Aí está Guimarães, Cidade Natal. Iluminações, animação, carrossel francês, casa do Pai Natal, árvore de Natal no Toural, trenó iluminado na Alameda,
pista de gelo, mercado, roda gigante, concertos… O programa é vasto. A criação e desenvolvimento do conceito, a divulgação e o andamento do programa festivo implicam, visivelmente, uma significativa mobilização de recursos materiais e humanos, naturalmente consensual entre os nossos decisores municipais, os que agora estão e os que estiveram antes. E percebe-se porquê: faz parte do caminho traçado para afirmar Guimarães como uma cidade cosmopolita que transpira modernidade. Seguimos para onde sopra o vento.
Pelo caminho da conversa, já se percebe que, no parágrafo de abertura deste texto, falta um “mas…”. Nada tenho a opor nem à modernidade, nem à animação natalícia na cidade. Nos dias que correm, Guimarães não se deixa ficar para trás e veste-se como qualquer outra cidade do nosso tempo. Mas, enquanto isso, há algo de nosso que vamos deixando morrer.
Em Guimarães, o período de Natal começava no último dia de novembro, por altura do Santo André, que tinha festa junto à capela de S. Lázaro, com continuação nos arraiais da Senhora da Conceição de Fora, a 8 de dezembro, e de Santa Luzia, no dia 13. Esta última coincidia com uma feira onde as famílias vimaranenses se abasteciam, entre outos produtos da época, dos frutos secos que vão para a mesa da consoada.
Nessas três festas apareciam bancas passarinhas e os sardões, figuras toscas revestidas a açúcar e decoradas com papéis coloridos. Nos nomes e nas formas, “a malícia é evidente!” (a exclamação é do historiador e professor de medicina Luís de Pina).
A festa das passarinhas acontece no dia de Santa Luzia, a protetora dos olhos e está carregada de ironia maliciosa. Diz o povo que o amor entra pelos olhos. Quando se pede à santa que proteja os olhos, rapazes e raparigas lavam as vistas e trocam promessas carnais. O sagrado cura os olhos; o profano alegra a vista.
Diz-se que, na Guimarães de tempos idos, a ida à feira de Santa Luzia era um dos poucos momentos em que os rapazes e raparigas podiam interagir sem a vigilância apertada dos pais. A compra do doce servia de bilhete de entrada para uma conversa. O rapaz perguntava: “aceitas um sardão?”. Se ela anuísse, estava tacitamente a aceitar a companhia dele durante a feira. Na volta, nova pergunta: “dás-me a passarinha?”. Se a moça lha entregasse, estava o namoro arranjado. Era um “Tinder” comestível.
O namoro com pastelaria não é um exclusivo de Guimarães. Os parentes mais próximos das passarinhas são de Amarante, os vernáculos “quilhõezinhos” ou “caralhinhos” de S. Gonçalo. O paralelo mais interessante encontramo-lo bem mais para norte, na Holanda e na Bélgica. Associa duas tradições singulares, comuns a Guimarães. Durante a festa de S. Nicolau (5 e 6 de dezembro), era tradição oferecer grandes bonecos de speculaas (bolacha de especiarias) chamados vrijer. O rapaz oferecia um boneco em forma de homem. Se fosse aceite, estava o namoro assumido.
Tal como a passarinha e o sardão, esta é uma proposta de compromisso comestível. Uma tradição que está a desaparecer — não os bonecos, que se vendem aos milhares, mas o significado amoroso.
Em Guimarães, estão ambos em extinção — os doces e o significado. Na festa de Santa Luzia de 2025, só havia uma banca com passarinhas, sardões e afins, a da D. Cidália, a derradeira guardiã da tradição. Enquanto a última artesã moldar a massa na Feira de Santa Luzia, resiste uma forma de amar que envolve doçura, proximidade e toque. Se deixarmos morrer o sardão e a passarinha, o que resta? Um ‘gosto’ numa rede social qualquer, uma caixa de chocolates anódinos comprada à pressa e mais uma tradição vimaranense única a desaparecer. Se nada se fizer para o evitar.
Esta forma de celebração do namoro, em que o sagrado e o profano se conjugam numa troca de doces e que é uma sobrevivência da tradição dos rituais de inverno e de fertilidade europeus, pode ser salva. A sua salvação não virá da cristalização, mas sim da introdução de ajustes ao tempo que corre, sem desvirtuar o seu significado.
Poderíamos começar por assumir que este ritual de namoro e fertilidade constitui um valor cultural de Guimarães e que o queremos preservar. Sabendo que o sardão não é feito de pão-de-ló, a adaptação poderia começar por uma chamada aos nossos pasteleiros para o tornar em algo que faça salivar os gulosos.
Não haveria grande dificuldade em conjugar tradições de Guimarães compatíveis com a quadra natalícia. O calendário da Cidade Natal poderia abrir portas no dia de Santo André, integrar a Senhora da Conceição e Santa Luzia — com passarinhas e sardões, esqueçam o S. Valentim alienígena: esse é o nosso dia dos namorados; apresentar às crianças o S. Nicolau original, o nosso, em vez da cópia pirata da Coca-Cola; substituir a árvore de plástico no Toural pelo Pinheiro dos estudantes, engalaná-lo e fazer dele a nossa árvore de Natal comunitária.
Ou isso ou deixar morrer o que nos distingue, para nos tornarmos iguais ao resto.
Publicado em: 16/12/2025