A exposição da Muralha, uma exibição pública de imagens da sua coleção de fotografia, na Rua Paio Galvão, nºs 6 e 7, todos os dias, entre as 21h30 e as 00h30, até 14 de setembro, pretende, de forma simples a quem passa, dar uma noção da evolução dos nomes das nossas ruas e praças, o seu significado e história.
Numa exposição, sem sítio recatado, que pretende captar, por momentos, a atenção de quem por ela passa, a informação é naturalmente económica, sintética. Ciente dessa natureza muito essencial da mostra, a Muralha fará, nos meses a seguir à exposição, um conjunto de visitas guiadas às ruas e praças da cidade onde toda a investigação histórica que foi feita, com a participação fundamental da Maria José Meireles e do António Amaro das Neves, será mais completa, levando mais informação a quem assim a deseje.
O nome dos sítios, das ruas, das praças, são, até ao séc.XIX, muito lineares. Esses nomes identificam características físicas (Rua Escura, a atual Gravador Molarinho, Rua Entre Regatos – Santa Luzia e Couros – depois apocopada para rua dos Gatos, a atual D.João I, Rua Nova do Muro, a atual Egas Moniz, pelo facto das construções se encostarem à muralha medieval), de uma construção dominante (Rua de S.Domingos, parte superior da Rua D.João I, ou Cano das Gafas, que se referia ao aqueduto que transportava água para a vila e para o gafaria de leprosas nesse lugar existente, ou Rua de Santa Luzia em referência à capela), ou de atividades económicas (Couros, Rua da Sapataria, parte da atual Rua D.Maria II, Campo da Feira, Feira do Pão). Tudo
muda a partir de finais do séc.XIX. A rainha D.Maria II visita Guimarães em 1852, recebe as chaves da cidade e faz um percurso do Toural à Colegiada perante a aclamação pública. No ano seguinte, ano em que a rainha morreria na sequência do seu 11º parto, aos 34 anos, e o trajeto por ela efetuado ganha o seu nome – ela que eleva Guimarães a cidade-, desaparecendo os nomes das ruas que lhe dão origem (Rua da Sapataria e Rua dos Mercadores).
O final do séc.XIX é muito prolífico no aparecimento de novos nomes (Camões, em 1880, substituindo a Rua Nova das Oliveiras, Rua D.João I em 1863, Rua de Santo António em 1873, substituindo o nome das três ruas que a compunham, o Campo da Misericórdia (por nele existir a igreja com o mesmo nome) passa a Largo de João Franco em 1866, homenageando o deputado eleito por Guimarães que se tornaria presidente do Conselho de Ministros (1906-1908), as novas
Ruas de Gil Vicente e de Paio Galvão, abertas em 1873, entre outras. Tal revolução na toponímia só teria paralelo aquando da implantação da República, em 1910, durante o Estado Novo (particularmente na década de 1940) e após o 25 de abril de 1974.
Nem todos os nomes vingam. Mesmo tratando-se de personalidades ou acontecimentos importantes, é na voz de quem as usa, vive e atravessa, que os nomes ganham sentido. O Largo Condessa do Juncal (benemérita da Santa Casa da Misericórdia) ou o Largo República do Brasil (em homenagem ao país que cedo reconhece a República Portuguesa) não vingaram, a Feira do Pão/Leite ou o Campo da Feira são nomes ainda hoje usadas por todos nós. O mesmo se passa com a Rua Francisco Agra, a quem todos chamamos de Santa Luzia, ou à Rua Egas Moniz que ficará para sempre Rua Nova, pois havia sido Rua Nova do Muro e, posteriormente, Rua Nova do Comércio. Mesmo o venerado Afonso Henriques que deu o nome ao Toural, com diferentes
cambiantes, entre 1911 e 1940, não resistiu à antiga designação, e até a sua avenida ainda é chamada de Avenida Nova (já o foi em 1901!), por contraposição à Avenida Velha (D.João IV).
As duas estarão sempre muito ligadas, mudando de nome ao mesmo tempo: uma já foi avenida do Comércio e a outra da Indústria (entre 1901 e 1910), uma Cândido dos Reis e a outra Miguel Bombarda, até 1943, ganhando os nomes oficiais a partir desse ano. Mas a avenida nova e a avenida velha ainda resistem.
Há ruas que conservam o seu nome desde, pelo menos, o séc.XIII, atestando a sua longevidade física e toponímica: Arrochela, Santa Maria, Val de Donas, Caldeiroa. Outras há em que o significado dos nomes por vezes escapa: Paio Galvão (1165-1230), cardeal nos Estados Pontifícios, protegido de D.Sancho I, que, de certa maneira, representava o novo Portugal, João Lopes Faria (1860-1944), organista da Oliveira e considerado, pelos seus manuscritos sobre Guimarães, como o “dicionário”, Gravador Molarinho (1828-1907), gravador de ourivesaria e marfim, que nas horas vagas enchia a rua com canções napolitanas, e cujo monumento a ele dedicado se encontra na Feira do Pão (Largo Condessa do Juncal), São Dâmaso (papa entre 366
384), que se especula ter nascido nestas terras, apesar de Idanha-a-Nova reclamar esse nascimento, hoje nome de Alameda que passou por imensas designações e cuja igreja foi deslocada para o Campo de S.Mamede, Cónego Gaspar Estaço (1563-1626), cónego da Colegiada e reputado historiador que dedicou parte da sua vida ao Livro de Mumadona Dias, os irmãos Alberto Sampaio e José Sampaio, nascidos no mesmo ano de 1841, cujas ruas se ligam na Senhora da Guia, entre
tantos outros ilustres concidadãos.
Os nomes das ruas e praças têm uma história e um sentido que, para além das mudanças toponímicas, é dado por quem as vive. Esta exposição, com o apoio d’ A Oficina, é um exercício expositivo sobre essa dinâmica. No final, com as visitas guiadas que a complementarão, estaremos em linha com este nosso (eterno) propósito de nos conhecermos melhor através da nossa história comum.
Publicado em: 06/08/2025