“A insuficiência cardíaca é uma doença crónica que tem um impacto muito significativo na qualidade de vida, mas também na quantidade de vida. O que mais nos preocupa é que muitos dos potenciais doentes não estão diagnosticados ou o diagnóstico surge tardiamente”, aponta Filipa Almeida, médica responsável pela Unidade de Cuidados Intensivos de Cardiologia e pelo Grupo de Insuficiência Cardíaca, do Hospital da Senhora da Oliveira, da Unidade Local de Saúde do Alto Ave.
Desde a passada segunda-feira, no âmbito dos “Heart Failure Awareness Days 2026, estão a decorrer diversas acções de sensibilização da população para a insuficiência cardíaca, uma condição clínica de elevada prevalência e impacto na qualidade de vida. Aliás, amanhã, dia 1 de Maio, o Parque da Cidade recebe, a partir das 10h00, uma sessão de exercício físico pela insuficiência cardíaca, constituindo um momento de contacto com a comunidade para a divulgação da diferença que poderá fazer o diagnóstico precoce da doença.
A responsável explica que o grande objetivo desta campanha internacional é a consciencialização do público em geral para a necessidade de dedicar a atenção devida aos “sinais e sintomas” para que seja possível um diagnóstico atempado. “Informar os doentes e acompanhá-los com proximidade que é o que fazemos na Consulta de Insuficiência Cardíaca existente no Hospital, de forma a que tenham uma vida com melhor qualidade e mais prolongada”, justifica, ao salientar: “o que queremos nesta semana é chamar a atenção para a insuficiência cardíaca, dar ferramentas aos nossos colegas e aos doentes para melhorarem a sua narrativa em saúde e assim contribuir para a melhoria da saúde da população”.
Questionada sobre quais os sinais de alerta, Filipa Almeida adverte: “qualquer doença cardiovascular pode levar à insuficiência cardíaca”. “A insuficiência cardíaca é uma condição que resulta de muitas doenças cardiovasculares. Os principais sintomas são a fadiga, a falta de ar, o cansaço que inicialmente é com o esforço. Mas que se vai tornar um cansaço para esforços progressivamente menores e que, muitas vezes, são atribuídos a outras condições clínicas, como a idade, comorbilidades como a diabetes ou o excesso de peso. Esta atribuição a outras condições clínicas impede-nos de fazer um diagnóstico atempado”, refere, alertando: “as pessoas que se sentem cansadas, com falta de ar, que têm inchaço nos pés ou nas pernas, devem procurar o seu médico assistente para que se essa condição estiver na base uma insuficiência cardíaca o diagnóstico possa ser feito atempadamente”.
No Hospital da Senhora da Oliveira, no Serviço de Cardiologia, existe um grupo interdisciplinar dedicado à insuficiência cardíaca, com uma equipa alargada que integra “médicos, enfermeiros ligados à insuficiência cardíaca e também da área da reabilitação”, desenvolvendo a sua actividade em articulação com a Medicina Física e de Reabilitação “para a reabilitação cardiorespiratória”.
Em Portugal, segundo os últimos dados, estima-se que 16 por cento da população com mais de 50 anos tem insuficiência cardíaca. “São milhares de doentes, dos quais só cerca de 10 por cento estão diagnosticados. Temos um trabalho muito grande pela frente para conseguirmos o diagnóstico precoce e assim acompanhar a orientação de vida destes doentes”, indica Filipa Almeida, ao frisar que a consulta hospitalar acompanha “doentes com insuficiência cardíaca numa condição mais avançada, aqueles em que o coração está de tal maneira debilitado que não consegue contrair e funcionar devidamente”, salienta, ao precisar que são cerca de mil os doentes acompanhados entre a Consulta de Insuficiência Cardíaca e a Clínica de Insuficiência Cardíaca “que funciona como um hospital de dia, em que os doentes são seguidos de forma rápida e próxima”.
Destacando a importância do diagnóstico precoce porque “permite iniciar medicação que é absolutamente fundamental para mudar o prognóstico do doente”, Filipa Almeida realça que quando é iniciada a medicação precocemente, “a doença vai evoluir de forma muito mais latente, às vezes entra até aquilo que consideramos a remissão. Os doentes deixam de ter sintomas e podem ter uma vida completamente normal. Por isso, permite melhorar a qualidade de vida e reduzir a mortalidade”.
Quanto às causas que provocam esta doença, a responsável alerta que “a insuficiência cardíaca é a quase a condição final de muitas patologias cardíacas”. “A principal causa da insuficiência cardíaca é o enfarte agudo do miocárdio. A lesão do coração induzida pelo enfarte agudo do miocárdio poderá levar à destruição do coração e daí a insuficiência cardíaca. Há muitas causas, algumas também hereditárias que estão na base do desenvolvimento da insuficiência cardíaca, mas as mais comuns são as doenças cardíacas, como o enfarte agudo do miocárdio, algumas patologias crónicas como a hipertensão arterial mal controlada, o excesso de peso e a obesidade e alguns tóxicos, dos quais se destaca o consumo de bebidas alcoólicas”, declara, ao desafiar as pessoas a estarem atentas aos sintomas e contactarem com o médico assistente para um diagnóstico precoce.
Publicado em: 30/04/2026