Há dias, ao percorrer as redes sociais, deparei-me com uma fotografia recente do antigo Presidente da Câmara Municipal de Guimarães, António Magalhães.
Confesso que aquela imagem me tocou particularmente, talvez pelo contraste com a imagem que guardo de um homem forte, determinado, de convicções firmes e profundamente dedicado à causa pública. Fez-me recordar outros tempos e, sobretudo, refletir sobre tudo aquilo que deu à nossa terra.
A última vez que estive com António Magalhães foi há cerca de um ano, no Paço dos Duques de Bragança, durante a apresentação do livro António Magalhães – O Construtor da Guimarães Cosmopolita, da autoria de Raul Rocha. Guardo desse encontro uma recordação especial, tal como guardo a dedicatória que teve a gentileza de me escrever no exemplar que fiz questão de adquirir. Hoje, mais do que falar daquela fotografia, quero falar do homem, do Presidente e da obra que deixou.
Natural de Cavez, em Cabeceiras de Basto, António Magalhães construiu um percurso político que o levaria à presidência da Câmara Municipal de Guimarães. Em 1989, venceu as eleições autárquicas e iniciou um ciclo de 24 anos e seis mandatos consecutivos, durante os quais liderou uma profunda transformação do concelho.
Quem conheceu Guimarães antes desse período sabe bem quanto a cidade mudou. O Centro Histórico ganhou uma nova vida, abrindo caminho à classificação como Património Mundial da UNESCO, em 2001. O Centro Cultural Vila Flor tornou-se uma referência cultural. O Multiusos, as piscinas municipais e a pista de atletismo deram uma nova dimensão ao desporto. A Plataforma das Artes e da Criatividade valorizou o antigo Mercado Municipal. E, em 2012, Guimarães foi Capital Europeia da Cultura.
Mas essa transformação foi muito além dos equipamentos e das infraestruturas. António Magalhães soube preservar a identidade vimaranense, valorizar o património e projetar o concelho a nível nacional e internacional.
Mais do que construir, ajudou a afirmar uma cidade moderna, culturalmente dinâmica e orgulhosa das suas raízes.
Tinha uma visão e a determinação necessárias para a concretizar. Não fez tudo sozinho, nem alguma vez o reivindicou. Na apresentação do livro, fez questão de recordar que ninguém constrói nada sozinho. Teve consigo equipas, vereadores, colaboradores municipais, instituições e muitos vimaranenses. Mas foi ele quem assumiu a responsabilidade de liderar, decidir e concretizar.
Em 2013, Domingos Bragança assumiu a presidência da Câmara Municipal.
Durante os 12 anos seguintes, deu continuidade a esse caminho, com uma visão própria, novas prioridades e muitas realizações. Em 2025, a lei de limitação de mandatos impediu-o de se recandidatar à presidência da Câmara.
Haverá, naturalmente, tempo para lhe dedicar uma justa e merecida reflexão.
Foram 36 anos de governação municipal liderada pelo Partido Socialista. Trinta e seis anos de trabalho, decisões, projetos e conquistas, mas também de erros, dificuldades e iniciativas que ficaram por concretizar. Nenhuma governação está acima da crítica. Ainda assim, seria impossível compreender a evolução de Guimarães sem reconhecer o contributo desse período para o desenvolvimento do concelho.
Há uma diferença entre identificar aquilo que falta fazer e desvalorizar o que já foi realizado. O concelho enfrenta novos desafios e precisa de continuar a evoluir. Mas o património que hoje admiramos, os equipamentos que utilizamos e a projeção internacional de que nos orgulhamos não surgiram por acaso.
Resultam de décadas de trabalho, investimento e decisões que marcaram sucessivas gerações.
A história de uma cidade não começa com a chegada de um novo Presidente, nem termina quando outro deixa de exercer funções.
A atribuição do nome de António Magalhães à nave principal do Multiusos, em 2024, foi um gesto justo de reconhecimento, aprovado por unanimidade. É um exemplo de como é possível ultrapassar diferenças partidárias para homenagear quem tanto deu à nossa terra.
Mas acredito que Guimarães poderá encontrar uma forma ainda mais marcante de perpetuar o seu nome, associando-o a um edifício municipal emblemático ou a um espaço público de especial significado. Não para diminuir as homenagens já realizadas, mas para reconhecer a dimensão da obra que deixou. Seria também uma forma de dar a conhecer às novas gerações uma parte importante da história recente de Guimarães.
É também por respeito a esse percurso que não aceito a narrativa falsa de que, em poucos meses desta governação, se possa ter feito mais por Guimarães do que nos 36 anos anteriores de governação municipal liderada pelo Partido Socialista. Uma comparação desta natureza não é séria, nem faz justiça à história do nosso concelho.
É legítimo apresentar novas ideias, reconhecer insuficiências e procurar melhores soluções. Mas não é possível ignorar décadas de investimento e realizações que mudaram profundamente a vida dos vimaranenses. O futuro pode e deve ser valorizado, mas não precisa de ser construído à custa da desvalorização do passado.
A história não se apaga com palavras. Cada tempo terá as suas exigências, cada Presidente as suas responsabilidades e cada geração o dever de acrescentar algo ao que recebeu.
O futuro de Guimarães exige visão, ambição, trabalho e projetos concretos.
Exige também respeito por quem ajudou a construir o caminho percorrido. Um concelho que conhece o seu passado e reconhece os seus protagonistas está mais preparado para enfrentar os desafios que tem pela frente.
António Magalhães foi um dos grandes protagonistas da transformação de Guimarães. Deixou marcas que permanecem muito para além dos cargos que exerceu e dos anos em que esteve à frente da Câmara Municipal.
Foi precisamente nisso que pensei quando vi aquela fotografia. O tempo passa e as circunstâncias mudam, mas há vidas dedicadas à causa pública cujo significado permanecerá para sempre na memória coletiva. Obrigado, Presidente António Magalhães.
Sérgio Castro Rocha
Publicado em: 14/10/2026