“O Dr. Ricardo Araújo poderá vir a cumprir com os seus compromissos eleitorais e os Vimaranenses cá estarão para julgar a sua obra, mas a
realidade é que neste e noutros casos está apenas a inaugurar o trabalho feito por aqueles que o antecederam.”
Antes de desenvolver este artigo de opinião, e como gosto de ser sério e claro a fazer política, há um ponto prévio essencial a ter em conta: a coligação Juntos Por Guimarães venceu as Eleições Autárquicas de Outubro passado de forma clara e o Executivo entretanto empossado tem um mandato também ele claro dado pelos Vimaranenses.
Este facto é indiscutível. É a democracia a funcionar.
Esclarecidos quanto ao cenário político local, percebemos que um dos pontos de maior discussão política deste primeiro meio ano de mandato prende-se com aquilo a que se convencionou chamar a “paternidade” daquilo que tem sido anunciado pelo Executivo Municipal como obra sua.
A questão da paternidade, dizem alguns, é “irrelevante”, “o que interessa é fazer”. Concordamos com a segunda parte, o que importa é fazer, discordamos da primeira. A “paternidade” da obra executada não é irrelevante. É, aliás, muito relevante. E é relevante porquê, perguntarão alguns?
É relevante essencialmente por dois motivos:
1 – A Coligação Juntos Por Guimarães fez do alfa e do ómega da sua campanha eleitoral a ideia de que Guimarães era um Concelho parado no tempo e no qual nada se fazia. Essa
ideia é, obviamente, uma ideia errada, como comprovam estes primeiros 6 meses de mandato e o rebuliço de inaugurações em que o Sr. Presidente da Câmara e a sua vastíssima equipa de comunicação se têm apresentado e têm relatado com elevada pompa e circunstância.
2 – A avaliação do trabalho deste executivo só pode ser séria se avaliarmos efectivamente aquilo que dele emanou, que ele pensou, planeou, projectou e executou, e não apenas por
aquilo que anunciou ter feito quando, na realidade, já estava pensado, planeado, projectado e, em alguns casos, mesmo executado pelo Executivo anterior.
A título de exemplo, nas últimas semanas o executivo tem anunciado como obra sua a colocação dos relvados sintéticos e áreas de jogo em diversas escolas básicas de Guimarães, tendo o Sr. Presidente da Câmara Ricardo Araújo dito, e passo a citar “estamos a cumprir com um compromisso que assumimos e que estamos determinados em oferecer melhores condições às nossas crianças e às nossas escolas”.
Ora, obviamente todos ficamos radiantes com estas obras, essenciais para o desenvolvimento das nossas crianças, e ficamos também contentes que este executivo manifeste a sua
intenção de dar seguimento à política do anterior executivo de valorização das escolas e de investimento na educação, mas a realidade é que todas estas obras de colocação de
relvados sintéticos nas escolas do Concelho, todas, sem excepção, já tinham sido identificadas, projectadas e algumas delas até adjudicadas e executadas pelo executivo anterior. O Sr. Presidente da Câmara só teve de fazer uma coisa para poder inaugurar estas obras: estar lá, e, acrescento, com toda a legitimidade.
O Dr. Ricardo Araújo poderá vir a cumprir com os seus compromissos eleitorais e os Vimaranenses cá estarão para julgar a sua obra, mas a realidade é que neste e noutros casos
está apenas a inaugurar o trabalho feito por aqueles que o antecederam.
Dei este exemplo, poderia dar muitos outros: as pavimentações de dezenas de ruas em todo o Concelho que estavam já protocoladas no acordo de quadro assinado pelo anterior executivo e que estão agora a ser executadas, a adjudicação de 75 casas integrado no Programa 1.º Direito, os protocolos para os lugares nas creches, que este executivo apresentou como uma grande conquista mas que, na realidade, contempla menos vagas do que o plano delineado pelo executivo anterior (sendo que convém ainda lembrar que o PSD, então na oposição, votou contra na Câmara Municipal, por exemplo, à cedência da Escola de Mesão Frio à entidade “Mais Mesão Frio”, que vai agora, e bem, permitir a criação de vagas para Creches), as obras nos Centros de Saúde, todas elas trabalhadas pelo anterior executivo e no qual a única acção que o Sr. Presidente da Câmara teve foi a de mandar parar as obras no Centro de Saúde de Ronfe, o Campus da Justiça, em que os executivos do Partido Socialista fizeram todo o trabalho de raiz, inclusive a cedência do terreno, quando ainda absolutamente ninguém tinha sequer apontado a necessidade, entre muitos outros exemplos que poderia dar.
Dito isto, não posso estar senão feliz por o atual executivo perceber que muito do trabalho realizado pelos executivos anteriores é trabalho válido e que deve ser continuado, não só
em cada uma das suas obras, mas mesmo na sua concepção política. Daqui elogio o actual executivo pela coragem de manter o que tem de ser mantido e de não alterar políticas que
funcionam e têm resultados amplamente positivos.
Ninguém que olhe para a política de forma séria, exigia ao actual executivo municipal que apresentasse obra feita ao fim de pouco mais de 6 meses de mandato.
O trabalho executivo autárquico exige tempo, exige pensamento, exige planeamento, exige muito trabalho burocrático e de projecto! E, obviamente, nada disso se consegue em pouco mais de 6 meses de mandato! Este executivo terá tempo de apresentar o seu pensamento, o seu planeamento, os seus projectos, o seu trabalho e a execução de todo este percurso! Agora, quem olha para a política de forma séria, também não pode aceitar que com truques de ilusionismo comunicativo massivos, se tente enganar os Vimaranenses e se procure
convencer o mundo de que Roma e Pavia se fizeram num dia, e que de um dia para o outro começaram a nascer dezenas e dezenas de obras por todo o Concelho. Não é verdade, e o executivo sabe-o. Todo o trabalho que tem sido apresentado é trabalho que levou anos a pensar, planear, projectar e executar, e ainda muito há a apresentar desses anos e anos de trabalho, pelo que, não se iludam. Muito mais ainda se vai inaugurar do trabalho feito pelos executivos do Partido Socialista.
Termino citando Samuel Úria no seu brilhante Império,
Acredito que depois de morto serei solto,
Pra isso não tenho de ser bom,
Tenho de ser sério.
Pedro Mendes
Publicado em: 03/06/2026