Escutei, um dia destes, não a um anónimo, como costuma dizer-se, mas a um agricultor chamado Gil Carvalho estas palavras
carregadas de sabedoria: “eu sou do tempo do Salazar, e por isso é que fui votar. A ver se não volta tão depressa.”
Rua da Vitória, no tramo entre a rua da Prata e a dos Douradores da antiga capital do império. Dia de eleições, outra vez (como me disse ainda há pouco um amigo, este ano já tivemos mais oportunidades para votar, do que para secar a roupa). A noite já caiu e as urnas estão fechadas quando é levada a palco uma encenação que se repete: à porta igreja de S. Nicolau, jornalistas esperam o candidato que vai perder, que chegará atrasado para a missa, mas ainda com tempo para tecer considerações sobre as projeções da abstenção. A mesma porta servirá de pano de fundo para novas declarações para as câmaras, agora acerca das previsões de resultados, conhecidas enquanto a missa decorria. Eis o mistério sem fé: como é que o candidato conseguiu saber os resultados enquanto, supostamente, assistia à missa?
Aquele que, com um imenso despudor, desrespeita o recato do templo, invoca o nome de Deus, em vão, e leva a mão ao peito para jurar amor à Pátria, é o mesmo que não se cansa de bradar, exaltado, que tem vergonha deste país. Grita: “este país está uma vergonha, uma miséria, um desastre!”. E indica a origem de todos os males: “50 anos de sistema partidário corrupto em Portugal”. Suspira pela vinda, não de um, mas de três Salazares, para logo dizer, sem que lhe caiam os dentes, que está a “cumprir o sonho de Francisco Sá Carneiro”. Se o ridículo não mata, sempre ajuda a arrebanhar votos.
Em que país viverá aquele senhor?
Não no meu. Não no nosso.
No meu país, nos últimos 50 anos, aconteceu um salto quântico de aproximação à modernidade. Um português nascido em 1974, veio ao mundo num país com a pior taxa de mortalidade infantil da Europa (38 crianças por cada 1000 nascimentos) e com uma esperança média de vida de 68 anos. Passados 50 anos, este país tem uma das taxas de mortalidade infantil mais baixas do mundo (2,6 óbitos por cada 1000 nascimentos) e uma esperança média de vida que ronda os 83 anos.
Em 1970, um em cada quatro portugueses estava condenado ao triste desamparo do analfabetismo e o acesso à universidade era residual. Hoje, o analfabetismo é residual e quase metade dos jovens entre os 25 e 34 anos já têm um curso superior.
Em 1974, o PIB per capita, excluindo as remessas dos emigrantes, não ultrapassava, em valores atualizados ao dia de hoje, os 7500 dólares, ficando-se por 50% da média europeia. Hoje, ajustado ao poder de compra, anda próximo dos 40.000 dólares, que correspondem a 82% da média dos países da União Europeia, refletindo uma economia muito mais produtiva e integrada. Portugal passou de uma economia agrícola e industrial de baixa tecnologia para uma economia de serviços. Em 50 anos, o emprego no setor primário (agricultura e pescas) caiu drasticamente, dando lugar ao turismo, à tecnologia e aos serviços especializados.
Quanto ao Índice de Desenvolvimento Humano (indicador composto utilizado pela ONU, para avaliar o nível de desenvolvimento, combinando saúde, educação e rendimento), em 1970 Portugal ficava-se por 0,530, enquanto a França ou a Alemanha já ultrapassavam os 0,750. Portugal estava na cauda da Europa. Hoje atinge 0,890, o que nos posiciona firmemente no grupo de países com desenvolvimento humano com classificação de Muito Elevado.
O atraso que Portugal trazia do tempo do Deus, Pátria e Família de Salazar, era tão profundo e enraizado que a evolução dos últimos 50 anos tem sido classificada como um dos processos de modernização mais rápidos do mundo ocidental. E convém notar que as realizações do último meio século que deram maior impulso a este processo de desenvolvimento são a escolaridade obrigatória e o Serviço Nacional de Saúde (que, com todos os seus problemas e contra todos os ataques que tem sofrido, é um dos melhores do mundo).
Será que vivemos no melhor dos mundos possíveis do dr. Pangloss? Certamente que não. Temos de ser mais exigentes e reivindicar o direito de aspirar a mais e a melhor. Mas é, seguramente, um mundo muito melhor e mais justo do que o que recordam os que viveram em Portugal no tempo da ditadura.
Vivemos um tempo estranho e perigoso, manipulado por “engenheiros do caos” movidos pelo combustível do ressentimento e da ignorância, que procuram subverter os fundamentos das democracias, explorando a fragilidade em que assenta a sua grandeza: a tolerância em relação aos seus inimigos.
Podemos não viver no melhor dos mundos possíveis, mas “é preciso cultivar o nosso jardim”. Foi o que, como Gil Carvalho, fizeram os portuguesas no dia 8 deste fevereiro agreste, quando, interpretando a metáfora de Cândido, regaram com os seus votos os canteiros delicados — mas, afinal, robustos — da democracia portuguesa.
Nota: O dr. Pangloss e Cândido são personagens de “Cândido”, conto filosófico em tom de sátira que o iluminista Voltaire publicou em 1759.
António Amaro das Neves
Publicado em: 10/02/2026