O debruçar sobre a organização do território compele à imediata compreensão de escala espacial. Assim e mesmo quando circunscrita à realidade de um país
(situação que ainda
aparece como quase única), no presente e em qualquer contexto político-social moderno, logo se a apreende como integral, regional e local (com eventuais subdivisões nestas duas). E naturalmente na necessidade de um encaixe inverso para coordenação, pois as soluções locais não podem conflituar ou prejudicar as regionais, nem estas as globais.
Em qualquer caso, a acrescer ainda, deve-se atender às visões gerais e só, depois, às pormenorizações. E também à organização da administração pública do país, no que concerne à sua hierarquização, respectivas atribuições e competências.
Com este conjunto de parâmetros, numa democracia parece, e é suposto, que as opções locais possam ser integradas nas regionais e estas nas nacionais; sempre sem lesar o interesse colectivo, e bem comum, que as visões mais amplas legitimamente contemplam e, por isso, devem ser tidas em atenção e prevalecer. O que, desde logo, recomenda um permanente intercâmbio de planeamentos entre as diferentes escalas.
Avançado este prólogo, desloquemo-nos para o nosso município e para a área da mobilidade neste. E nesta preferencialmente para a viária.
Assim e no que toca ao ordenamento nacional, ele cingiu se às A7 e A11, pois as anteriores EN’s 101, 105, 206 e 310, não sofreram quaisquer alterações significativas, nem se conhecem novos projectos de intervenção. E quanto àquelas autoestradas, em funcionamento, o que se pode reparar, e lembrar, foi a péssima modificação das saídas/entradas para a cidade, pela alteração da inicial previsão de um grande trevo em Silvares (e o estapafúrdio remendo que disso resultou) e também o desvio da continuação da A11 pelo norte da cidade, por Fermentões e em direcção a Atães, rumo à Portela de Arões. E a inovada saída/entrada de Serzedelo. Desvio e inovação que, a seu tempo, não foram devidamente divulgados, nem, muito menos, esclarecidas as suas razões. Enfim, o costume!
Mas a mobilidade não se reduz à rodoviária, nem, muito menos, à respeitante às pessoas. Subsiste a esta última a de carga, cuja eficácia é um factor importante para um
desenvolvimento económico sustentável (palavrão de uso e invocação corrente, a torto e direito, para tudo e em qualquer circunstância). Ora sendo o médio Ave uma zona de forte
implantação de indústria transformadora, logo se depreenderá a importância de um moderno serviço ferroviário que lhe faculte as melhores condições de transporte do e para o seu exterior; com ligações ao marítimo e aéreo.
Assim e uma vez a viária delineada, avancemos para a ferroviária. Nesta e seguindo o natural ordenamento territorial por bacias hidrográficas, no fim do século XIX, construiu-se o
caminho de ferro da Trofa a Fafe (já sem ele), de via única e com bitola estreita. Na evidência actual de que, não obstante interversões relativamente recentes, ele não se mostra adaptado às necessidades efectivas da região (poucos se lembrarão dos armazéns da Estação da CP e do movimento de mercadorias que por ali se realizava), nem apresenta condições para as satisfazer eficazmente. Pelo que, à volta de há quatro décadas, se tem defendido a criação de uma nova linha que ligue o município à Trofa (menos de 20 km em linha recta) e com seguimento para o Porto, porto de Leixões e aeroporto Sá Carneiro (isto porque, sendo Guimarães o polo interior mais importante da bacia, justifica essa opção; sem esquecer o contributo da riqueza nela criada para o erário público e que assim ainda poderia beneficiar disso). Aliás e noutra agulha, a uma velocidade módica para o presente, as ligações com o Porto e vice-versa, poderiam estabelecer-se em escassas dezenas de minutos; aproximando as duas cidades para tempos quase urbanos e com vantagens para ambas. E prolongando esta perspectiva, estabelecer-lhe uma ligação exequível e rápida com o futuro trem de alta velocidade Porto/Vigo (cerca de 105 Km em linha recta; e aquela, por definição, superior a 250 Km/h e que, portanto, não se compadece com paragens em tramos curtos, pois, basta pensar no espaço para uma massa como a desse comboio atingir a sua velocidade de cruzeiro e seguinte sua imobilização, para se perceber a paroquialidade de algumas pretensões). E quanto a esta modalidade parece que nada mais se poderá acrescentar.
