Vivemos num tempo curioso. Nunca a humanidade dispôs de tantas formas de comunicar, de tantas plataformas para expressar opiniões
e de tantos instrumentos para participar na vida pública. Nunca foi tão fácil falar. E talvez nunca tenha sido tão difícil ouvir.
As redes sociais transformaram cada cidadão num potencial comentador permanente da atualidade. Todos têm opinião sobre tudo. Todos sabem tudo. Todos sentem necessidade de reagir a tudo. Em poucos segundos comenta-se uma notícia, julga-se uma decisão, condena-se uma pessoa ou constrói-se uma verdade absoluta.
O problema não está na liberdade de expressão. Pelo contrário. O direito à opinião é uma das maiores conquistas das sociedades democráticas. O problema surge quando a necessidade de falar se torna mais forte do que a capacidade de escutar.
Vivemos na era do comentário instantâneo, da reação impulsiva e da indignação permanente. Muitas vezes responde-se sem ler, critica-se sem conhecer e condena-se sem compreender. A reflexão perdeu espaço para a velocidade. A dúvida foi substituída pela certeza absoluta. E a vontade de compreender foi, demasiadas vezes, substituída pela necessidade de ter razão.
Pior ainda, assistimos ao crescimento de uma cultura do insulto fácil. Escondidos atrás de perfis falsos, contas anónimas ou da distância confortável de um teclado, muitos transformam a divergência em agressão e o debate em ataque pessoal. O respeito cede lugar à ofensa. A argumentação dá lugar à desqualificação. E aquilo que deveria ser um espaço de diálogo transforma-se frequentemente num campo de batalha onde o objetivo já não é convencer, mas simplesmente destruir quem pensa diferente.
Criou-se a ilusão de que participar é apenas falar. Mas a verdadeira participação começa precisamente pela capacidade de ouvir.
A política não escapou a esta realidade. O debate público tornou-se mais intenso, mas nem sempre mais rico. Há cada vez mais comunicação, mas nem sempre mais diálogo. Há cada vez mais opiniões, mas nem sempre maior compreensão. Em muitos casos, parece que deixámos de procurar soluções para passarmos a procurar apenas confirmações das nossas próprias certezas. E quando isso acontece, o diálogo transforma-se num conjunto de monólogos paralelos onde ninguém verdadeiramente escuta ninguém.
Talvez seja precisamente por isso que se tornou tão difícil construir consensos e encontrar pontos de convergência. Não porque existam mais diferenças. As diferenças sempre existiram e são uma parte natural da democracia e da vida em sociedade. O problema surge quando deixamos de reconhecer legitimidade a quem pensa de forma diferente. Quando ouvir passa a ser visto como uma cedência e não como um exercício de inteligência, maturidade e respeito.
Guimarães, tal como o Minho, construiu grande parte da sua identidade através da força das suas comunidades. Das associações, das coletividades, das instituições, das empresas familiares e das relações de proximidade que ao longo de gerações permitiram criar uma sociedade dinâmica e participativa. Essas comunidades nunca foram feitas de unanimismos. Foram feitas de pessoas diferentes, com opiniões distintas, mas capazes de dialogar, de cooperar e de construir objetivos comuns.
Hoje continuamos a precisar dessa capacidade. Continuamos a precisar de pessoas que saibam defender as suas convicções sem perder a capacidade de ouvir. Pessoas que compreendam que a firmeza não é incompatível com a abertura ao diálogo. Pessoas que percebam que escutar não significa concordar, mas sim respeitar.
As grandes decisões nunca nasceram do ruído. As grandes transformações nunca resultaram da incapacidade de ouvir. Pelo contrário. Foi sempre da capacidade de compreender diferentes perspetivas, de acolher contributos diversos e de construir pontes que surgiram os projetos mais duradouros e as comunidades mais fortes.
Talvez um dos maiores desafios do nosso tempo seja precisamente este: reaprender a escutar. Escutar antes de responder. Escutar antes de julgar. Escutar antes de dividir. Porque nenhuma sociedade se fortalece apenas através da afirmação das suas diferenças. Fortalece-se, acima de tudo, através da capacidade de encontrar aquilo que une pessoas com experiências, visões e percursos distintos.
No fim de contas, o verdadeiro problema dos nossos dias não parece ser a falta de opinião. Nunca houve tanta opinião. O verdadeiro problema é que, muitas vezes, todos falam ao mesmo tempo. E quando todos falam ao mesmo tempo, deixa de existir diálogo.
Resta apenas o ruído. E nenhuma comunidade constrói o seu futuro sobre o ruído.
Sérgio Castro Rocha
Publicado em: 09/06/2026