O Comércio de Guimarães, é um dos jornais mais antigos do país. Foi fundado em maio de 1884 e publica-se, quase sem interrupções,
desde esse ano. Este jornal é dos periódicos mais antigos do país, suplantado apenas por publicações como o Açoriano Oriental (1835), o mais antigo, ou o conhecido Diário de Notícias (1864). É o jornal mais antigo do distrito e um dos mais longevos da imprensa nacional. O Jornal de Notícias (1888) acerca-se da idade, mas outras publicações como A Bola (1945), o Expresso (1973) ou o Público (1990) são meninos quando comparados com este Comércio.
Por estas páginas passaram muitas polémicas e muitos exercícios de sã cidadania. Numa altura em que o ler um jornal tem já algo de arqueológico, é de saudar esta força e esta persistência.
O Comércio surge numa altura importante para Guimarães, numa altura decisiva em que a dita “sociedade civil” se inquietou e criou futuro. A Sociedade Martins Sarmento (SMS) tinha sido fundada em 1881 e transformou-se num verdadeiro motor de desenvolvimento da cidade e do concelho. Bastaram apenas 3 anos para que, sob os seus auspícios, a Escola Industrial Francisco de Holanda finalmente surgisse e que se avançasse para uma importante e prospetiva Exposição Industrial. Ambas as iniciativas moldariam a comunidade para todo o século XX, estabelecendo Guimarães na vanguarda da produção industrial. Em 1884 chegou ainda (com anos de atraso) o comboio e lançava-se, pela SMS, a mais antiga revista científica portuguesa: a Revista de Guimarães. Sobre este magnífico e determinante ano muito escreveu (e ainda escreve) o meu “recente” companheiro de coluna: o Amaro das Neves, agora com as Memórias de Araduca (araduca.pt) ainda mais apelativa e consultável. Um serviço público de enorme qualidade, grátis e com muito trabalho e dedicação do António ao longo dos anos.
Escrever para um órgão de comunicação social é, na minha ótica romântico-arqueológica, um privilégio. Ainda se distingue, creio, da ligeireza das redes socias. Escrever para um jornal, com esta história e enorme importância na vida de Guimarães, dá-me um extraordinário gozo, mesmo quando as ideias me fogem. Faço-o há 24 anos e atingi (não sei se isto é uma boa notícia…) o patamar do “mais antigo” dos colaboradores a ocuparem esta página 2.
Na altura longínqua em que comecei a escrever nesta coluna, estava intimamente ligado à política local e por isso – mas nem sempre – as minhas crónicas procuravam passar uma ideias, preocupações e anseios para que Guimarães recuperasse o fôlego que, entretanto, se ia perdendo. Longe dos centros de decisão e administrativamente secundarizada, Guimarães que, historicamente, não se rendeu à sua sorte e através da dedicação cidadã e do seu trabalho foi contrariando um destino menor através da capacidade das suas gentes e da existência de inúmeros vimaranenses que corporizaram, através das suas instituições, uma luta pelo que merecíamos e não por aquilo que nos queriam dar. A cidade e o concelho foram nas últimas décadas, apesar do seu potencial, perdendo a inquietação que sempre a caracterizou. Já por estas páginas repisei que nos assemelhávamos demasiado aos condes falidos que se concentram no passado glorioso, num passado que mesmo de família não lhes deixa de ser alheio, mas que não têm capacidade de encarar o futuro de frente. De o assumir como tarefa sua.
Há, hoje, a absoluta necessidade de retomar essa inquietação perdida no tempo. De, em tempos diferentes, não vivermos de lembranças passadas e sermos capazes de construir gratas memórias para futuro.
O atual presidente da Câmara Municipal, Ricardo Araújo, tem essa inquietação permanente.
Mais do que a sua vitória autárquica, merecida e refrescante, o que me impressiona vivamente é a sua extraordinária dedicação ao cargo e a sua capacidade de estar sempre presente, com um sorriso nos lábios e atenção a quem o interpela. Já me cruzei com o atual Presidente da CMG em vários eventos e o que me deixa (até) invejoso é a sua inacreditável capacidade em ouvir e a resolução em decidir.
Tomar conta de uma viatura autárquica que foi quitada ao longo de três décadas e meia pelo mesmo poder é obra. Não cair na tentação de trocar de viatura, mas readapta-la às necessidades do presente, mesmo que as mudanças atrasem (um pouquinho) a marcha, é corajoso e, ao mesmo tempo, reconciliador.
Pôr a inquietação coletiva em marcha ao nos concentrarmos no essencial (a nossa economia, os investimentos do governo central, a resolução dos problemas – mesmo que os mais simples – das pessoas, a vontade de reafirmar a força da comunidade) é o primeiro passo a ser dado. E está a ser dado. Ele acolhe com toda a força a inquietação que faz história e caminho. Não como uma má disposição que não nos leva a lado nenhum, mas como um desígnio de futuro de que é possível e necessário fazer melhor. Em conjunto.
Não vai ser fácil, mas irá, estou em crer, ser possível.
Publicado em: 26/05/2026