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A Compaixão e o Humanismo

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Os dias cinzentos da sociedade mundial têm-me levado a uma reflexão permanente e inquieta sobre os motivos deste desequilíbrio no pacto social que, no passado,

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garantia a paz e a estabilidade das sociedades, e sobre as soluções que nos permitam voltar a ver no horizonte um raio de sol que nos encha de renovada esperança.

Há muito que é claro que o crescimento do individualismo e do egoísmo são ingredientes chave para a mudança de paradigma de sociedade, a que estamos a assistir. As discussões e as perspetivas sobre as quais assentavam os pilares do tal pacto social, foram abaladas pela vitória do “Eu” sobre o “Nós”, e do fim da ideia de que o problema do outro é também o meu problema.

Não querendo reabrir uma batalha já travada, e que moldou o pensamento político e filosófico das últimas décadas, a vitória do capitalismo foi também a vitória da competição, da obsessão com o crescimento permanente, e da avaliação do eu e do outro por “indicadores”, “rankings” e “charts”.

Essa vitória foi aprofundada com a ascensão das novas tecnologias e, particularmente, das redes sociais, vendidas como canais de aproximação, de grande abrangência coletiva, mas que a todos nos afunilaram para o nosso próprio ecrã, pequeno e individual.

O pináculo dessa transformação, surge com as novas “profissões”, a “monetização” das redes e os “Engenheiros do Caos” (Giuliano da Empoli, 2023) que arquitetaram uma nova ordem mundial, movida a “influencers”, “bots” e muito ódio.

Numa análise dos principais temas da agenda do dia, é fácil de explicar por que motivo as Migrações, os Impostos, o Estado Social ou a Paz Mundial se tornaram centrais em todos os discursos, estando o seu debate está inquinado pela ausência de empatia, compaixão ou pelos mais elementares valores da solidariedade e do humanismo.

Como será possível retomar o debate em torno de quem procura o nosso país como lugar seguro para construir a sua vida, se não tivermos compaixão? De que forma é possível voltarmos a entender o princípio redistributivo dos Impostos, se os valores da solidariedade se esgotaram? Como poderemos defender o Estado Social, se no nosso individualismo, e na capacidade de tenhamos de dependermos dele o mínimo possível (ainda que de forma ilusória), não compreendermos a falta que ele faz a quem não tem outra alternativa? Como voltaremos a poder travar o crescendo de conflitos abertos em todo o Mundo, e a militarização global em curso, se não tivermos no valor da vida Humana o centro das nossas prioridades?

Todas estas questões não são idealismo vazio ou ingenuidade. São um diagnóstico daquilo que nos trouxe até este lugar sombrio, e, especialmente, o viés que nos impede de voltar à mesa da discussão com base nos valores que conhecíamos e que nos permitiu construir a paz social no Mundo ao longo das últimas décadas.

Podemos debater os fluxos migratórios para o nosso país, e a sua regulação, tendo estes valores presentes. Podemos questionar os impostos que pagamos, logo que tenhamos consciência de que eles não são apenas uma aquisição de serviços ao Estado Social. Podemos tratar da política de Defesa do nosso País, da Europa e do Mundo, logo que saibamos preservar, no meio do processo, a Paz, que é o bem maior.

O mundo mudou. Agora resta-nos tomar a decisão, de quem ainda acredita que como toda a mudança, é possível ajusta-la: ou procuramos retomar esses valores fundamentais, e colocar a discussão no ponto onde nos consigamos ouvir uns aos outros, ou estaremos condenados a essa nova realidade de egoísmo e ódio.

Eu escolho a Compaixão e o Humanismo como o ponto de partida para voltar à mesa desses tópicos. Porque se nos quiseram convencer de que a ideologia morreu, e que os conceitos de esquerda e direita se esgotaram, não nos queiram agora fazer olvidar os valores fundamentais da vida em sociedade.

Publicado em: 01/07/2025

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