Mais uma vez, Guimarães celebra as suas famosas Festas Gualterianas, que todos os anos atraem milhares de visitantes, de modo muito especial numerosos emigrantes que, neste início do período de férias, regressam à sua terra para reviver memórias, reencontrar familiares e saborear os prazeres de outros tempos.
Na verdade, da mais pequena e recôndita aldeia à mais importante vila ou cidade de Portugal, dificilmente haverá terra que se preze sem as suas festas tradicionais. Tal como acontece com as Gualterianas, há celebrações que imediatamente identificamos com a terra onde se realizam: as festas de Nossa Senhora da Agonia evocam Viana do Castelo; as de Nossa Senhora dos Remédios, Lamego; o São João, o Porto e Braga; Santo António, Lisboa; e o Senhor Santo Cristo, Ponta Delgada, nos Açores.
Creio poder afirmar que estas manifestações populares constituem, a par de outros fatores, um importante contributo para a consolidação da identidade de uma comunidade e de um povo. Preservam a memória coletiva, fortalecem o sentimento de pertença e tornam-se ainda mais valiosas em tempos de incerteza, quando as raízes e os valores comuns ajudam a manter viva a coesão social.
Para falar das Gualterianas ou de S. Gualter, haverá certamente quem possua maiores conhecimentos do que eu. Ainda assim, permitam-me os leitores que, recorrendo ao ensaio biográfico “S. Gualter de Guimarães”, do franciscano Frei Aloísio Tomás Gonçalves, evoque, de forma necessariamente breve, a figura do nosso Santo Padroeiro.
Nos primórdios do século XIII, Deus chamava ao serviço da evangelização homens que renovariam profundamente a forma de anunciar o Evangelho.
Entre eles destacam-se São Francisco de Assis e São Domingos de Gusmão, fundadores, respetivamente, da Ordem dos Frades Menores e da Ordem dos Frades Pregadores. A pobreza voluntária, a simplicidade de vida e o testemunho pessoal constituíam a essência da sua missão.
Segundo a tradição, depois de tentar partir para o Oriente, São Francisco percorreu também a Península Ibérica, onde ficou profundamente impressionado com a fé do povo português. Em 1216 enviou para Portugal Frei Zacarias, Frei Gualter e outros dois companheiros, recomendando-os à Rainha D. Urraca, esposa de D. Afonso II, para que não fossem confundidos com os muitos movimentos considerados heréticos que então surgiam pela Europa.
Entre as recomendações que dirigiu aos seus discípulos, merece especial destaque a exortação: «…, mas sejam vossas palavras acompanhadas de obras, porque neste caso mostra mais que a doutrina…. Anunciai com alegria a paz do Céu, da qual sois embaixadores.»
Chegado a Guimarães, Frei Gualter retirou-se para a encosta do Monte de Santa Catarina, na Penha, onde viveu em oração e trabalho, segundo o espírito franciscano. Durante o dia descia à vila para servir os doentes no hospital, ajudar os trabalhadores dos campos e anunciar o Evangelho. A sua vida simples, humilde e dedicada ao próximo conquistou rapidamente a estima da população.
A fama da sua santidade espalhou-se muito para além de Guimarães. Não faltaram incompreensões e resistências, naturais quando a exigência do Evangelho confrontava os poderes instalados, mas o testemunho da sua vida prevaleceu.
Terá falecido depois de 1258, deixando uma memória de santidade que perdurou ao longo dos séculos. São numerosos os milagres que a tradição lhe atribui, bem como a veneração popular demonstrada pela conservação das suas relíquias e pelo culto que rapidamente se difundiu. Muito desse património documental perdeu-se, infelizmente, após a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, durante o governo de Joaquim António de Aguiar, “o mata frades”.
A importância pública do culto de São Gualter ficou oficialmente reconhecida pela Bula do Papa Gregório XIII, de 17 de dezembro de 1577, posteriormente ampliada por Gregório XV em 1621, bem como pela provisão de Filipe III, datada de 20 de janeiro de 1622, determinando que a procissão em honra do Santo se realizasse anualmente, com a participação da Câmara e a solenidade própria das grandes celebrações da vila.
Também este ano se cumpriu, no passado domingo, a dimensão religiosa das Festas Gualterianas, com a celebração da Eucaristia na Igreja de S. Francisco, presidida por Sua Excelência Reverendíssima D. José Cordeiro, Arcebispo de Braga, seguida da majestosa procissão que percorreu algumas das ruas do centro histórico de Guimarães, testemunhando uma vez mais a profunda devoção do povo vimaranense ao seu Padroeiro.
Num tempo em que tantas tradições parecem perder espaço perante o ritmo acelerado da vida moderna, as Festas Gualterianas continuam a recordar-nos quem somos, de onde vimos e aquilo que une sucessivas gerações de vimaranenses. Celebrar S. Gualter é celebrar Guimarães, a sua história, a sua cultura, a sua fé e a identidade de um povo que continua a encontrar nas suas raízes motivo de orgulho e esperança para o futuro.
Guimarães, 3 de agosto de 2026
António Monteiro de Castro
Publicado em: 04/08/2026