As revoluções não se fazem com aqueles que, como eu, tendem a enervante tendência de ver o copo meio-cheio, em vez de se alarmarem
por ele se encontrar, afinal, meio-vazio. Não se faz a revolução ao ver-se o copo meio-cheio, é verdade, mas pode fazer-se a eficaz mudança de o querer encher mais, sem solavancos. As revoluções alimentam o despeito, a mudança molda-se e altera a realidade, sem a obliterar.
A cultura dominante de que tudo está mal irrita-me profundamente. Seja na vida pessoal ou coletiva. Essa cultura tomou, hoje, conta do espaço público. O exercício de olhar para o que
conquistámos é uma extravagância. Discordar (apenas) é obsoleto. Odiar é o que está a dar.
Não consigo afirmar com certeza se a minha tendência para reparar nas coisas que estão bem tem a ver comigo próprio ou com o meio e a altura em que cresci. Às tantas tem a ver com as duas.
Crescer, como eu cresci, adolescente e jovem adulto, nos anos 80, foi uma experiência marcante e prazenteira. Portugal era um país bem mais atrasado do que hoje é. O tipo de coisas que se diziam eram de uma boçalidade arrepiante, a homossexualidade foi crime até 1983, a balbúrdia nas péssimas estradas que então tínhamos era uma constante, ir a uma consulta na Caixa tinha a emoção e a imprevisibilidade de um totoloto, a presença do FMI era pendular e, vendo o copo meio-cheio, servia para inspirar o José Mário Branco, a pobreza tinha mais de crónico do que de circunstancial, o abuso era frequentemente tolerado. Muitos dos jovens que então cresciam nesses tempos, como eu, estavam a marimbar-se para as circunstâncias externas, mas trabalharam afincadamente naquilo que podíamos melhorar. Tu eras a circunstância, ou pelo menos o agente que a construía.
Toda a energia que o país ganhou com a adesão à CEE, em 1986, já a juventude de então a tinha. Todo o otimismo (não revolucionário) que Portugal então sentiu já estava em nós. Foi só segurar a prancha que então nos deram e surfar a onda. A mudança era uma possibilidade, não uma obsessão.
Apesar do país ter melhorado, apesar do país se ter assemelhado mais à Europa, veio a desilusão de não sermos, afinal, como a Alemanha, como a França. A cultura do pessimismo
ganhou. Prefere-se a angústia da derrota à possibilidade da vitória, mesmo antes, muito antes, de uma ou outra acontecerem.
Finalmente, digo eu, Sócrates senta o ilustre rabinho no banco dos réus. Custou, mas foi.
Contra o dinheiro que ele despudoradamente continua a exibir, contra a sua sobrenatural
resiliência, contra as amizades e favores que o forjaram, contra a centena de recursos e incidentes interpostos. Sócrates aproveitou-se (apenas) das humanistas disposições da lei, que foram feitas de boa-fé para proteger os arguidos. É uma derrota da sociedade? Não creio, ele lá está a responder. E a pinta da juíza presidente em não se deixar enredar pelos artifícios da criatura e sua equipa é de louvar, ou não será? Não poderei ficar satisfeito por o ver a responder? Com atraso, é certo, mas está lá. Finalmente.
Ontem, precisamente ontem, deixei o meu carro na rua, toda a noite, com uma das janelas abertas. Nada de incomum aconteceu. Poderia torturar-me com o esquecimento, prefiro regozijar me com a seriedade de quem por lá passou sem o roubar ou vandalizar.
A idade acelera o pessimismo, é natural e compreensível. O correr do tempo nunca é simpático. Há que, pelo menos, ter disso consciência.
O meu grupo de amigos dos anos 80, continua igual, ou pelo menos parecido ao que éramos.
Lutamos hoje contra a brutalidade do desaparecimento de alguém de quem se gostou muito, nunca faltando ao funeral ou à homenagem, por mais constrangedor que isso possa ser para a nossa vida pessoal e profissional. Ir homenagear o amigo é prioritário sobre tudo. Seja aonde for e quando for.
A viagem é uma homenagem àqueles de quem tanto gostamos. A conversa com os familiares tende sempre a lembrar episódios divertidos, no meio da granítica tristeza. Reconhecer o valor de quem parte, pelo que fez e não pelo que já não poderá fazer. E a homenagem continua, ao almoço e/ou ao jantar, como se ele lá estivesse. A dor não tem nada de otimista, exige tempo, mas a sua esterilidade não nos pode imobilizar o futuro e a memória, quando só a ela podemos recorrer para “estar” com alguém que tanto amamos.
Publicado em: 08/07/2025