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Cultura em Guimarães? Um Mimo!

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Ficámos a saber na passada semana que o Município de Guimarães contratualizou a vinda do Festival MIMO, por um ajuste direto de 600.000 euros.

Decatlon

Tal justifica-se pela contratação de “uma marca” e corresponde a um evento alinhado com a estratégia política do atual executivo para a área da cultura. “A cultura e os seus eventos associados não são apenas programação, mas oportunidades de desenvolvimento, de crescimento, de dinamização da economia local, de criar valor e de gerar esperança no futuro do concelho”, nas palavras do Executivo.

O evento foi anunciado na imprensa local como tendo um impacto de 10 milhões de euros: “74 mil participantes, 18.500 visitantes com dormida na cidade e arredores, gerando entre 18 e 40 mil dormidas, e um valor indiscriminado de visitantes, locais, regionais, nacionais e do estrangeiro, de artistas e agentes culturais, novos públicos”.

Há três temas principais que esta notícia suscita: a importância do evento, o impacto económico e turístico e a estratégia cultural e turística para o concelho.
Vamos, então, por partes.

O primeiro tema resolve-se numa frase: o MIMO é um Festival prestigiado, com cartazes artisticamente relevantes e com afluência reconhecida do público português e internacional. Que fique claro, para que esta certeza sirva de base serena à restante análise.

O segundo tema é particularmente inquietante. O MIMO terá 9 datas, mas apenas 3 delas são de evento para massas. De 27 de junho a 2 de julho o festival estará no Largo Condessa do Juncal com cinema e DJ’s. Ou seja, das 9 datas, apenas 3, 4 e 5 de julho são dirigidas às “milhares de pessoas” que, segundo se anuncia, visitarão Guimarães.

O concelho tem entre 2500 e 3000 camas. Se todas ficassem preenchidas pelo Festival – e em princípio assim não será, porque nesta altura do ano as taxas de ocupação já tendem para números bastante significativos – estaríamos a falar em 9000 dormidas, no máximo. Se o MIMO vai ser capaz de gerar 40 mil dormidas, importa perceber em que concelhos se irão concretizar as restantes.
Porque o investimento, esse, será de uma única autarquia. 

Com este exemplo simples e verificável percebe-se o desfasamento entre o possível impacto real e os 10 milhões de euros anunciados.

Passemos, pois, ao terceiro tema: a estratégia cultural e turística para Guimarães.

Começo pela vertente turística. Se os dois maiores problemas do concelho são a sazonalidade da procura e a dormida média próxima de duas noites – com uma evolução positiva nos últimos anos, diga-se em abono da verdade – que objetivo estratégico cumpre um evento de três dias em época alta?

No que à estratégia cultural diz respeito, a questão é mais profunda. E levanto três dimensões fundamentais das dúvidas que esta aposta suscita: a colisão no calendário com outros eventos, a sustentabilidade do setor cultural vimaranense e a importância estratégica da régie-cooperativa A Oficina.

Ao longo dos últimos anos foi feito um trabalho cuidadoso de organização do calendário cultural do concelho, procurando não sobrepor projetos com públicos semelhantes e distribuindo ao longo do ano os diferentes festivais e eventos. As datas escolhidas para o MIMO colidem historicamente com o São Pedro nas Taipas, a Feira da Terra em São Torcato, o Sunset Praça no Toural e o EITA — Festival Internacional de Tunas, que percorre um caminho interessante de afirmação num nicho e traz várias nacionalidades a Guimarães.
Temo pelos efeitos deste choque sobre eventos que construíram, com esforço e tempo, o seu próprio público, especialmente quando confrontados com a escala que se espera alcançar.

A sustentabilidade dos projetos culturais vimaranenses é o segundo fator a analisar. Um festival organizado por uma entidade local depende de bilhética própria, de financiamento municipal, de patrocinadores privados ou de outros programas de apoio. Um evento desta escala (e gratuito) introduz uma entorse profunda no “mercado da música” em Guimarães: se tenho acesso a este festival de graça, porque haverei de pagar por outro promovido por uma entidade vimaranense? E sabe-se porque este evento tem a capacidade de ser
gratuito: porque a Câmara de Guimarães paga 600.000 euros por ele.

O que nos leva à questão seguinte. O orçamento municipal tem limites e não consegue chegar a todas as frentes. Quem investe 600.000 euros no MIMO deixa de os investir noutros eventos potencialmente estratégicos. O Mucho Flow acontece em época baixa, durante o outono, foi nomeado para melhor festival europeu e recolhe da crítica internacional as melhores referências. Traz público de dezenas de países a Guimarães e projeta o território com consistência. Vive com cerca de 50 mil euros de apoio do Município. Onde poderia chegar com um investimento de outra escala? A mesma pergunta faço para o Rock no Rio Febras.

A diferença fundamental é que investir nestes projetos é também investir em associações residentes em Guimarães, com agentes culturais locais que recorrem a fornecedores de serviços locais. Estamos a falar, verdadeiramente, da sustentabilidade e do crescimento do setor e não de um OVNI que aterra e levanta.

Igual dúvida tive no passado quando decidi, enquanto vereador, trazer para Guimarães o Courage, com duas diferenças essenciais. O festival custou 10% do que custa agora o MIMO e realizou-se em época baixa, num fevereiro nada favorável à hotelaria local. No mesmo ano, reforçámos o investimento no Mucho Flow e no Rock no Rio Febras, que dei como exemplo neste artigo.

Este efeito de deslocamento não se limita ao orçamento municipal. O MIMO contará também com o apoio do Turismo de Portugal e de patrocinadores privados. Ora, quando estas entidades estiverem a ponderar investir em eventos em Guimarães, porque haveriam de apoiar outras iniciativas se já o fazem num projeto em que o próprio município investe a esta escala? Esta concentração fecha portas, não as abre.

Por fim, a dimensão que mais interrogações levanta: a posição estratégica d’A Oficina. A Cooperativa que gere os equipamentos culturais públicos e os programas tem uma transferência anual do Município na casa dos 4 milhões de euros. Para manter os vários equipamentos, precisa de uma equipa de recursos humanos que consome cerca de 37% desse valor. Em custos fixos de manutenção e gestão dos edifícios, vão-se cerca de 1,2 milhões de euros.
Sabendo que a Cooperativa gere ainda o programa Mais Três, nas escolas de Guimarães, consumindo cerca de 500 mil euros, sobram para a programação dos vários equipamentos e para um conjunto de eventos âncora como o Guidance, o Guimarães Jazz ou as Festas Gualterianas, cerca de 700 mil euros. Para todo o ano!

Como pode a principal entidade cultural de Guimarães que gere o Centro Cultural de Vila Flor, a Casa da Memória, o Centro Internacional das Artes José de Guimarães, o Teatro Jordão, o Centro de Criação de Candoso, o Espaço Oficina, os Fornos da Cruz de Pedra e a Loja da Oficina ter para doze meses o  mesmo valor que um festival que dura, na verdade, três dias? É uma pergunta que merece resposta antes de qualquer ajuste direto futuro.

A conclusão perante todas estas dúvidas é simples: o MIMO é um evento importante, que comporta riscos reais para o setor, mas que não pode significar o esvaziamento do restante programa cultural de Guimarães. Sob pena de a cultura vimaranense se reduzir a um mimo.

 

Paulo Lopes Silva

Publicado em: 19/05/2026

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