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Ana Sofia Rolo é a médica responsável pelo serviço de Cuidados Paliativos do Hospital da Luz 

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Os Cuidados Paliativos são uma área essencial da medicina, mas ainda pouco compreendida pela sociedade. No Dia Mundial dedicado a este tema, celebrado hoje (11 de Outubro), conversámos com uma especialista sobre a importância destes cuidados, os mitos que importa desconstruir e as esperanças para o futuro em Portugal.

Falar de Cuidados Paliativos é falar de dignidade, conforto e humanidade. Numa área tantas vezes associada apenas ao fim de vida, Ana Sofia Rolo, médica oncologista do Hospital da Luz Guimarães explica porque estes cuidados devem estar presentes desde cedo, ajudando não apenas os doentes, mas também as suas famílias.

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Menos de 10% dos doentes que necessitam de Cuidados Paliativos em Portugal têm acesso a estes serviços. A profissional de saúde revela os principais desafios da área, a importância de desmistificar preconceitos e o que ainda falta fazer para garantir cuidados dignos a todos.

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O que a levou a escolher a oncologia e, dentro desta, a dedicar-se especificamente aos cuidados paliativos?
A escolha da Oncologia surgiu por um interesse pessoal, alimentado por experiências de vida que me marcaram. Já o interesse pelos Cuidados Paliativos nasceu da necessidade de oferecer um tratamento mais completo aos doentes oncológicos, capacitando-me para prestar cuidados de saúde que vão além da doença, centrados no bem-estar global do doente.

Celebramos em Outubro o Dia dos Cuidados Paliativos. Porque é tão importante ter uma data dedicada a esta área da medicina?
Um dia específico é essencial para sensibilizar a sociedade, divulgar esta área e desfazer mitos ainda enraizados. É fundamental relembrar que as principais causas de morbilidade e mortalidade em Portugal são as doenças cardiovasculares e o cancro. Com o aumento da esperança média de vida, é muito provável que, em algum momento, todos precisemos do apoio de uma equipa de Cuidados Paliativos. Estes cuidados tornam-se ainda mais relevantes perante a cronicidade das doenças, ajudando a aliviar diferentes formas de sofrimento.

Como explica, de forma simples, o que são os Cuidados Paliativos a alguém que nunca ouviu falar?  
Os Cuidados Paliativos são cuidados de suporte especializados que visam melhorar a qualidade de vida e o bem-estar de doentes e familiares/cuidadores. Dirigem-se a pessoas que vivem com doenças crónicas e potencialmente fatais. É verdade que muitas vezes são associados apenas à fase final de vida, mas esse é um dos grandes mitos. Na realidade, podem e devem ser integrados desde o diagnóstico de uma doença grave, prolongando-se até às fases mais avançadas e ao fim de vida, sempre com foco no alívio do sofrimento.

A equipa de Cuidados Paliativos é multidisciplinar. Pode descrever-nos como é este trabalho de equipa e que profissionais estão envolvidos?
A equipa de Cuidados Paliativos é constituída por diferentes profissionais de saúde, entre os quais médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e assistentes espirituais. O objectivo é responder de forma abrangente aos vários sintomas e necessidades que surgem no decurso da doença. Embora todos colaborem desde o início, o papel de cada profissional pode assumir maior ou menor relevância consoante a evolução da situação clínica e as necessidades do doente e da família.

Quais são os maiores equívocos ou mitos sobre os Cuidados Paliativos que ainda encontra na sociedade e, por vezes, até noutros profissionais de saúde?
O maior equívoco é a ideia de que os Cuidados Paliativos são apenas ‘para quem está a morrer’. Infelizmente, até alguns profissionais de saúde ainda perpetuam esta visão. Outro mito frequente é o de que estes cuidados aceleram a morte, o que é falso. O seu objectivo é aliviar o sofrimento, seja ele físico, emocional, social ou espiritual, em qualquer fase da doença.

Há também a crença de que se destinam apenas a doentes oncológicos, quando, na verdade, pessoas com insuficiência cardíaca avançada, doenças neurodegenerativas (como a ELA), DPOC grave, entre outras, beneficiam imenso destes cuidados.
Outros mitos ainda persistem: a ideia de que ‘morrem à fome’, que ‘a dor é inevitável’, que ‘o uso de morfina acelera a morte’ ou que ‘os Cuidados Paliativos só podem ser prestados em hospitais’. Tudo isto contribui para a desinformação que importa combater.

