Há uma mudança a operar-se na sociedade portuguesa, reflexo de uma transformação à escala mundial. Não é imediata nem se
resumo num título,
mas vai-se infiltrando como humidade num edifício antigo: silenciosa, insidiosa e, um dia, estrutural. Essa mudança assenta num afastamento crescente da razão e do debate informado, em favor da paixão, do ruído e da reação visceral. A política, em vez de resistir, parece não apenas aceitar esse ambiente — alimenta-o. E com isso, a democracia fragiliza-se.
Dois episódios recentes ilustram bem este diagnóstico. O primeiro: a polémica entre Rita Matias e Catarina Furtado. A deputada do Chega, despeitada
por ser confrontada com a sua ignorância, escolheu o ataque pessoal como forma de resposta a uma figura que tem dado voz a causas sociais com consistência e trabalho no terreno. A hostilidade desinformada substitui a divergência. Não se trata de discutir políticas, mas de anular simbolicamente quem pensa diferente.
A ignorância passou a ser uma estratégia.
O segundo: a pequena controvérsia em Guimarães a propósito da escolha de Carolina Deslandes para o cartaz das Festas Gualterianas. A artista havia
condenado os insultos racistas dirigidos a Marega, por alguns, no Estádio D. Afonso Henriques. Não confundiu quem o fez com a totalidade dos presentes, nem tão pouco com os habitantes da nossa cidade. Seria natural que todos condenássemos o racismo no futebol, mas muitos têm optado por defender a honra coletiva, mesmo que esta não tenha sido atacada. Extrapolar uma crítica para mexer com os sentimentos de todos. A paixão vence a razão. E numa democracia, quando o orgulho local se sobrepõe à verdade, todos perdemos.
Estes dois exemplos são sintomáticos de um ambiente onde a emoção molda a realidade. O debate torna-se um ringue, onde vale mais o grito do que o argumento, mais a identidade ferida do que o pensamento crítico. O problema é que este ambiente não está confinado às redes sociais. Ele está a
contaminar a política.
Face a esta mudança cultural, o Governo – e os apoiantes dos partidos que o compõem PSD e CDS – tem feito uma escolha preocupante: em vez de
contrariar este ambiente, decide cavalgar a onda. Há um novo pragmatismo no ar — um que troca valores por votos, coerência por sondagens, visão por oportunidade.
Veja-se, por exemplo, quatro medidas anunciadas ou executadas pelo atual governo. A alteração da Lei da Nacionalidade, tornando mais difíceis alguns
caminhos de aquisição de cidadania, responde diretamente ao populismo identitário, que explora o medo do outro e da perda cultural. A revisão da
política de reagrupamento familiar — a mais eficaz ferramenta de integração — é outro exemplo: menos baseada em dados, mais em perceções enviesadas.
A decisão de excluir conteúdos de educação sexual da disciplina de Cidadania é sintomática de um recuo civilizacional. Numa época em que os jovens
enfrentam desafios complexos sobre identidade, consentimento e saúde, abdicar de os informar é, na prática, abandoná-los.
A proposta de excluir a violência obstétrica no plano legislativo, ou de retirar o reconhecimento do luto gestacional, também faz parte deste catálogo.
Decisões que, em nome de uma ideia redutora de família tradicional ou de uma visão ideológica da medicina, negligenciam a experiência concreta de milhares de mulheres. Estas não são políticas neutras — são escolhas que têm impacto real e prolongado.
Em comum, estas decisões partilham um objetivo: ganhos eleitorais de curto prazo, a qualquer custo. Alimentar a base conservadora, não perder votos para a extrema-direita, tranquilizar os que têm medo do presente. O problema é que esta lógica, mesmo que resulte nas urnas, mina os alicerces da democracia: a confiança, a justiça, a inclusão.
Estamos a construir uma democracia de sobrevivência, não de futuro. Uma democracia que se limita a responder ao que arde nas redes, em vez de agir sobre o que corrói na sociedade. Os sintomas estão à vista: o ataque pessoal em vez da ideia, a emoção como prova de autenticidade, o tribalismo como identidade. As consequências, também: políticas que retrocedem em direitos, alimentam fantasmas e trocam visão por voto.
Ainda vamos a tempo de inverter este caminho. Mas só se a política voltar a ter coragem. Coragem para falar verdade, mesmo quando ela é impopular.
Coragem para educar, em vez de ceder. Coragem para ser exigente, mesmo que isso custe likes ou lugares.
Durante algum tempo acreditei que perante a ignorância atrevida, a melhor solução era a omissão. Não mais! Porque a democracia não se destrói num
grito — destrói-se com silêncios cúmplices de quem devia ter falado a tempo.
Publicado em: 29/07/2025