Nos últimos meses, o Governo decidiu ajustar o propósito de comemorar os 900 anos da Batalha de S. Mamede, para passar a comemorar os 900 anos da Fundação de Portugal,
determinando, por resolução do Conselho de Ministros e sem fundamentação histórica, que “a comemoração do 9.º centenário do aniversário da Batalha de São Mamede marca o início do processo de formação de Portugal como entidade soberana, que se afirmaria com a Batalha de Ourique, de 1139, e se consumaria com o Tratado de Zamora, de 1143”, como se os três acontecimentos fossem etapas lógicas e coerentes de um processo histórico linear e decorrente de um qualquer plano, humano ou divino. Desencadeou-se, desde então, uma discussão acerca da data e do berço da nacionalidade.
As opiniões que têm vindo a lume retomam uma querela redundante, fútil e ultrapassada, trazendo à memória uma controvérsia que, há precisamente 30 anos, esteve na origem de um incidente que perturbou o início do II Congresso Histórico de Guimarães, dedicado a Afonso Henriques. A contenda foi posta em marcha pelos seguidores de A. H. de Oliveira Marques, descontentes com o protagonismo que era dado a José Mattoso, convidado para fazer a oração de sapiência na sessão solene inaugural. A justa entre as duas correntes de medievalistas foi resolvida salomonicamente: a sessão inaugural teria dois oradores convidados e nela ouvimos Oliveira Marques proclamar que Portugal “não nasce no século XI, nem no XII, aqui no Norte, aqui em Guimarães“, por mão de Afonso Henriques, mas sim em meados do séc. XIII, por obra de Afonso III, a partir de Lisboa, ponto de encontro entre o norte cristão e o sul moçárabe e muçulmano. José Mattoso não perdeu tempo com a querela entrou na disputa, limitando-se a lembrar que não podemos concentrar em Afonso Henriques “tudo o que tardou séculos a vir: a Nação”.
Em Guimarães, tal como na velha Atenas, a oliveira é mais do que uma árvore: é um símbolo fundacional. A lenda de Vamba, na versão recolhida e recontada no século séc. XIX pelo escritor inglês William H.G. Kingston, conta-nos a história de um nobre visigodo do século séc. VII, que pastoreava rebanhos em Guimarães e não queria suceder ao rei Recesvinto, dizendo que só o seria se do seu cajado nascesse uma árvore. Acabou rei dos visigodos: assim que cravou a haste de madeira rija no chão, logo ela ganhou raízes, folhas e ramos. Num ápice milagroso, ergueu-se uma oliveira adulta e frondosa, no exato local onde hoje ainda bate o coração da antiga Vimaranes.
É uma imagem belíssima, mas que resulta em erro se a aplicarmos à História e acreditarmos que os países também nascem de modo tão repentino. Haverá quem julgue que basta cravar uma espada num campo de batalha ou registar uma proclamação num pergaminho para que um Estado-nação venha ao mundo já adulto. Terá sido essa visão mítica, que confunde o nascimento com a maturidade, que levou o Governo a querer fundir datas, batalhas e tratados numa narrativa sequencial e coerente da fundação de Portugal, como se o país estivesse feito e consumado em 1143.
A História, tal como a rude agricultura, não se compadece com milagres instantâneos. Ver uma oliveira adulta nascer de um dia para o outro é algo que só acontece no universo das lendas. Na realidade do mundo natural, que a biologia explica, o desenvolvimento de uma árvore é um processo frágil, lento e contingente. É à luz da ciência, não da mitologia, que devemos determinar o que vamos celebrar em 2028.
Retomemos o exemplo do nascimento de uma oliveira.
Muito antes de haver uma árvore adulta, há uma semente, encapsulada num caroço lenhoso e duro, enterrada no escuro da terra. Antes do nascimento, há a dormência, o tempo em que a semente repousa, acumulando humidade e energia. Foi esse o tempo do Condado Portucalense antes de 1128, os dias de D. Henrique e de D. Teresa. Um território ainda encerrado no seu invólucro peninsular, condicionado pelas pressões do reino de Leão e pela influência da alta nobreza galega. A terra já estava a ser preparada pelas famílias nobres portucalenses, mas o organismo ainda não tinha vontade autónoma. Era apenas uma promessa submersa, a acumular tensões e resistências.
