O passado dia 12 de outubro marcou uma mudança política significativa em Guimarães. Cem mil eleitores, mais 10 mil do
que nas últimas autárquicas, expressaram claramente a sua vontade através do voto. Agora, cabe à coligação PSD/CDS a responsabilidade de liderar os destinos do nosso concelho durante os próximos quatro anos, e ao PS o papel de oposição responsável, exigente, atenta e propositiva, tal como já foi publicamente declarado.
O PS em Guimarães permanece um partido sólido, detentor da maioria das juntas de freguesia do concelho, valorizado por dezenas de quadros de excelência, e que conquistou o voto de mais de 43 mil pessoas nesta eleição, assim como o de quase 38 mil eleitores para a Câmara Municipal. A este histórico junta-se uma longa trajetória de sucesso no desenvolvimento local, atribuindo ao partido a responsabilidade e a ambição de recuperar a confiança da maioria dos vimaranenses. Este é o tempo de nos consolidarmos como oposição, trabalhando nos próximos quatro anos nessa alternativa, com abertura a todos e ouvindo os vimaranenses.
A análise dos resultados, as motivações que os justificam e o caminho necessário para reconquistar a confiança dos vimaranenses são temas que guardo para discussão interna no meu Partido. Hoje é sobre a democracia e os seus riscos que quero falar.
Estamos perante um momento perigoso para a democracia portuguesa. Dois anos depois de ter chegado ao poder, o Governo de Luís Montenegro ainda não respondeu à pergunta fundamental: que Portugal queremos em 2035? Que visão mobilizadora oferece aos portugueses?
O Orçamento de Estado em debate é sintoma desse vazio: sem ambição, sem rumo, com contas em que ninguém deposita confiança. Após dois anos, esgotou-se o saldo orçamental herdado dos executivos do PS, de que se inauguraram obras, e multiplicaram-se Planos de Ação que ficaram no papel.
No lugar de respostas aos problemas reais dos portugueses, oferece-se a distração de debates sobre burkas e hijabs, símbolos que praticamente nenhum português alguma vez viu no país.
É precisamente na ausência de projetos credíveis, de visão estratégica, de debate sério sobre o futuro, que prosperam os populismos. Quando a política deixa de dar respostas, surgem os que prometem soluções fáceis para problemas complexos, os que substituem argumentos por gritos, os que trocam programas por inimigos.
E assim chegamos ao Chega, que está numa escalada preocupante de descredibilização das instituições e de desrespeito pela democracia, testando sistematicamente os limites da legalidade.
Na semana passada vimos episódios que já não podem ser ignorados: Filipe Melo, deputado do Chega e cabeça de lista por Braga, dirigiu-se a Eva Cruzeiro com o auge do racismo português, mandando-a “para a sua terra”.
André Ventura divulgou cartazes que promovem hostilidade contra cidadãos de diversas nacionalidades e etnias. Quem acompanha o dia a dia na Assembleia da República percebe a degradação permanente do ambiente de debate, sempre alimentada por uma bancada onde os agitadores cumprem um papel definido.
Esta não é política normal. É a estratégia deliberada de envenenar o debate democrático, de tornar a política num espetáculo de ódio, de normalizar o inaceitável. E funciona precisamente porque o vazio deixado pela política tradicional cria espaço para que estes o preencham.
Mas há outros responsáveis para além dos óbvios. Parte da comunicação social portuguesa tornou-se cúmplice ativa desta degradação. Quer pela fragilidade financeira do setor, quer pela agenda política dos acionistas dos seus grupos, os critérios editoriais passaram a seguir a lógica das redes sociais descontroladas. O que atrai audiência são os gritos e o ódio, razão pela qual o líder da turba é convidado a cada cinco dias em canais diferentes.
Sem critérios editoriais justos e transparentes, sem clareza total sobre quem financia os órgãos de comunicação, dificilmente poderemos travar o populismo acrítico em ascensão. A responsabilidade é coletiva, mas há quem deliberadamente escolha amplificar o circo em vez de esclarecer os cidadãos.
A ascensão da extrema-direita não é inevitável. O envenenamento do debate não é irreversível. A degradação da democracia não tem de ser o nosso destino. Temos de responsabilizar quem degrada a democracia. Mas mais que isso: precisamos de voltar ao essencial, com projetos claros, ambições definidas e uma visão mobilizadora para Portugal. Só assim evitaremos o pântano para onde esta conjuntura política nos encaminha.
A democracia não se defende apenas denunciando os que a atacam. Defende-se oferecendo alternativas credíveis, visão de futuro, respostas aos problemas reais. É esse o trabalho que temos pela frente e é hora de o demonstrar.
Publicado em: 03/11/2025