O Café Oriental abriu a 19 de dezembro de 1925, no Toural, um sábado, para a imprensa e convidados, e no dia seguinte franqueou
as suas portas aos seus primeiros clientes. Esteve aberto durante quatro décadas. Apesar do seu exotismo e originalidade o Café Oriental não chegou a completar 41 anos de existência, desaparecendo em finais de julho de 1966 para dar origem a uma dependência bancária do Banco Português do Atlântico.
A Muralha, com o apoio da Sociedade Martins Sarmento (SMS) e do Programa Impacta (CMG), com a colaboração de muitos amigos que nos cederam memórias e saberes, irá lembrar a data através de uma exposição evocativa que estará patente na SMS a partir de 19 de dezembro de 2025, uma sexta-feira, com inauguração marcada para as 18h00. A exposição ficará até 2 de fevereiro de 2026 e servirá, assim o esperamos, para prestar uma reverente homenagem a um dos Cafés mais originais de sempre que desapareceu na voragem daquilo a que alguns chamaram, erradamente, de “progresso”.
O contexto em que o Café Oriental surge é muito particular. Por um lado, na época, vivia-se um fascínio deslumbrado sobre o antigo Egipto, a que os jornais da época davam sempre ampla cobertura, aditivada pelo facto de em finais de 1922 ter sido descoberto em Luxor, antiga cidade de Tebas, no Egipto, o fabuloso túmulo de Tuntakhamon (séc. XIV a.c.), e, por outro lado, Guimarães não tinha, na altura, um café minimamente decente para apresentar aos seus cidadãos e àqueles que nos visitavam. A.L. de Carvalho chega mesmo a escrever que só existiam, na cidade, “cavernas de
caco” que a todos envergonhavam.
Ora, estas duas realidades, confluíram em 1925 na cabeça e na vontade de quatro sócios que pretenderam preencher essa vergonhosa lacuna citadina e, assim, convidaram o Capitão Luiz de Pina para desenhar um projeto para um café que desse à cidade algum cosmopolitismo cultural, resgatando-a do embaraço.
Luiz Augusto de Pina era conhecido por Capitão Luiz de Pina Guimarães e mereceu recentemente neste mesmo espaço, pela pena (sempre leve) do Amaro das Neves, um notável artigo. Luiz de Pina nasceu na nossa cidade em 1867, é irmão do grande professor José Luís de Pina, e por isso existe, por vezes, alguma confusão na distinção entre ambos, pois eram igualmente notáveis artistas, com um enorme jeito para o desenho. Luiz de Pina começou na carreira militar muito cedo, destacando-se, além da sua bravura, nomeadamente em Angola, na engenharia e desenho militar. Regressa a Guimarães depois de ter sido atacado pela malária e desenvolve um conjunto de projetos notáveis na sua cidade, tendo sido vereador da Câmara Municipal, jornalista, entre muitas outras funções. Nesse ano de 1925 é também dele o arrojado Plano de Melhoramentos da Cidade que perdura até hoje na nossa cidade, no desenho da atual Praça da Mumadona da qual irradiam três avenidas (a designada “pata de ganso”) e que libertaram a cidade, até então acanhada.
O militar artista projeta para o Café um conjunto de pinturas evocativas da cultura egípcia. Morre, em 1941, na sua rua, a Rua Paio Galvão, precisamente onde a exposição Café Oriental: 100 anos estará patente. Não viu, assim, o triste e escusado fim do seu projeto. Fica, por agora, uma modesta homenagem à sua visão e arrojo.
O desaparecimento do Café Oriental é, seguramente, uma das mais absurdas e escusadas perdas de património citadino a que assistimos nos últimos 60 anos.
Houve, porém, uma vingança faraónica a tão gritante descuido: o café nunca saiu da memória daqueles que o viram e frequentaram e, mais espantoso, não saiu da memória construída de quem nunca o viu. Esse é o meu caso, como acontecerá com muitos outros. Nunca vi tal estabelecimento, mas do que me foram contando ao longo de anos e anos, ficou-me a delirante perceção de que o vi, de que o frequentei, de que me sentei nas suas mesas e me perdi nas suas pinturas. As imagens da Coleção de Fotografia da Muralha sobre os seus primeiros anos do café, complementada pelas imagens do Arquivo Municipal de Alfredo Pimenta, que documentam o seu fim irão alimentar essa perceção de que a memória, além de ser vivida, também pode (e deve) ser contruída.
A abertura do Café Oriental causou espanto e, até, uma certa comoção na comunidade numa altura em que se vivia uma verdadeira febre sobre o exotismo de uma cultura distante e milenar.
Guimarães com o Café Oriental prestou um tributo artístico e original a esse fascínio. O desaparecimento do Café Oriental levou a uma comoção demasiado tardia. O mau exemplo do seu escusado fim deve perdurar em nós, para estarmos atentos e valorizarmos, sempre, o que nos foi legado pelas gerações que nos precederam. Assim a nossa história se perpetua e se afirma.
Publicado em: 09/12/2025