O verdadeiro momento do nascimento da oliveira dá-se quando a primeira raiz, a radícula, reúne força suficiente para rasgar a casca dura do caroço. É esse o instante irrepetível de rutura biológica, em que a semente deixa de ser uma reserva inerte para passar a ser uma vida autónoma e emancipada.
É neste ponto que entram o 24 de junho de 1128 e o Campo de S. Mamede. A batalha é a radícula a romper o caroço. Sem esta rutura violenta e necessária contra as hostes de Fernão Peres de Trava, a semente teria apodrecido na terra, absorvida pelo complexo galego-leonês. «S. Mamede não deu o Estado-nação feito e acabado, assim como o pequeno rebento não é a oliveira centenária, mas é inequivocamente o momento do O resultado de S. Mamede não é o Estado-nação feito e acabado, assim como o pequeno rebento não é a oliveira centenária, mas é inequivocamente o momento do nascimento. Se a batalha se tivesse perdido, intuiu Herculano, “constituiríamos provavelmente hoje uma província de Espanha”. E Mattoso, em Guimarães, na conferência que abriu os 850 anos da batalha, em 1978, foi mais longe: a história da Nacionalidade começa com S. Mamede; o que aconteceu antes é a sua pré-história.
Depois de nascer, rompida a casca lenhosa do caroço, quando o broto começa a receber a luz do sol, a plântula é frágil e, muitas vezes, inviável. A árvore concentra toda a sua energia a engrossar o tronco, a aprofundar as raízes e a erguer os ramos. Não há flores nem frutos ainda, apenas a luta pela sobrevivência e pela afirmação territorial.
Foi isto que Luís Amaral e Mário Jorge Barroca deixaram claro, quando explicaram o projeto de Guimarães para celebrar S. Mamede: “a Pátria, a Nação e o Estado que corporizam o Portugal que hoje somos resultaram de uma longa e muito diversificada construção histórica, cujo momento nodal aconteceu há novecentos anos”, e a batalha veio “a constituir-se em elemento decisivo da reconfiguração política do Noroeste hispânico, favorecendo o desenvolvimento de uma nova entidade política”. O jovem rebento precisa de crescer: D. Afonso Henriques transfere a corte para Coimbra, robustecendo o tronco com a cultura moçárabe, afirma-se militarmente em sucessivas batalhas e procura o reconhecimento diplomático junto do seu primo Afonso VII de Leão e do Papa. São os anos da fase juvenil, quando o reino se estrutura politicamente, se expande para sul através de conquistas (Santarém, Lisboa), resistindo a adversidades.
Só ao fim de muitos anos a oliveira atinge a maturidade, estabiliza a sua copa e começa a dar frutos de forma regular, entrando numa fase longa, suportando os anos de escassez e prosperando nos de abundância.
Também aqui, o amadurecimento do Estado e da Nação é o corolário de séculos de composição (para usar a expressão de Mattoso) entre o Norte e o Sul, entre as elites guerreiras e os povos dos concelhos. Quando as fronteiras estabilizam e as instituições régias funcionam em pleno, temos o Estado maduro que, tal como a velha oliveira, está pronto para atravessar os séculos.
Admitir que Portugal nasceu já adulto, de um momento para o outro, seja em 1128, 1139, 1143 ou 1179, é um erro de biologia e de História. Nenhuma árvore nasce adulta. Quem semeia sabe que o momento mais dramático da vida de uma planta acontece às escuras, quando a primeira raiz rasga o caroço, ainda antes de o fio verde gretar a negrura do solo. Foi isso que aconteceu em Guimarães há quase 900 anos. O resto foi obra do tempo, da determinação e do acaso — a água, a poda e a mestria de quem soube cuidar do olival. Em 2028 celebraremos o dia em que a semente germinou, sem ignorar que no dia 24 de junho de 1128 ainda não havia azeite a escorrer do lagar.
António Amaro das Neves
Publicado em: 07/10/2026