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Combate

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A Primavera tem um efeito – mais desejado, do que real – de renovação e de esperança. Em países como o nosso, mais a descair para o Trópico de Câncer

Decatlon

do que a subir para o Círculo Polar Ártico, a Primavera ganha um significado sempre redentor e a boa disposição desabrocha com os dias mais longos e um tempo agradável.

Isso tem normalmente um efeito positivo nas pessoas. Ficam mais relaxadas e disponíveis. Mas, no entanto, se olharmos à nossa volta, em particular na política, fica sempre uma sensação estranha, contraditória e pueril de combate. Até o 25 de abril se tornou, estranhamente, um palco desse combate perpétuo e esquizofrénico que se estende às redes sociais e aos valentões que querem prender e deportar toda a gente. De a política não ser um espaço de debate, mas de confronto irracional e doentio.

A história das nações fez-se, ao longo dos últimos séculos, de guerras e combates. Devo ao 25 de abril o facto de nunca ter ido parar a uma guerra. Com a idade que tenho hoje já será muito difícil que me chamem novamente, no entanto, na Ucrânia e na sua luta pela liberdade, muitos homens da minha idade foram ainda chamados para dar o seu contributo. Cumpri o meu serviço militar obrigatório com a dedicação necessária, apesar de todo aquele tempo me ter atrasado a vida. A esta distância romantizo já a minha participação no exército português, ao banho de humildade e disciplina que tive e merecia na altura. Acho importante, ainda hoje, que todos deem o seu contributo e aprendam a manejar uma arma e entendam os princípios basilares de uma força militar. Nunca se sabe se será necessário defender a liberdade e isso nunca se faz por procuração,
mas, sobretudo, pela dedicação e coragem daqueles que dão valor a essa mesma liberdade.

Estou por isso, por estes dias, com uma boa vontade primaveril de reparar nas coisas boas. E reparo que num mundo cheio de guerras, e num país que “recentemente” apanhou com franceses em cima, com uma guerra civil no início do século XIX, com vários confrontos políticos que se tornaram militares, com a primeira Grande Guerra e com uma Guerra Colonial que durou de 1961 a 1974, eu tive a sorte de nunca ter de empunhar uma arma contra inimigos reais, mas sempre contra inimigos imaginários. Sinto que tive uma sorte imensa, mas sinto igualmente que a sociedade portuguesa, sempre cheia de problemas e contradições, proporcionou-me essa sorte.
Sempre que vejo um noticiário, hoje, reforço-me desse sentimento de bênção e acho que outros portugueses se deveriam sentir, igualmente, como eu. Sinto orgulho numa Europa que soube, desde 1945, conviver de forma pacífica resolvendo os seus problemas e diferenças através da diplomacia e não das armas. Hoje há novamente um cheiro intenso a conflito, a era dos extremos ressurge, uma era que nos atirou para duas guerras, que designadas por mundiais foram, fundamentalmente, europeias. Muitos países europeus reforçam o seu contingente bélico e fazem bem. Mais vale prevenir do que remediar, ou confiarmos na sorte quando temos um facínora russo disposto a pôr novamente as botas cardadas em cima de outras nações.

Até os nossos amigos mudaram. Como nunca me seduziu (longe disso) a ideia de um internacionalismo comunista, ainda por cima porque já vivi numa época em que só acreditava
nessa filosofia política redentora quem não queria ver o óbvio, sempre achei os americanos – com todos os defeitos e excitações – confiáveis. Hoje nem isso. A democracia americana conseguiu fazer eleger democraticamente alguém que corrói história dos Estados Unidos, o seu imenso crédito perante as sociedades ocidentais, como se tudo isto fosse um jogo de redes sociais. De quem fala mais alto, de quem confunde diplomacia e propósito com fanfarronice. Chega a ser deprimente, apesar da Primavera, assistir aos dislates constantes de quem decide utilizar o seu poderoso exército numa lógica de jogo de computador e não de equilíbrio, face à longa e (por vezes) dolorosa história do mundo.

A guerra, por enquanto, está neste paralelo apenas nas nossas cabeças. Outros países, noutros paralelos e noutras longitudes, não têm essa sorte. A guerra expande-se na cabeça, como um cancro, antes de se materializar no projétil, na explosão. Se tivermos a disponibilidade de olhar para os outros enquanto aproveitamos a caminhada primaveril, vamos ver (em todas as idades) as pessoas mergulhadas nos seus telemóveis sem trocarem olhares ou palavras entre elas. Há uma epidemia de monólogos mentais que não se resolvem por proibir os jovens, nas escolas, de utilizarem os telemóveis, pois quando estes chegam a casa a mãe e o pai estão mergulhados nesse mesmo mundo.

Há uns anos atrás as pessoas mergulhavam o seu isolamento pessoal no jornal ou no cigarro. E muitas vezes com inegável prazer. Os jornais são hoje relíquias do passado na loja das raspadinhas. Os cigarros estão caros porque fazem mal. O que é uma chatice para mim que tenho a secreta esperança de sobreviver à nicotina e ao alcatrão.

Quando me pespegam com um pulmão canceroso ou um assustador buraco na traqueia, acho me injustiçado, pois, creio, as redes sociais e os manipuladores algoritmos deveriam ter,
igualmente, imagens chocantes. Mais do que os meus maços de tabaco, seguramente.

Publicado em: 28/04/2026

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