Ser árbitro de futebol, em qualquer escalão, é vestir uma camisola marcada a número. É ser o alvo fácil para a frustração de milhares, o rosto anónimo que carrega com os erros de todos e o prazer de quase ninguém. Os insultos são uma banda sonora constante que vai dos estádios mais luxuosos aos campos de terra batida. É neste mundo de paixão desmedida e crítica feroz que Guilherme Heleno, 55 anos, não só sobrevive como prospera há 38 épocas. Ele é o árbitro mais antigo em actividade no distrito de Braga e um dos mais antigos de todo o País.
A sua história não começa com um apito na mão, mas sim a seguir o pai, também árbitro, pelos campos do Minho. Aos 14 anos, era a sombra do progenitor, a observar não só a sua arte, mas também a chuva de críticas que por vezes lhe caía em cima. “Por acaso, nunca me incomodei com os insultos ao meu pai”, confessou com uma calma que parece defini-lo. “Ainda hoje entendo que é o desabafo de uma semana de trabalho. Infelizmente, as pessoas focam-se no futebol como escape. É aquilo que eu entendo”. Essa serenidade, aprendida na adolescência, tornou-se a sua maior arma dentro de campo.
Aos 17 anos, o ‘bichinho’ falou mais alto e, com uma autorização especial, tirou o curso de arbitragem em Outubro de 1987, tornando-se oficialmente árbitro a 27 de Abril de 1988. Desde então, calcula ter participado em mais de cinco mil jogos. Um número avassalador que esconde milhares de quilómetros percorridos e fins-de-semana passados longe da família, esta foi sem dúvida a parte mais difícil de superar. “Sempre fui um pai presente, mas aceito houve momentos que preteri a companhia da família pela arbitragem”.
Essa paixão é o fio condutor de uma carreira dedicada ao distrito. Guilherme é um raro conhecedor da alma do futebol de formação, aquele onde a pressão é, por vezes, mais intensa. “Os jogos mais complicados são os dos infantis”, disse, surpreendentemente.
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Publicado em: 26/09/2025