Saber de onde viemos é condição para saber quem somos. A memória histórica não é um exercício de nostalgia. É o fio que liga gerações e confere
coerência à identidade de um povo.
Da nossa história coletiva, enquanto país, há vários momentos significativos que nos conduziram a uma nação autónoma e soberana.
De entre esses momentos, há um que antecede e torna possíveis todos os outros: a “primeira tarde portuguesa”, eternizada a óleo sobre tela por Acácio Lino, obra presente no Palácio de São Bento – Assembleia da República, que retrata o dia 24 de junho de 1128, a Batalha de São Mamede.
Guimarães desenvolveu, ao longo dos últimos 4 anos, um trabalho fundamental para preparar, com tempo, rigor e ambição, a celebração dos 900 anos do momento fundador da nossa nacionalidade.
Falar sobre a Batalha de São Mamede transcende a mera evocação histórica: trata-se de uma afirmação do país, construída com visão e persistência. Um objetivo comum, com uma raiz local e ambição nacional.
Foi em Guimarães que se acautelou desde cedo esta celebração. Ali se construiu, desde 2022, um envolvimento institucional, científico e cívico exemplar, com a criação de uma estrutura de missão com dimensão nacional que preparasse a efeméride, em três eixos: uma Comissão de Honra, presidida pelo Presidente da Assembleia da República e com a participação da Ministra da Cultura e de municípios ibéricos ligados à formação da nacionalidade; uma Comissão Científica, presidida por José Mattoso, a título honorífico e póstumo, e coordenada por Mário Barroca, Luís Carlos Amaral e Isabel Maria Fernandes; e uma Comissão Artística, para um programa de arte pública.
A esta estrutura, acrescenta-se ainda o alto patrocínio da Presidência da República às publicações científicas resultantes do trabalho da estrutura de missão criada. Tudo isso transformou uma memória local numa causa de dimensão verdadeiramente nacional.
A Batalha de São Mamede não constitui um episódio isolado: representa um marco decisivo no percurso do Condado Portucalense à consolidação política de Portugal, ajudando a compreender a nossa identidade coletiva enquanto povo que escolheu um destino próprio.
Há uma leitura que projeta no 24 de junho de 1128 o alfa e o ómega do nascimento de Portugal. Compreendo o seu apelo simbólico, mas discordo da sua precisão, por duas razões.
A primeira razão é de rigor histórico. Se é verdade que a Batalha de São Mamede é o ponto de partida, a origem e o momento que tudo possibilitou, não é menos verdade que foi sendo consolidada por factos subsequentes que culminam na Bula Manifestis Probatum, emitida pelo Papa Alexandre III a 23 de maio de 1179, o documento diplomático fundamental que reconheceu oficialmente a independência do Reino de Portugal e o título de Rei a D. Afonso Henriques.
A segunda razão é estratégica. Quem pretenda ver o 24 de junho reconhecido nacionalmente não beneficia de diminuir o Recontro de Valdevez, a Batalha de Ourique ou a própria Bula. Fazê-lo aliena comunidades e instituições que zelam por partes importantes do processo de formação da nacionalidade.
Por rigor histórico, e já agora, por visão estratégica de afirmação da data, é fundamental que sejamos capazes de reconhecer que Portugal se fundou através de um conjunto de momentos, marcas e documentos que tiveram como ponto de partida a “primeira tarde portuguesa”.
O Governo criou há poucas semanas, por Resolução de Conselho de Ministros, um Comissariado Nacional de Missão, sediado no Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães, com composição plural que inclui representantes do Governo, da Assembleia da República, das autarquias e de historiadores, com mandato até 31 de janeiro de 2029, para planear e executar as comemorações a nível nacional. Complementa e reforça o pioneirismo local, conferindo-lhe uma escala institucional adequada.
Essa iniciativa, importante e que saúdo, coloca dois desafios fundamentais. O primeiro desafio visa aproveitar o trabalho da estrutura de missão já constituída em Guimarães, articulando-a organicamente com o Comissariado Nacional, não perdendo a oportunidade de dar sequência a um plano de ação ambicioso já construído.
Há publicações inéditas, produções cinematográficas com financiamentos captados, exposições pensadas e estudos já encomendados — alguns deles publicados. Tudo isto concebido pelo melhor da academia de todo o país, por artistas de renome e profissionais de comunicação experientes.
Assim, evitamos duplicações desnecessárias, potenciamos os recursos já investidos e projetamos celebrações nacionais com o rigor e a ambição que o momento exige.
O outro grande desafio que temos diante de nós reside em não nos limitarmos à homenagem ao passado. Devemos projetá-la para afirmar o Portugal de amanhã, ligando história, identidade, cultura e cidadania de forma viva e responsável.
Olhemos para 24 de junho de 1128 como o ponto de partida, e para 24 de junho de 2028 como o marco de 900 anos de uma nação que se construiu, se inspirou e nos trouxe até à contemporaneidade. Celebrá-la é projetar uma ideia de futuro: algo de que tanto precisamos.
Como afirmou José Saramago: “Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir.”
São Mamede é o marco decisivo. Guimarães, o lugar de partida. Portugal inteiro, o horizonte a projetar.
Publicado em: 21/04/2026