1. Tem início hoje, dia em que este jornal é publicado, a Quaresma — o tempo mais significativo do ano litúrgico para milhões de cristãos em todo o mundo
— assinalada pela celebração da Quarta-Feira de Cinzas.
É o dia em que, durante as celebrações, o sacerdote, ao impor as cinzas, nos recorda as palavras do livro do Génesis, tantas vezes esquecidas: “Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás-de voltar”; e em que, mais recentemente, se acrescenta o convite: Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.”
Ouviremos também, uma vez mais, a profecia de Joel apelando, em nome do Senhor, à conversão: “Convertei-vos a mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes.” Do mesmo modo, na Sexta-feira, escutaremos as palavras do profeta maior, Isaías, acerca do verdadeiro jejum: “O jejum que me agrada não será antes este: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços da servidão, pôr em liberdade os oprimidos e destruir todos os jugos? Não será repartir o teu pão com o faminto, dar pousada aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir e não voltar as costas ao teu semelhante?”
2. Este é também um período propício à reflexão sobre os tempos conturbados que têm afligido não só este nosso lindo canteiro à beira-mar plantado, mas praticamente o mundo inteiro.
Como acontecimento marcante a assinalar o início de uma nova “ordem internacional”, pode apontar-se a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 24 de Fevereiro de 2022, inicialmente apresentada como uma “operação especial“ rápida destinada a durar pouco mais de uma semana, mas que acabou por se transformar numa guerra em solo europeu já com vários anos e cerca de dois milhões de baixas militares, entre mortos e feridos.
Também a tomada de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos da América, em 20 de Janeiro de 2025, foi vista por muitos como um golpe decisivo na ordem estabelecida, ao ignorar princípios do direito internacional e ao pôr em causa — ou mesmo cancelar — compromissos assumidos com importantes organizações multilaterais, como a NATO.
Entre as medidas mais controversas apontam-se o fim do apoio económico à Ucrânia, limitando igualmente a entrega de equipamento militar agora suportado pela Europa; o apoio a acções contra o povo palestiniano; e a ameaça de rotura de compromissos atlânticos, pressionando os responsáveis europeus a organizarem a sua própria defesa após décadas sob proteção
estratégica americana.
Destacam-se ainda declarações sobre a possível anexação da Gronelândia — território pertencente à Dinamarca — e a sugestão de que o Canadá se tornasse o 51.º estado norte-americano, bem como ameaças de imposição de tarifas a países mais frágeis e dependentes do mercado dos EUA que não se alinhem com a sua política externa.
Aponta-se igualmente a acusação de violação da soberania de Estados, nomeadamente na alegada captura do dirigente venezuelano Nicolás Maduro para julgamento em território americano, num quadro de uma política mundial baseada na força e na divisão do planeta em áreas de influência dominadas pelas grandes potências: Estados Unidos, Rússia e China.
Assim, o proclamado pretendente ao “Prémio Nobel da Paz” constitui, paradoxalmente, uma das maiores ameaças à paz mundial.
3. A agravar este segundo quartel do século XXI, surgem agora, com particular intensidade no nosso país, sucessivas tempestades que parecem confirmar a realidade das alterações climáticas, lançando no desespero milhares de famílias, empresas e instituições e provocando prejuízos superiores a cinco mil milhões de euros.
Trouxeram tais tempestades à evidência a fragilidade de muitas das nossas infraestruturas — sejam vias e sistemas de comunicação, pontes, viadutos, diques, redes elétricas ou sistemas de drenagem pluvial —, bem como a insuficiência de barragens destinadas à regularização de caudais e à prevenção das recorrentes cheias, confirmando, desse modo, a prolongada
carência de investimento público e a persistência de opções inadequadas no planeamento.
4. Depois de termos vivido quatro actos eleitorais correspondentes a três eleições nos últimos nove meses — legislativas em Maio de 2025, autárquicas em Outubro do mesmo ano e presidenciais, com primeira volta a 18 de Janeiro de 2026 e segunda volta a 8 de Fevereiro — chegámos finalmente a um período que permitirá aos responsáveis eleitos deitar mão aos projetos de transformação que o país exige.
Destas últimas eleições presidenciais merece destaque a maturidade do povo português, que demonstrou estar bem informado e saber o que quer, ao ignorar recomendações da bolha política e opinativa e ao escolher para Presidente da República António José Seguro uma pessoa humilde, com provas dadas de competência e seriedade — qualidades que, infelizmente, parecem rarear nos tempos que correm.
Oxalá que, depois de todas estas tempestades — naturais e políticas — regresse a bonança, para que os governantes, cá e no mundo, saibam encontrar os caminhos certos do desenvolvimento, da justiça e da paz.
Guimarães, 17 de Fevereiro de 2026
António Monteiro de Castro
Publicado em: 17/02/2026