Pelos vistos a 1 de maio do ano 62 a.c. a segunda mulher de César organizou uma festa só para mulheres, uma espécie de girls night. Diz-se
que nessa festa participou um apaixonado da bela mulher de César que entrou na celebração disfarçado de tocadora de lira. Descoberto o embuste o atrevido foi expulso da festa mas, nem mesmo assim, César perdoou à mulher, separando-se dela. Daí resultou a expressão à mulher de César não basta ser séria, tem de parecer séria.
O mais provável é que César estivesse farto da mulher e o que aconteceu deu-lhe um imaginativo pretexto para a despachar. É, mesmo assim, uma hipótese bem menos drástica do que a do rei inglês Henrique VIII que usou argumentos canónicos para se separar de Catarina e casar com Ana Bolena. O Henrique era um homem de temperamento difícil e acabou, mais tarde, também por se separar de Ana, momentos antes de lhe cortar a cabeça. A impunidade da violência doméstica no seu esplendor.
Henrique e César perceberam, com 1600 anos de diferença, que interessava mais o que parecia do que efetivamente o que era. O que foi para eles absolutamente central foi o pretexto, muito mais do que o ato. Um inventou um aforismo, outro uma Igreja. Particularidades. Todos nós, num grau mais suave, nos preocupamos mais com o que parece do que com o que é.
Confesso, sem grande remorso, que muitas vezes ajo de forma distinta daquilo que efetivamente sinto. Os mais “puristas” chamar-lhe-ão hipocrisia eu chamar-lhe-ia sensatez; a Agustina, na sua habitual elegância, designou esse comportamento por decoro. Se dissermos sempre aquilo que pensamos a vida em sociedade seria impossível, até porque muitas vezes o que pensamos está errado. A cautela obvia o erro. E, pessoalmente, cada vez tenho menos paciência para quem está continuamente a dizer tudo o que sente sob o pretexto de ser transparente. O remédio é respondermos na mesma moeda. Normalmente resulta.
Na verdade, aquilo que somos só é (claramente) significativo no que parecemos ser para os outros. É a vida, não vale a pena tentarmos dar a volta à situação. Há uns meses escutei, sem querer, juro, uma discussão conjugal em que a mulher atirou em tom ameaçador ao homem, para rematar a discussão, tu não me conheces. Ora a mulher no calor da discussão confessou candidamente que nos (talvez) quarenta anos que levavam de casados o homem conheceu uma mulher que não era ela … mas uma representação dela. Brutal.
O ser e o parecer é, numa escala mais dramática, um jogo político. É com as pessoas e é com os países. Os EUA matam o general iraniano para, disse Trump, prevenir. Os iranianos mandaram os mísseis para, segundo o líder supremo, retaliar. Mas no fundo ambos estão felizes com o teatro. Até parece combinado entre os dois. Trump lança-se com este gesto de força para a campanha e já ninguém fala do impeachment, Ali Khamenei vê desaparecer uma ameaça civil ao seu poder e ganha o pretexto para suprimir, ainda mais, a liberdade a milhões de iranianos fartos das farsas eleitorais e dos outros milhões que clamam por vingança e mais puritanismo religioso.
Os dois esforçam-se por fazer parecer aquilo que não é, só que, neste caso, sem decoro nenhum.
Mas a diferença entre o ser e o parecer não nos deve, de modo algum, angustiar. Apesar de não gostar nada de melão – ou talvez por causa disso – abomino a encenação que os entendidos fazem na escolha do fruto. Ora cheira, ora apalpa, ora escuta, ora acaricia.
O que é preciso e urgente é abrir o melão! seja na fruta ou nas relações humanas. Ainda hoje, para mim, não há nada de mais interessante do que conhecer outra pessoa … mesmo que seja aquela que há bastante tempo conheço.
Publicado em: 14/01/2020