Santos Simões, de José de Guimarães. O Património Mundial e a Capital da Cultura não caíram do céu: são consequência natural daquilo que a cidade tem sido desde o século XIX.
Aqueles dias, quando o desconcerto ocupou o lugar da animada expectação em que vivíamos, foram marcados por opções cuja racionalidade nos escapava. A começar pela surpreendente nomeação da presidente da administração da Fundação Cidade de Guimarães (que ainda não existia), que assumiria para si a tarefa de encomendar os estatutos da fundação a um a advogado de Lisboa, que talhou um fato à sua medida. E assim, como por artes mágicas, ocultas nas entrelinhas que os nossos autarcas (não todos, é justo reconhecê-lo) não quiseram ler, aconteceu a metamorfose, da nomeação para a entronização, quando já muitos tinham percebido que a nau estava entregue a quem entendia da arte de marear tanto como eu entendo o falar mandarim.
O naufrágio era destino certo.
Os dias em que, literalmente, corriam lágrimas de quem via a CEC ia ao fundo, levandoGuimarães com ela, também tiveram momentos de divertimento. O vetusto palacete mandado erguer por Tadeu Luís da Fonseca e Camões, por onde cirandavam umas quantas personagens pitorescas — mais um célebre par de botas —, estava transformado num manancial de anedotas e de enredos de comédia bufa com garantia sucesso editorial, se alguém as reunisse num livro.
Mas também havia sinais de cupidez. Uma conversa ao almoço de um destes domingos, trouxe-me à memória uma história de pouca moral, mas de inquestionável proveito (para quem se aproveitou). Anunciava-se um concerto a capella de um artista com dotes vocais singulares, Bobby “d’ont worry, be happy” McFerrin, o mesmo cantor que, algum tempo antes estivera para atuar em Guimarães, com a sua banda, num concerto que não aconteceu, por razões orçamentais (curiosamente, o concerto do verão de 2011, a que o artista compareceu na singela companhia da sua voz e do seu corpo, custou o dobro do que teria custado o concerto cancelado, que teria o mesmo elenco e mais os músicos da banda que o acompanharia).
O mais surpreendente foi a organização do concerto, em vez de ser entregue ao, mais do que demonstrado, profissionalismo da equipa de A Oficina, ter sido subcontratada a uma associação de estudantes que teve como presidente o filho da programadora do espectáculo, que já conseguira que a FCG contratasse o marido e se propusera incluir o nome do filho na folha salarial da fundação (por uma vez, sem sucesso, porque alguém terá concluído que já era demais). Não por coincidência, logo a seguir ao concerto, António Magalhães retirou a confiança à presidente da FCG, que seria afastada antes que terminasse aquele mês de julho de 2011. À justa, mais ainda a tempo de evitar o naufrágio.
Colidi com esta recordação numa conversa de almoço de domingo, que me pôs a refletir sobre o modo como o tempo e a inércia acomodaram práticas semelhantes, institucionalizando-asem empresas, cooperativas e outas entidades municipais, que se foram habituando afuncionar à rédea solta, transformadas em centros de poderes fácticos e de emprego para acólitos e protegidos, à sombra da falta de escrutínio e de prestação de contas. Penso na Vitrus, que passou a desenvolver atividades que supostamente caberiam ao Laboratório da Paisagem, à Guimabus ou à A Oficina, num esbanjamento de meios que seriam mais bem utilizados se houvesse mais racionalidade e escrutínio na gestão da coisa pública.
E penso também na cooperativa A Oficina, que já foi uma referência pela sua programação na área do teatro, assegurada por uma estrutura profissional robustecida pela experiência, e que começou a esmorecer progressivamente quando desceu o pano da CEC, até só restar a memória do tempo em que vinha gente de longe a Guimarães, para assistir a espectáculos onde marcavam presença Peter Brook, Les Ballets C de la B, de Alain Platel, Vanishing Point, Juliette Prillard, Théâtre de La Mezzanine, Angelica Liddell, Ranters Theatre ou TG STAN, para só falar de estrangeiros.
As direções artísticas que se sucederam desde 2013 coincidiram a decadência de uma das marcas culturais de Guimarães dos primeiros anos do século XXI. Os diretores foram chegando sem concurso, sem caderno de encargos para cumprir, nem herança para respeitar. A cada novo responsável, novo começo, novo ano zero. O retorno à tábua rasa. Não havia um passado para assumir, apesar de o teatro em Guimarães ser cada vez mais passado do que presente.
Quem chega, desconhece a realidade que vai encontrar e não faz questão de conhecer. Vai tudo fora. Como os descobridores que aportavam em terra descoberta, assumem o direito à posse e à colonização.
E chegamos a um ponto em que um diretor, investido na função sabe-se lá por que artes, aterra no monte do Cavalinho munido de um apagador, com uma comitiva de fiéis lá da terra de onde vem e um irmão às cavalitas. Apaga tudo (e todos) e distribui o espólio do apagamento pelo séquito. Ao irmão, numa tocante demonstração de amor fraternal, concede o título de formador-mor de todas as suas conquistas. Foi assim que o teatro Oficina se despiu do seu passado, que os indígenas julgavam glorioso, para passar a dispor de um formador de representação com o invejável currículo formativo que lhe vem de ser irmão do diretor, ter frequentado um curso de banda desenhada e ilustração, ter coencenado duas provas de aptidão profissional e ter dado uma perninha num par de peças, sempre sob o amparo fraternal.
Pois assi se fazem as cousas.
António Amaro das Neves
Publicado em: 08/04/2026