Passa-se, assim, para marítima e depois para a aérea. E nelas pouco se poderá dizer. Da primeira, as condições das barras de Viana, Póvoa, Douro ou Aveiro, não são as melhores e
tirando o limitado Leixões, não se podem esperar grandes soluções; até porque Vigo, se a ferroviária funcionar como deve ser, pode ser a alternativa. E da segunda, não se vislumbram
inovações significativas, malgrado as evidentes restrições de que o aeroporto Sá Carneiro sofre. Crê-se, porém e quanto a esta circunstância, que se deveria começar a pensar numa localização futura capacitada para servir convenientemente a região Norte; bem como para, nesse estudo, se ter em atenção a previsível evolução dos meios aéreos (helicópteros, drones, etc., etc.). Assim, por todas as voltas e reviravoltas que o aeroporto de Lisboa (e não o do país que o custeia e, ou, outorga contrapartidas) deu, e do que nele já se gastou, impõe-se desde já uma solução devidamente ponderada para o Norte, como será de todo direito e equidade.
Mas deixemos o nacional e voltemo-nos para o regional, onde pouco, ou mesmo nada, há que memorar. Salvo se aí se poder encaixar a VIM, carrocélica via de péssima visão estratégica que, sugerindo um fragmento duma circular externa do município, mais não fez que do que interiorizar Guimarães e facilitar a dispersão ocupacional. Posto isto …
Posto isto, passemos finalmente para a local. E aí, no desconhecimento de qualquer planeamento anterior, quedemo nos pelo Plano Geral de Urbanização de Guimarães, de 1982.
Nele abordava-se o problema da mobilidade, concebendo a sua estruturação primária e disciplinadora, através das circulares urbanas interna e externa. Com elas, desde logo, pretendia-se também ultrapassar o já então problema do tráfego de atravessamento que, inclusivamente e na altura, se fazia pelo centro da cidade. E apontava-se o previsível trajecto da parte sul, poente, norte e nascente da interna (único que for concretizado e está em funcionamento). Quanto ao seu fecho, o do lado nascente sul, dada a orografia e a densidade ocupacional, entendeu-se então ser necessário mais reflexão sobre as alternativas e deixar a sua definição para tempo ulterior, face à urgência dum instrumento de gestão global credível (o que permitiu o imediato avançar com planos de pormenor para alguns zonamentos estabelecidos). E da exterior, apenas se apontou a ligação que parecia natural de Nespereira (EN 105) ao Carreira (EN 206); que anos depois prosseguiu com o errático traçado de ligação de Silvares (EN 105) a Fermentões (EN 101).
Entretanto, já antes ou sobretudo depois, foram-se tentando resolver problemas pontuais, como, por exemplo, a ligação de S. Tiago a S. Matinho de Candoso, a ligação de Covas à Abação, a ligação de Gémeos a Calvos e EN 101, as ligações do Sameiro a S. Lourenço de Briteiros, ou da Falperra a Longos, a ligação de Monte Alvar ao centro de Ronfe, a ligação da EN 206 à EM 310 (Brito a S. Jorge de Selho), etc., etc.. Tudo sempre e sem um planeamento assente numa visão global. E pode compreender-se a premência, a força da pressão e até o elevado custo que uma solução global acarretaria, ainda que faseada. Mas só ela, perante o ordenamento que temos por aí, conseguiria e conseguirá finalmente criar acessos capazes, eficientes e fluidos, para superar estrangulamentos e congestionamentos que se verificam.
Mudando mais uma vez de modalidade e na evidência de que nenhuma achega se pode trazer para a marítima, ou até fluvial, uma curta referência para a aérea, onde se rememora aquele grupo de vimaranenses que, pela década de sessenta setenta, pretendia construir um aeródromo, ou melhor, um aeroclube. Infraestrutura que continua a fazer sentido e que
poderia albergar um heliporto e restantes actividades correlacionadas que aí se pudessem praticar.
Aqui arribados, apenas aditar que a razão destas palavras advém duma notícia, com ilustração, que há semanas veio neste jornal e aonde se indicavam cinco remendos que se dizia que iriam resolver pontos quentes que ocorrem. Pergunta-se, não será tempo de parar com estes toscos remedeios? Alias e um deles, o primeiro no artigo, terá a segunda intervenção em curtíssimo espaço de tempo. E ficará por aí?
Fundevila, 10 de Junho de 2025
Publicado em: 17/06/2025