Sei o que é, enquanto responsável político, ver uma cidade feliz. Sei o que significa olhar para uma praça cheia, sentir a energia de milhares de pessoas a ocupar o espaço público,
e deixar-me levar, por instantes, pela tentação de deixar que esse sucesso efémero substitua a avaliação séria de meses de trabalho e de definição de políticas. Por isso, quando vejo o Toural transbordar de gente na “Guimarães Veste Branco”, a minha primeira reação é de alegria genuína por uma cidade que sabe celebrar-se.
O problema não está na festa. Está no que se decidiu dizer sobre ela.
Nas últimas semanas, vários responsáveis políticos têm repetido em diferentes palcos, que há uma nova fase em Guimarães com “o fim do elitismo” e “o fim da cultura do gosto”, apontando o regresso da Noite Branca e o espetáculo de João Baião no Centro Cultural Vila Flor como prova de uma nova era de “cultura para todos”. Quero acreditar que estas palavras nascem, sobretudo, do entusiasmo de quem viu a praça cheia e sentiu, naquele momento, que tinha razão sobre tudo. Mas uma política cultural não se escreve no calor de uma noite de verão. Escreve-se com tempo, com participação e com responsabilidade. E é sobre isso, e não sobre a festa, que este artigo trata.
Comecemos pela memória, que anda a ser tratada com alguma leviandade. A Noite Branca não nasceu em 2026. Foi criada e consolidada por executivos socialistas, como grande festa urbana de verão, articulando música, cultura, comércio e convívio, e mobilizando desde sempre milhares de pessoas para o centro histórico. Depois de 2019, num contexto marcado pela pandemia, optou-se por experimentar novos formatos, como o Sunset Praça ou o Guimarães Entre Palcos, em parceria com entidades locais como a Associação Vimaranense de Hotelaria, mantendo viva a lógica de animação urbana sob outras marcas. Dizer que a cidade “esteve seis anos sem festa” ou que o anterior executivo foi “coveiro” da Noite Branca é uma forma de escrever a história ao contrário, para que o presente pareça mais heroico do que realmente é.
Da mesma forma que se reescreve a história da Noite Branca, reescrevem-se também os números do turismo. É enganador apontar a suposta nova política cultural como argumento para o crescimento de 9,4% das dormidas no primeiro semestre de 2026, desconsiderando que há dois anos, por esta altura, Guimarães já crescia 11% em relação ao período homólogo. Ainda por cima, tanto a Noite Branca como o MIMO aconteceram já no segundo semestre. Ou seja, o crescimento que se atribui à ‘nova política cultural’ ocorreu em meses anteriores a ela.
Mas o que verdadeiramente importa neste debate não é saber quem inventou uma festa, ou definiu uma estratégia com resultados de sucesso, até porque esses, sabemos, não se semeiam e colhem em seis meses. É saber que Guimarães tem, hoje, um instrumento que devia estar acima destas disputas: o Plano Estratégico Municipal de Cultura Guimarães 2032. Um documento que resultou de um processo profundamente participado, com quase setecentas pessoas ouvidas, cinquenta personalidades envolvidas em quinze sessões de trabalho, e que deu origem a mais de cem medidas concretas, organizadas em eixos e objetivos estratégicos até 2032. Um plano aprovado por unanimidade, com o voto favorável do próprio Ricardo Araújo, então vereador da oposição.
Este facto muda tudo o que se possa dizer a seguir. Porque quem hoje acusa o passado de ter imposto “a cultura do gosto centralizada pelo PS” votou favoravelmente, há pouco tempo, um plano que define exatamente o contrário: governança cultural participada, autonomia artística, diversidade de linguagens e construção coletiva de políticas a dez anos. Não estamos, portanto, perante um confronto entre um modelo antigo e um modelo novo. Estamos perante a possibilidade de um executivo ignorar, na prática, um compromisso que subscreveu.
Se o atual executivo pretende, legitimamente, rever prioridades, deve fazê-lo às claras, explicando o que mantém, o que altera e o que propõe no lugar do que abandona. É isso que se pede a quem governa: coerência entre o que vota e o que faz.
Há, neste contexto, um facto que não pode ser tratado como nota de rodapé: a saída de Rui Torrinha da direção artística do Centro Cultural Vila Flor e das artes performativas d’A Oficina, ao fim de mais de dezasseis anos ligado à estrutura que ajudou a tornar relevante no panorama nacional das artes performativas.
Foi comunicado que o ciclo terminou por acordo entre as partes. Não conhecemos, contudo, os termos concretos desse entendimento e sabemos que a sua comissão de serviço só terminaria em meados de 2027. Não podemos fingir que esta coincidência temporal é irrelevante, sobretudo quando o próprio Presidente já anunciou publicamente que determinados espetáculos poderão passar a integrar a “programação própria” d’A Oficina. Uma direção artística pode e deve renovar-se; o que a cidade tem o direito de saber é se está perante uma renovação natural ou perante o primeiro sinal de que a programação cultural passará a responder, cada vez mais, à vontade de quem governa.
É também nesse quadro que deve ser lido o episódio de João Baião. Não existiu, no passado, qualquer veto ou censura à sua presença no Centro Cultural Vila Flor: o que existiu, no passado, foi uma negociação de datas para aluguer da sala, que não foi possível concretizar por incompatibilidade de agenda. Transformar um desacordo sobre calendário numa narrativa de “ditadura do gosto” é manipular a realidade para fins políticos. Uma sala pública deve ser acessível a todos os públicos e a todas as linguagens artísticas. Mas acessibilidade não é ausência de critérios, e um teatro sem autonomia para gerir a sua agenda e o seu projeto artístico deixa de ser um teatro: passa a ser um palco ao serviço de quem manda.
Chegamos, assim, ao ponto que verdadeiramente importa. “Cultura para todos” não pode significar apenas praças cheias e rostos televisivos. Os estudos sobre consumos culturais em Portugal mostram-nos algo que qualquer autarca deveria ter presente: festivais e festas populares são, de facto, as experiências mais frequentadas, enquanto o teatro e as outras artes performativas continuam a ter públicos mais reduzidos, concentrados em quem já tem hábitos culturais consolidados. Encher uma praça uma vez por ano não aproxima automaticamente esse público de uma sala de espetáculos ao longo de todo o ano. Essa aproximação exige mediação, formação de públicos, trabalho com escolas e associações, acessibilidade económica e continuidade.
Por isso, a verdadeira alternativa à “cultura do gosto” não é substituir o gosto dos programadores pelo gosto do Presidente. É construir critérios plurais, transparentes e participados: exatamente o que o Plano Estratégico já prevê. Cultura popular é o povo a celebrar a sua cidade. Cultura populista é o poder a usar essa celebração para dividir os vimaranenses entre “elitistas” e gente como nós”. Guimarães merece a primeira. Não precisa da segunda.
Uma praça cheia é motivo de orgulho. Mas uma praça cheia não substitui um plano construído com centenas de pessoas, nem dispensa a autonomia de quem programa uma casa de cultura. Guimarães não precisa de escolher entre o Toural e o Vila Flor, entre a festa e a criação, entre a tradição e a contemporaneidade. Precisa de uma política cultural que saiba juntar tudo isto e de um Executivo disposto a explicá-la com a mesma clareza com que celebra as suas noites de sucesso.
Publicado em: 25/08/2026