Nas últimas semanas tenho dedicado as segundas-feiras a visitas institucionais, juntamente com os restantes deputados eleitos pelo PS no distrito de Braga,
começando pelas Câmaras Municipais e pelas Instituições de Ensino Superior. Para além do contacto direto com o círculo eleitoral e da construção de pontes de cooperação com outros eleitos, estes encontros permitem abordar problemas e necessidades concretas das populações, tornando a ação parlamentar mais efetiva, mais informada e, sobretudo, mais próxima.
Para além desse efeito imediato, estas visitas conduzem a um aprofundamento da visão de conjunto sobre o território e as suas possibilidades de desenvolvimento. É nesse espírito que parto de uma recente pergunta parlamentar dirigida ao Governo para refletir sobre o futuro de Guimarães e o seu modelo de crescimento.
Essa pergunta diz respeito ao possível alargamento da Variante Guimarães–Fafe (em muitas partes do percurso com apenas uma via), mas tornou-se, para mim, ponto de partida para uma reflexão mais abrangente sobre as possibilidades de reforço da cooperação entre territórios.
Ao longo das últimas décadas debatemos, sobretudo, as ligações de mobilidade com Braga e com o Porto. São ligações importantes, assentes em dinâmicas sociais e económicas que valorizam Guimarães: o Porto como a grande cidade a norte, porta de acesso à rede ferroviária nacional e ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro; Braga como capital de distrito, cidade vizinha com o principal polo da Universidade do Minho e futura estação de alta velocidade.
Além das questões de mobilidade, o eixo Guimarães–Porto é, historicamente, uma fortíssima área industrial e um território onde o concelho tem alguns dos seus principais polos de desenvolvimento urbano: Pevidém, Ronfe, Moreira de Cónegos, Lordelo e Serzedelo. O mesmo acontece com Braga, particularmente nas dinâmicas que cobrem Caldas das Taipas e Brito e, mais recentemente, com o crescimento do Avepark, na freguesia de Barco.
Menos atenção das políticas públicas de desenvolvimento têm tido outras áreas do território concelhio, como é o caso particular da ligação a Fafe, concelho com fortes laços históricos, sociais e económicos a Guimarães. É aí que assenta a questão formulada, e a reflexão que ela convoca.
Mas quando falamos no desenvolvimento de Guimarães no sentido de Fafe, não nos circunscrevemos à variante nem à ligação entre dois concelhos vizinhos. A expansão nessa direção tem uma abrangência muito maior, se alargarmos o olhar a todo o entorno da montanha da Penha – orografia que, eventualmente, nos fez preferir outras direções de investimento ao longo dos anos.
Não retomaremos tão cedo o erro histórico do abandono da ferrovia para Fafe, mas lá chegaremos, particularmente quando o Plano Nacional Ferroviário começar a revelar desenvolvimentos nas ligações complementares aos eixos principais. No imediato, na opção preferencial das últimas décadas, a rodovia, este eixo conheceu já desenvolvimentos relevantes com a abertura da entrada Guimarães Sul e a melhoria das ligações aos territórios servidos por essas infraestruturas.
No entorno, Fafe, Felgueiras, Cabeceiras de Basto e Amarante e, complementarmente, Celorico de Basto, Mondim de Basto, Ribeira de Pena e toda a porta para Trás-os-Montes, formam um conjunto territorial com enorme potencial por explorar.
Nas gerações nascidas antes dos anos 60, não faltarão em Guimarães exemplos de ligações familiares, de colegas de escola ou de percursos laborais que nos relacionem fortemente com esses territórios. Guimarães foi destino de migração interna de famílias inteiras oriundas desses concelhos, facto ligado a um desenvolvimento então mais acelerado, mas também à condição deste concelho como “porta para o litoral” dessas regiões do país. Essa memória não é apenas sentimental: é um argumento de fundo sobre o papel que Guimarães pode e deve voltar a desempenhar.
Este foco de atenção é tão crucial para Guimarães, pelas possibilidades de crescimento que abre, como para esses territórios, que encontrariam neste desenvolvimento um fortalecimento da sua ligação ao litoral, com tudo o que isso implica em termos económicos e sociais.
Quando Guimarães luta por se ligar de forma mais intensa ao Porto, cuida da sua inserção no país. Quando estreita a relação com Braga, fortalece o desenvolvimento do território através da dinâmica entre duas cidades vizinhas de média dimensão, alicerçadas, desde logo, numa Universidade comum. Mas quando cuida da sua ligação a Fafe, Felgueiras, Amarante ou Chaves, traz uma região com mais de 400 mil habitantes – considerando os distritos de Vila Real e Bragança, e os territórios do distrito do Porto que se cruzam neste eixo – para as mesmas dinâmicas de ligação ao litoral e ao restante país.
O desenvolvimento neste sentido tornaria verdadeiramente Guimarães no centro de uma estratégia de crescimento partilhado com o interior. Este país desigual costuma privilegiar o eixo litoral, mas ser a porta de entrada para o interior encerra um potencial que está longe de estar esgotado.
Fica o desafio: nascido de uma pergunta simples, mas que nos convida a um olhar mais ambicioso e mais justo sobre o desenvolvimento da nossa região.
Publicado em: 24/03/2026