A Sociedade Martins Sarmento assinala o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor, destacando da sua Biblioteca o livro «O Barão», peça de teatro de Luís Sttau Monteiro, que integra o Fundo de Teatro de Joaquim António dos Santos Simões. Neste livro, o autor português “verteu” para a linguagem teatral a narrativa homónima de Branquinho da Fonseca, editada em 1942.
A adaptação de «O Barão», pelo olhar do escritor Sttau Monteiro, apresenta a narrativa original de um episódio, um acontecimento especial, que decorre durante uma noite, em que a personagem O Inspector (das Escolas de Instrução Primária), deslocando-se em trabalho a uma aldeia da serra do Barroso, cruza-se com várias outras personagens do enredo (O Barão, Idalina, A Bela Adormecida, A Professora, O Pai do Barão, O Mestre Alçada, Os Componentes da Tuna e os Figurantes) com especial destaque para a figura do Barão. Esta personagem, nas palavras de David Mourão Ferreira (1998), é “um ser que nos perturba, e revolta, e comove, com os seus defeitos e as suas qualidades, as suas obsessões, os seus sonhos, a sua índole pessoal e intransmissível”. A construção dramatúrgica de Sttau Monteiro recorre a elementos que reforçam os posicionamentos do escritor, as indicações cénicas traduzem o ambiente e a personalidade das personagens e dos momentos da ação. Nestas indicações, convoca o leitor a reler a situação político-social do país, um momento em que as manifestações artísticas estavam sujeitas ao “parecer” do lápis azul (a censura).
A intensa dramaticidade da obra de Branquinho da Fonseca (1905-1974) atraiu Sttau Monteiro, que adaptou o texto original para uma peça de teatro, continuando a dar vida à enigmática personagem de «O Barão». Na década de 40, a produtora Valerie Lewton demonstrou interesse na história do livro de Branquinho, tendo mesmo iniciado algumas filmagens, mas o projeto foi proibido pela censura. Em 2011 foi estreada uma refilmagem do trabalho original, pelo realizador Edgar Pêra, a partir de duas bobines e do argumento, encontrados anos antes.
Luís de Sttau Monteiro nasceu em 1926 e faleceu em 1993. Licenciou-se em Direito, pela Universidade de Lisboa, mas notabilizou-se no campo da literatura, sendo considerado pelos críticos de literatura como uma figura incontornável do século XX português. Luís de Sttau Monteiro foi um escritor multifacetado. Destacou-se como dramaturgo, tendo escrito várias peças e adaptações teatrais, elaborou textos no domínio do romance, da crónica e do jornalismo. Foi colaborador em diversas publicações periódicas, tradutor e, juntamente com Alexandre O’ Neil, escreveu os diálogos para o filme “Pássaros de asas cortadas”, de Artur Ramos”. Alguns dos seus textos foram sendo revisitados, como é exemplo o romance “Angústia para o jantar”, que foi adaptado para uma série de televisão, pela RTP, tendo tido grande sucesso (em 1975).
Crítico da política do Estado Novo, o escritor foi preso pela PIDE e alguns dos seus textos foram censurados, como é exemplo a premiada peça para teatro, “Felizmente há Luar!”, que só pôde ser representada depois do 25 de Abril.
Luís de Sttau Monteiro denota na sua obra as suas convicções, o seu pensamento social, assumindo-se um defensor da liberdade, da igualdade e da justiça social. No romance «Angústia para o jantar» (1961) apresenta uma crítica aos comportamentos da burguesia, em «Felizmente à Luar!» (1961) e «O Barão», entre outros títulos, denuncia a situação político-social portuguesa da época.
Volvidos 100 anos sobre o nascimento de Sttau Monteiro, lembramos o escritor e a sua obra, através do convite à leitura da peça «O Barão», concretizando o que o escritor, em 1971, registou numa das suas peças para teatro: “Mesmo que outro tempo não venha no nosso tempo, ficam as peças a atestar que fizemos o que devíamos e podíamos fazer”.
Publicado em: 24/04/2026