A pedra angular da nossa identidade coletiva assenta na Fundação de Portugal. Somos orgulhosamente o Berço da Nação.
E é sob essa fundação que temos construído Guimarães, ao longo dos séculos. Camada após camada. O património edificado, a cultura, o conhecimento, a indústria. Mais recentemente, acrescentou-se a camada da sustentabilidade. Mas para a construção de um futuro sustentável, em todas as dimensões, é preciso acrescentar a camada da inovação.
Inovação pode soar a lugar comum, mas é mais do que isso: é tangível. É a transformação de conhecimento em valor: um produto melhor, um processo mais eficiente, um novo serviço que resolve um problema real. Difere da investigação e da produção de conhecimento por essa componente (quase) material: a inovação ocorre no momento em que uma ideia sai do laboratório e se traduz em faturação, em postos de trabalho, em capacidade exportadora. É valor acrescentado, medido em euros, em (melhores) empregos, em qualidade de vida.
Nas últimas décadas, um dos principais focos, e mais discretos, do investimento municipal foram em infraestruturas do conhecimento, associadas à UMinho e ao IPCA. É urgente materializar este investimento “imaterial” do conhecimento, da produção de ciência e de capital humano, para a atividade económica.
Ricardo Araújo tem usado a expressão feliz que condensa esta ideia: “Guimarães, do Berço da Nação ao Berço da Inovação”. Uma ideia de passagem, quase de ponte a ligar margens de um rio. E as “margens” que esta ponte liga já cá estão.
Temos as instituições de ensino superior, onde pontua a Universidade do inho. Em Guimarães marcam presença quatro escolas, três delas cá sedeadas (Engenharia, Arquitetura, e o I3Bs) e nove unidades de investigação.
Estão cá ainda instituições especializadas precisamente na transferência de conhecimento para as empresas, os antigos Centros de Tecnologia e Inovação (CTI), Colabs e outras instituições de índole semelhante. Mais que isso, temos aqui a mais relevante infraestrutura de ponta a nível nacional em supercomputação e IA: o “Minho Advanced Computing Center”, do qual faz parte o Deucalion.
Mas aqui surge o paradoxo: são os próprios CTI que reconhecem trabalhar mais com empresas de concelhos vizinhos do que com empresas de Guimarães. Ou seja, a transferência do talento e conhecimento aqui produzidos é transferida através do desenvolvimento de produtos e serviços especializados, mais para fora do que para dentro do concelho.
Esta é uma realidade que é preciso mudar. Porque Guimarães é (re)conhecida pela sua capacidade empresarial e empreendedora, dos setores tradicionais como o têxtil e vestuário, a setores com maiores índices de inovação, como da indústria médica e cirúrgica.
O problema não é a falta de peças. É a falta de ligação entre elas.
Guimarães tem uma vantagem rara: identidade histórica muito forte e, ao mesmo tempo, ativos tecnológicos de primeira linha. O desafio que Ricardo Araújo lança é fazer com que esses ativos trabalhem juntos, de forma coordenada, ao serviço de quem aqui vive e trabalha. É assim que se passa do Berço da Nação ao Berço da Inovação.
Publicado em: 02/06/2026