A combinação de história e património vivo sobre a ancestral ligação de Guimarães à indústria de curtumes inspirou o percurso temático promovido pela Sociedade Martins Sarmento para assinalar, no passado sábado, o 3º aniversário da inscrição da Zona de Couros na lista de Património Mundial da UNESCO.
Intitulada “Da Capela da Irmandade de São Crispim e São Crispiniano às antigas manufacturas de curtumes”, a visita procurou “valorizar a herança associada aos diferentes ofícios que marcaram a paisagem urbana e a vida das comunidade”, explicou o Presidente da Sociedade Martins Sarmento, ao agradecer a generosa colaboração da Irmandade de São Crispim e São Crispiniano.
Na visita que começou no conjunto monumental daquela Instituição, localizada no Centro Histórico de Guimarães, Antero Ferreira contextualizou a importância das corporações de ofícios no passado, explicando como conciliavam a regulamentação do trabalho com a assistência religiosa e social, neste caso, dos ofícios de sapateiro, surrador, curtidor e tamanqueiro.
Lembrando que a Irmandade foi condecorada no ano passado pelo Presidente da República com a Medalha de Mérito Social, por promover uma das mais antigas expressões de solidariedade social do país, cuja origem remonta ao ano de 1315, o Presidente da Direcção congratulou-se com a parceria que permitiu dar a conhecer o espaço onde é servida a Ceia de Natal.
Acompanhado dos membros dos órgãos sociais Augusto Novais e António Pereira, Dario Silva realçou a dedicação das pessoas que voluntariamente contribuíram para a continuidade do projeto, recordando a figura do saudoso juiz que o antecedeu – José Pereira – e a sua determinação na concretização do projecto de reabilitação das instalações.
Depois de visitarem a magnífica capela dedicada a São Miguel – o Anjo – , onde se encontram as imagens de São Crispim e São Crispiniano, e a sacristia, com o espólio da secular Instituição, foi possível aceder à cozinha onde é confeccionada e servida a Ceia de Natal.
No ano passado, foram servidas mais de 100 refeições. As voluntárias Eduarda Oliveira e Teresa Novais explicaram como funcionam os fogões a lenha onde são cozidas as batatas, o bacalhau e as couves, partilhando aspectos das suas vivências com aqueles que ali encontram conforto e afecto na noite de Consoada.
A ceia é servida numa loja, no rés-do-chão, onde perdura o piso em terra batida, salpicado de serrim, mantendo-se as características originais do edifício medieval. Nas paredes encontram-se penduradas as molduras com fotografias de alguns beneméritos da Instituição, o que permitiu ao grupo conhecer o impacto desta manifestação de solidariedade na vida da cidade industrial.
Os couros no Largo do Retiro
Da viela de São Crispim seguiu-se até ao Largo do Retiro, onde Maria José Lopes Silva o funcionamento do negócio familiar na casa com o nº 33 daquele sítio também conhecido pela designação de “Ourado”, testemunhando as vivências com os avós. “De manhã, muito cedo, o meu avô e depois o meu pai, ia ao matadouro recolher as peles dos animais bovinos abatidos durante a madrugada e aqui eram salgadas e muito bem dobradas, de maneira a que o sal cobrisse toda a superfície, sendo depois amontoadas para seguirem para as fábricas de curtumes. A gordura que vinha com as peles era previamente retirada, colocada a secar e depois derretida para ser transformada em sebo, utilizado para isolar os pipos.
“Vinham aqui os tanoeiros e levavam tudo porque precisavam desta gordura animal para o seu trabalho”, observou a cicerone, ao detalhar que o cheiro da decomposição atraía moscas que depositavam os seus ovos, originando larvas que eram muito procuradas pelos pescadores para servirem de isco. “Aqueles bichinhos eram apanhados e vendidos”, observou, indicando que, na infância, a colaboração no trabalho dos adultos fazia parte da vida. “Sou e fui muito feliz aqui”, comentou, reparando que a casa já não ostenta o número 33, antes do percurso interpretativo tomar a direcção das antigas manufacturas de curtumes, atravessando a Rua Egas Moniz onde existiam armazéns e depósitos de peles e calçado, no rés-do-chão dos edifícios que agora têm outra função.
A defesa do património industrial
A visita terminou na Zona de Couros, onde foram revisitados os contornos do processo de classificação daquele espaço como património de interesse público, evitando-se a demolição da maioria das fábricas. Paulo Vieira de Castro foi o orador convidado, na sequência de um artigo intitulado “Defesa do Património: Revitalização da Antiga Zona Industrial dos Curtumes, de sua autoria publicado nas actas do I Encontro Nacional Sobre o Património Industrial, realizado em 1986, em Coimbra, Guimarães e Lisboa. Lembrou o pioneirismo da directora do Museu Alberto Sampaio Maria João Vasconcelos que em 1977 na apresentação da proposta de classificação daquele núcleo, com a consequente aquisição pelo Município de Guimarães do edifício da Fábrica de Curtumes Âncora, em 1978, onde está instalado o Curtir Ciência, assim como a ação da Muralha – Associação para a Defesa do Património de Guimarães.

Foi mencionado o núcleo de Museu da Indústria para ali apontado como um contributo, à época, para a revitalização da zona, sendo prioritária uma maior interação com o ambiente citadino. Paulo Vieira de Castro sublinhou o entusiasmo da equipa envolvida no movimento gerado em torno da valorização do património industrial, ao recordar que a cooperativa A Oficina – Centro de Artes e Mesteres Tradicionais de Guimarães foi criada no âmbito do projecto de reabilitação dos Fornos da Cruz de Pedra.
À descoberta dos “couros” no Museu de Agricultura de Fermentões

O fole, o jugo, os socos e as chinelas foram alguns dos objetos explorados durante a visita temática realizada, na passada sexta-feira, ao Museu de Agricultura de Fermentões, pelos alunos do 3° e 4° anos, da Escola Básica de Caneiros, do Agrupamento de Escolas Fernando Távora, promovida em parceria pela Sociedade Martins Sarmento e a pela Casa do Povo de Fermentões, no âmbito do programa do 3° aniversário da inscrição da Zona de Couros na lista de Património Mundial da UNESCO, organizado pela Câmara Municipal de Guimarães.
Os visitantes foram estimulados a conhecerem e compreenderem a importância do couro nos mais diferentes objectos da vida rural, desde o calçado às alfaias agrícolas, são muitas as peças em exposição naquele museu, merecendo destaque um fole enorme que outrora funcionou numa oficina de ferreiro.
Publicado em: 22/09/2026