O cozido criado pelo chef Nuno Diniz, servido apenas em ocasiões muito especiais, duas vezes por ano, tornou-se uma verdadeira referência da gastronomia nacional, conquistando estatuto de ícone entre apreciadores e críticos.
Mais do que um prato, este cozido é uma celebração da tradição portuguesa, construída com um rigor quase artesanal e sustentada por uma criteriosa seleção de ingredientes, em especial enchidos e fumeiros de várias regiões do país. Ao longo de 15 anos, Nuno Diniz percorreu Portugal de lés a lés, recolhendo saberes e sabores que viriam a dar origem ao livro Entre Fumos e Ventos, publicado em 2019, onde reúne mais de 110 variedades de enchidos. A obra foi distinguida com o Prémio de Literatura Gastronómica pela Academia Internacional de Gastronomia.
Radicado em Sezelhe, no concelho de Montalegre, o chef encontrou na serenidade barrosã o ambiente ideal para continuar a sua investigação gastronómica, que se estendeu também à escrita, com a publicação de Crónicas de um Cozinheiro no Exílio.
A segunda e última edição deste ano do famoso cozido teve lugar no restaurante Porinhos, em Arões/S. Romão, perto de Fafe, onde as reservas, esgotadas em poucos minutos, confirmam o prestígio crescente do evento. O espaço, recentemente renovado, é liderado por Diogo Novais Pereira, distinguido como Chefe do Ano 2024, que assumiu a execução do prato, coordenando uma vasta equipa.
A singularidade deste cozido começa na preparação minuciosa e prolonga-se na diversidade dos ingredientes: 20 variedades de enchidos e fumeiros, legumes cozidos em água transportada de Montalegre e batata Kennenbec, reconhecida pela sua excelência. A receita incluiu ainda grão e pêra corno, numa evocação subtil do cozido algarvio de Cachopo, conferindo-lhe um toque diferenciador.
À mesa chegaram carnes selecionadas acompanhadas por pão de centeio e osso de suã. A seleção de fumeiros proporcionou uma verdadeira viagem gastronómica pelo país, com especial destaque para o plangaio, enchido raríssimo, produzido exclusivamente em Sobreira Formosa, cuja acidez e intensidade lhe conferem caráter único.
O chef sublinhou o cuidado na escolha de cada produtor, reforçando a importância da valorização dos produtos nacionais e da agricultura tradicional. A acompanhar, arroz carolino do Baixo Mondego, de textura solta e sabor delicado, completou este prato de forte identidade.
A sobremesa, leite-creme da D. Albertina, encerrou o almoço com simplicidade e elegância. A harmonização vínica esteve a cargo de José Silva, com uma criteriosa seleção de vinhos de várias regiões, culminando num Porto Tawny 10 Anos, que fechou a refeição em tom memorável.
Publicado em: 10/02/2026