Com o avançar da idade as minhas determinações para o ano novo deixaram de ser sôfregas e, sobretudo, deixaram de ser irrealistas.
Quando eu era imensamente jovem essas determinações tinham um carácter de urgência que, com o tempo, se foi perdendo. O que está feito, está feito. É sempre positivo e aliviante abandonar o remorso à sua sorte. O remorso nunca nos faz andar em frente. Podia ser melhor, podia, mas, com o tempo, percebemos que escapamos, mais uma vez, à possibilidade do pior. E quando apostamos na filosofia do alívio, apostamos bem.
No meu jantar de Ano Novo, entre queridos amigos, houve quem, às 2 da manhã, se lembrasse que nos tínhamos esquecido de comer as 12 passas e pedir outros tantos desejos. Ainda assim houve quem, em jeito de penitência, engolisse duas ou três passas, por descargo de consciência. Eu já desisti há muito disso. Fico sempre com a sensação de que me vou engasgar e começar o ano em sofredora apoplexia, se uma daquelas mirradas uvas se enganar no trajeto estabelecido. Prefiro mas passas no cigarro, sem as dirigir para a salvação do mundo. Quando muito da alma e do seu vício nicotino.
No atual contexto do mundo, só nos poderá salvar da depressão a filosofia do alívio: isto não é o ideal, mas poderia ter sido bem pior!
As tarifas da errante administração Trump são de 10%, que chatice, mas estavam para ser de 30%. Nada mau. O Trump invadiu um país soberano à revelia das leis internacionais, invadiu, mas pelo menos não invadiu a Gronelândia.
Isto é pensar pequeno e ser-se um pouco hipócrita? É. Mas, na verdade, quando as grandes filosofias políticas quiseram mudar o mundo e o estado das coisas, criaram, sempre, aberrações totalitárias bem mais gravosas que os regimes decadentes que combateram. O fascismo e o comunismo são, para mim, o mais cristalino exemplo histórico disso mesmo.
E nós, na Europa, apesar de Putin e Trump andarem ao colo com os partidos extremistas e nacionalistas que querem desfazer a ideia de Europa. Uma ideia e um projeto de paz e prosperidade que tanto custou a construir, há que ter esperança e não tergiversar no propósito que foi sonhado no pós-guerra. A liberdade é um valor mais forte do que o medo, já passamos demasiado sofrimento neste espaço geográfico para o querer, novamente, repetir.
Que 2026 seja o ano em que vingue um preconceito fundamental: o preconceito contra a estupidez e o comportamento antissocial.
A imprensa tradicional tem de deixar de tentar influenciar o mundo, mas apenas descrevê-lo. Tem de ver, perguntar, investigar e relatar o facto, e não se deixar enredar pelas características de quem comete um ato censurável. Não é contra uma raça, uma cor ou uma religião que nos devemos indignar, mas contra atos concretos cometidos por pessoas concretas. Se quem cometeu o ato é preto, ou branco, ou judeu, ou muçulmano, essa característica não é relevante. Essa característica é, apenas, uma (enervante e paralisante) distração moral que nada deveria relevar para o facto em si.
Creio, pensando positivamente, haver atualmente uma consciência que vai apanhando cada vez mais pessoas contra a simplificação grosseira do mundo atual. Do nós contra eles. A compaixão não dá likes em massa, mas dá serenidade interior, e isso, com o tempo, é o que vale e o que verdadeiramente nos gratifica e nos dá alguma paz. Sinto que há, cada vez mais, como reação a esta simplificação do mundo, um desejo desesperado pela nuance, por aquilo que é distintivo. Por um pensamento que seja diferente do da manada, por algo que nos individualize e nos torne interessantes para outros. Ou, na pior das hipóteses, interessante para nós mesmos. Já não seria mau.
Uma coisa é certa, em 2026 haverá seguramente boas músicas, livros que valerão a nossa atenção, e restaurantes que ainda saberão fazer um bom cozido à portuguesa, sem reduções, nem grandes arranjos estéticos na batata, na couve, ou no toucinho. Haverá muita desgraça, como sempre, mas igualmente muito amor, muitas paixões novas e renovadas, muitos beijos e prazeres que nunca serão demais. Haverá sol e praia e riso. Temos é de estar atentos e disponíveis para isso.
Pois se o mundo nos parece pior, nada melhor do que tentar contrariá-lo.
Publicado em: 06/01/2026