A ideia de um berço da nação não é um dado histórico universalmente reconhecido, mas uma construção simbólica. Uma nação não nasce
de um acontecimento único. Resulta da
sedimentação de memórias, rituais, discursos e imagens que, no transcurso dos séculos, convergem para um lugar, alçando-o à condição de terra natal. Guimarães é um dos lugares
onde nasceram nações, tal como Covadonga, em Espanha, Domremy, em França, ou Tara, na Irlanda.
A explicação do surgimento dos países e da construção das suas identidades remete-nos mais para os domínios da tradição, que é viva, afetiva e construída (para não dizer inventada), do que da história, que é crítica, analítica e busca a verdade.
A história atesta que Guimarães foi, entre a última década do séc. XI e meados do XII, um dos principais centros político-administrativos do condado portucalense; que teve a presença de Afonso Henriques e que fixou um núcleo de poder aristocrático e militar; que o confronto de 24 de junho de 1128 aconteceu aqui; que não existe um evento fundador inequívoco (um
pacto, uma declaração de independência, uma coroação), mas sim um processo de autonomização que se desenvolveu ao longo de várias décadas e em vários palcos: Guimarães, Coimbra, Ourique, Zamora.
Se, no plano histórico, são mais as incógnitas do que as certezas, no horizonte da memória ou da tradição, não ficam lacunas por preencher, nem respostas por encontrar — aqui, prevalece uma linha narrativa que nada ignora e tudo explica.
No século XVI, Guimarães já aparece com o título de berço da monarquia, designação que circulou a par da de berço do primeiro rei de Portugal. No último quartel do séc. XIX, com a
monarquia em decomposição e o ideário republicano a prosperar, Guimarães começou a ser designada de berço da nação ou berço da nacionalidade, denominações que se tornaram
canónicas com o advento da República. O berço da monarquia acompanhou a monarquia na queda. No Estado Novo, a fórmula oficial tornou-se majestática, passando a escrever-se com maiúsculas: o Berço da Nacionalidade. Hoje é, simplesmente, a cidade-berço ou o berço de Portugal. Ou seja, o berço é mais do que uma metáfora; é, também, um marcador político com que cada época reescreve a visão de Portugal que lhe é mais conveniente.
A elevação de S. Mamede à condição de momento fundador não é contemporânea da batalha.
É uma criação do séc. XIX, inicialmente avançada por Alexandre Herculano, no quadro da rejeição da narrativa transcendental em volta do suposto milagre de Ourique. É no romance O Bobo, que tem Guimarães e o seu castelo como cenário, que o historiador de Vale de Lobos melhor exprime o papel fundador de S. Mamede:
“Se na batalha do campo de S. Mamede, em que Afonso Henriques arrancou definitivamente o poder das mãos de sua mãe, ou antes das do conde de Trava, a sorte das armas lhe houvera sido adversa, constituiríamos provavelmente hoje uma província de Espanha.”
A devoção de Guimarães à batalha de S. Mamede é uma criação recente: a batalha aconteceu há quase 900 anos, mas só em 1928 é que Guimarães a celebrou-a pela primeira vez (e sem a certeza se teria acontecido a 23 ou a 24 de junho). Naquele ano, iniciou-se a tradição de assinalar o dia da batalha com uma missa na capela de S. Miguel, sempre com menos brilho do que os festejos de S. João. E seria preciso esperar até 1974 para que o dia 24 de junho passasse a ser feriado municipal em Guimarães.
Igualmente tardias são duas expressões fundamentais para a associação de Guimarães à fundação. A primeira foi forjada em 1922, pelo pintor amarantino Acácio Lino, que recriou a
batalha de S. Mamede para a sede do parlamento português, numa obra a que deu um título poético, que se tornaria lendário: “A Primeira Tarde Portuguesa.” Aqui, o berço é representado pela luz de um instante. Aquela tarde inicial não é um acontecimento, é uma epifania.
A outra expressão, que está inscrita nas pedras da antiga torre da Alfândega, surgiu em 1927, numa conferência na Sociedade Martins Sarmento, em que o escritor Agostinho de Campos deu voz ao que lhe diziam as pedras de Guimarães: “Aqui Nasceu Portugal”.
Entre o berço, a tarde e as pedras, Guimarães construiu uma narrativa que atravessa séculos e regimes. E talvez seja essa a sua maior força: não ter apenas história, mas ter conseguido transformar essa história numa narrativa poética sobre a origem de Portugal.
Em Guimarães, o discurso fundacional articula três elementos estruturantes: o herói e pai fundador, Afonso Henriques, a batalha de S. Mamede e a materialidade do território — o
castelo, o paço dos condes, a igreja de S. Miguel. Os documentos históricos comprovam a presença de Afonso Henriques em Guimarães, assim como o confronto de 1128. Mas o que lhe valida a condição de berço não é a história. É a tradição, que vive da mitificação do herói, da leitura épica da batalha e da ritualização do espaço.
Não se peça aos historiadores que demonstrem que Portugal se fundou em Guimarães.
Nós sabemos que Guimarães é a cidade-berço, porque aqui nasceu Portugal, na primeira tarde portuguesa. Já os historiadores, nem sequer sabem se a batalha aconteceu numa tarde…
António Amaro das Neves
Publicado em: 02/06/2026