Nos finais do século X e princípios do século XI era a Península Ibérica dominada a Sul pelo Império Almorávida sediado no Norte de África
e dominada a Norte pelos reinos de Leão e Castela, de Navarra, de Aragão e ainda pelo Condado Portucalense, todos sob o domínio do rei imperador Afonso VI.
Espoletava à época, nos cristãos do Norte da Europa, o espírito cruzadístico de conquista das terras aos mouros. Era frequente ver contingentes de guerreiros e cavaleiros provenientes destes países, nomeadamente de França, impregnados do espírito de luta contra os infiéis estimulados por eminentes pregadores, como S. Bernardo de Claraval, deslocarem-se à península em apoio aos reinos cristãos e também em busca de conquista de novas terras.
De entre esses contingentes destacaram-se dois nobres da Borgonha: os condes D. Raimundo e D. Henrique, este primo do referido e famoso monge cisterciense Bernardo de Claraval, os quais, pelo seu bom desempenho ao serviço de Leão e Castela receberam, do imperador Afonso VI, a mão de suas filhas: D. Urraca, a herdeira, para D. Raimundo e D. Teresa, filha legítima de outra relação, para D. Henrique a quem doou também o Condado Portucalense.
Com a morte de Afonso VI sucedeu-lhe sua filha, D. Urraca, situação pouco comum à época por se entender ser o rei a pessoa que devia chefiar os exércitos, função não natural para uma mulher, acarretando-lhe, desse modo, grandes dificuldades na concretização da obediência de vassalagem pelos responsáveis da governação dos reinos de seu pai.
Após armado cavaleiro, seu filho, Afonso VII, no dia de Pentecostes do ano 1124 na catedral de Zamora, deu início à tarefa de pacificação dos reinos e à reconfirmação da vassalagem dos governantes dos reinos de Navarra, de Aragão e do condado Portucalense.
Nessa altura já o príncipe Afonso Henriques, criado e educado no ambiente de Guimarães e sensibilizado pelos feitos de seu pai, o grande guerreiro conde D. Henrique, havia sido armado cavaleiro, também na catedral de Zamora, terra do domínio do Condado Portucalense, exatamente no mesmo local de seu primo, no mesmo dia de Pentecostes do ano seguinte,1125.
Depois de passar pela Galiza, desceu Afonso VII com seu séquito a Guimarães impondo o cerco que mereceu resistência por parte de seu primo Afonso Henriques e da população, encontrando-se na altura sua mãe, D. Teresa, com o seu marido de então, Fernão Peres de Trava, em Coimbra.
Nesta altura era já evidente o conflito com a ambição de D. Teresa que vinha assumindo o título de rainha desde 1118 e a pretensão de fazer renascer e governar o velho Reino da Galiza, efemeramente existido na segunda metade do século XI e entretanto desaparecido e absorvido pelo Reino de Leão e Castela, o qual era constituído por 3 núcleos: a Galiza a Norte do Rio Minho; a Terra Portucalense entre os rios Douro e Minho e a Terra Conimbricense com sede em Coimbra até ao Mondego.
Entrava assim em conflito com os nobres portucalenses para quem o território do condado é já entendido como incluindo Coimbra, isto é, do rio Minho ao rio Mondego, território que essas famílias dominavam há século e meio desde o século X, sobretudo pelo exercício continuado de guerra contra o Islão e pela exploração da terra desses territórios. Conflito agravado ainda pela nomeação de Fernão Peres de Trava como governador de Coimbra, o espaço por onde os senhores portucalenses faziam a guerra ao Islão, considerada uma verdadeira afronta.
Associando estas circunstâncias à ambição do próprio Infante D. Afonso Henriques, já armado cavaleiro, e ao conflito também existente entre a arquidiocese de Braga e a diocese de Santiago de Compostela, esta com pretensões a constituir o grande centro ocidental da cristandade por contraponto a Roma, estavam criadas as condições para um enfrentamento de
maior escala desembocado na batalha de S. Mamede.
Assim, com a batalha de S. Mamede se inicia uma nova realidade: antecipação da sucessão de D. Teresa pelo seu legítimo filho D. Afonso Henriques – muito respeitado pelas qualidades de grande guerreiro e de aglutinador das divergências entre os nobres de então – e a constituição de um Condado coeso governado por Portucalenses.
Poder-se-á, pois, dizer, tal como refere o professor Luís Amaral, que a investidura como cavaleiro em Zamora, em 1125, e a batalha de São Mamede em 1128 constituem, claramente, momentos que potenciaram passos seguintes muito importantes na formação de Portugal.
Guimarães, 9 de Junho de 2026
António Monteiro de Castro
Publicado em: 09/06/2026