Para além do controlo da dor física, que outros tipos de sofrimento a equipa ajuda a mitigar?
Além da dor, intervém-se sobre sintomas físicos como fadiga intensa, falta de ar, anorexia ou estados confusionais. Mas não só: também são abordados os aspectos emocionais (ansiedade, medo, tristeza), espirituais (incerteza em relação ao futuro, perda de propósito) e sociais (impacto da doença na vida diária, no trabalho e nas relações familiares). O foco está sempre no conforto, na dignidade e no apoio ao doente e à sua família.

Como é que se mede o ‘sucesso’ em Cuidados Paliativos? Quais são os objectivos principais?
O sucesso é medido através de indicadores como o controlo eficaz dos sintomas (avaliado com escalas), a resolução de conflitos familiares e a quebra da chamada ‘conspiração do silêncio’, permitindo ao doente compreender e participar no processo de tomada de decisões. O objectivo central é sempre a qualidade de vida.

Como é que uma pessoa doente ou uma família deve abordar o médico para pedir uma referenciação para Cuidados Paliativos? É uma conversa difícil?
Na prática, raramente é a família que solicita o acompanhamento. Qualquer médico pode referenciar um doente para consulta de Cuidados Paliativos. A dificuldade da conversa depende, sobretudo, da forma como é conduzida: se o médico estiver bem informado e conseguir explicar de forma clara as vantagens, a aceitação é mais fácil.

Que conselho dá a uma família que se vê repentinamente no papel de cuidadores de um familiar doente?
É natural sentir dúvidas e insegurança. O papel da equipa é apoiar e capacitar o cuidador para lidar com os sintomas e situações do dia-a-dia. É igualmente importante que o cuidador reserve tempo para si próprio, evitando a exaustão física e emocional que pode surgir quando se cuida a tempo inteiro.

Quais são os maiores desafios que os Cuidados Paliativos enfrentam em Portugal atualmente?
O maior desafio é o acesso desigual: enquanto nas grandes cidades existem mais respostas, nas zonas rurais a oferta ainda é limitada. Também a formação em Cuidados Paliativos precisa de ser reforçada. Na minha experiência, só tive contacto com esta área após escolher a especialidade de Oncologia, o que mostra a lacuna na formação médica de base. Outro desafio é o facto de ainda não serem reconhecidos como uma especialidade médica autónoma.

A telemedicina veio para ficar. Como é que esta ferramenta pode ser usada para melhorar o acompanhamento em Cuidados Paliativos, especialmente em regiões mais isoladas?
A telemedicina pode ser particularmente útil nas consultas de seguimento, permitindo avaliar o controlo dos sintomas sem necessidade de deslocações, o que é uma enorme vantagem em regiões mais remotas. Além disso, possibilita a discussão interdisciplinar entre profissionais à distância, favorecendo um acompanhamento mais ágil e próximo.

Olhando para o futuro, qual é a sua maior esperança para a evolução dos Cuidados Paliativos em Portugal?
Actualmente, menos de 10% dos doentes que necessitam têm acesso a Cuidados Paliativos. A minha maior esperança é que esta percentagem aumente significativamente, à medida que se compreenda que estes cuidados não são apenas para o fim de vida, mas devem ser introduzidos logo no diagnóstico de doenças graves e incuráveis.

O seu trabalho exige uma grande resiliência emocional. O que a inspira e renova as suas forças todos os dias?
O apoio e a partilha diária com colegas são fundamentais. O trabalho em equipa ajuda a lidar com os momentos mais exigentes e a encontrar motivação.

Há alguma história ou momento da sua carreira que a tenha marcado profundamente e que queira partilhar?
Os casos de doentes jovens, pela sua intensidade e complexidade, são aqueles que mais me marcaram ao longo da carreira.

Para terminar, que mensagem gostaria de deixar no âmbito da celebração do Dia dos Cuidados Paliativos?
É essencial desmistificar os muitos mitos que ainda persistem e reforçar a importância de uma comunicação clara e empática por parte dos profissionais de saúde. Só assim conseguiremos aproximar os Cuidados Paliativos das pessoas que deles mais necessitam.

O que pode esperar um doente ou família ao recorrer à consulta de Cuidados Paliativos no Hospital da Luz Guimarães?
Disponibilizamos consultas presenciais e por vídeo, sempre complementadas por apoio telefónico constante para esclarecimento de dúvidas, controlo sintomático e prevenção de crises. Prestamos ainda apoio em internamento, sem lista de espera para marcações, garantindo maior privacidade e acessibilidade aos doentes e famílias.

Ordem dos Médicos nº 57628

 

 

 

Publicado em: 29/09/2025

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