“In a time of universal deceit, telling the truth is a revolutionary act.”
A expressão que encima este texto (num tempo de embuste universal, dizer a verdade é um ato revolucionário), atribuída a George Orwell,
é usada recorrentemente para defender a liberdade de expressão e denunciar a mentira e a censura. Serve, na perfeição, para enquadrar um fenómeno que hoje contamina o debate público: a utilização da História como um recurso retórico moldável aos argumentos do passado que justifiquem o presente. Talvez não haja exemplo mais irónico do uso político da verdade do que a frase mais citada de George Orwell: uma frase que nunca escreveu, mas que muitos continuam a citar em seu nome.
Poucos autores foram tão frequentemente transformados em profetas retroativos como George Orwell: cada geração encontra no seu 1984 a confirmação das suas próprias inquietações, concluindo que o escritor tinha previsto precisamente o mundo que ela habita.
Esta conversa vem a propósito do que escutei numa iniciativa com a estrela ascendente da direita portuguesa que dá pelo nome de Sebastião Bugalho, organizada por alunos do 9.º ano da Escola Egas Moniz. Lá compareceu uma prática que se tornou rotina no debate público: a evocação dos mortos para que digam aquilo que nunca disseram. O mecanismo é simples: escolhe-se uma figura de prestígio, apaga-se o que pensou, fez e escreveu, e substitui-se por aquilo que, supostamente, diria hoje. Não importa o que está documentado: o revisionismo contemporâneo opera através de um ventriloquismo com o seu quê de macabro: coloca-se na boca dos mortos o que eles negaram em vida. É o que assistimos com Sá Carneiro. Enquanto a direita radical e os arautos do liberalismo absoluto o reclamam como patrono, os arquivos devolvem-nos a voz de um homem que, em 1971, numa entrevista ao jornal República, rejeitava o liberalismo económico e se declarava claramente favorável a “soluções que, se não forem socialistas, serão muito próximo delas” e afirmava que, em democracia, se enquadraria “num partido social-democrata”. Quem hoje o reclama como precursor do populismo antissistema apropria-se de um nome e ignora solenemente uma vida. Trata-se, como bem definiu Pacheco Pereira, de substituir o documento histórico pela projeção ideológica do presente. Reivindicar Sá Carneiro, que defendia um Estado interventor, para que a liberdade não fosse apenas um luxo de classe, para validar o desmantelamento do Estado social, não é apenas um erro de perspetiva — é um embuste que ignora os princípios que o moviam.
O mesmo processo opera, com lógica semelhante, nas novas leituras sobre o 25 de Novembro de 1975, cujo cinquentenário se transformou em campo de batalha de narrativas. Ninguém contesta seriamente que o 25 de Novembro foi relevante. O problema não está em reconhecer a sua relevância na construção da democracia, mas nas distorções que acompanham essa valorização. A principal consiste em apresentar o 25 de Novembro como uma “vitória da direita”, quando os seus protagonistas, militares e civis, mais determinantes se colocavam à esquerda. A releitura dos acontecimentos de novembro de 1975 serve um único propósito: deslegitimar o 25 de Abril.
Mas o revisionismo não atua sozinho. Anda sempre de mãos dadas com dois artifícios que lhe dão cobertura. O primeiro é o negacionismo histórico, que teima em rejeitar as fontes, os testemunhos e os documentos que contradizem a nova narrativa, classificando-os como “visão parcial” ou “ideologicamente distorcida”. O segundo, talvez mais aprimorado, é o argumento do “preconceito ideológico”. Funciona assim: quando alguém apresenta uma posição histórica sólida e documentada que contraria a narrativa revisionista, a resposta é acusá-lo de estar preso a leituras ideológicas. Assim se converte o argumento fundamentado em mera opinião condicionada, colocando factos e opiniões no mesmo plano, como se o rigor documental valesse tanto quanto uma publicação no lamaçal das redes sociais.
O que torna estes três processos — revisionismo, apropriação e negacionismo —particularmente eficazes é que funcionam em sistema. O revisionismo cria uma narrativa alternativa aos factos estabelecidos. A apropriação recupera figuras de prestígio para emprestar legitimidade a essa narrativa. O negacionismo rejeita as evidências que a contradizem. E o labéu do “preconceito ideológico” é o verniz intelectual que permite apresentar esta mistela falaciosa como pensamento crítico e independente.
No fundo, a questão não é ter interpretações diferentes do passado— é isso o que os historiadores fazem sistematicamente. O problema é usar essas interpretações como munição para o combate político do presente, sem qualquer compromisso de rigor. É a diferença entre estudar a História e saqueá-la. Entre compreender o passado e distorcê-lo para se ajustar à narrativa. Entre invocar os mortos para compreender o que pensaram e convocá-los para que digam o que queremos ouvir.
O passado não pode responder a perguntas sobre realidades que desconhecia. Não faz sentido convocar os mortos para validar as opiniões dos vivos. Quando se começa a falar em nome deles, quando se lhes atribui o que nunca disseram e se reinterpreta o que nunca aconteceu, deixa-se de discutir o passado. Passa-se simplesmente a colonizá-lo.
António Amaro das Neves
Publicado em: 10/03/2026