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Rui Rodrigues: “Financeiramente, foi a melhor época do Vitória”

Bolama
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A poucos dias da Assembleia Geral em que serão apreciadas e votadas as contas referentes ao exercício da temporada passada, o vice-presidente Rui Rodrigues falou em exclusivo ao Grupo Santiago. O dirigente adverte que o caminho é ainda sinuoso, mas que os sinais transmitidos são positivos e consolidam uma estratégia perfeitamente definida.

No que diz respeito ao exercício financeiro da época passada, parece que pode suscitar, de algum modo, aquela análise popular do copo meio cheio ou do copo meio vazio. Qual é a sua análise?: “Uma coisa que é factual e que aconteceu este ano é o desenvolver de um trabalho de transformação que tivemos desde o início do mandato. Sem dúvida nenhuma que hoje somos um clube muito mais forte do que quando entrámos. O Vitória apresentava uma dificuldade financeira premente, sobretudo em termos de fluxos de caixa, e isso fez com que, dentro dessa adversidade, fossem tomadas algumas decisões que levassem até à estratégia que está a ser tomada já nesta época. A receita é tida em três blocos, que são as receitas ordinárias, a receita da UEFA e as receitas extraordinárias, das vendas, sobretudo, dos atletas. Felizmente, nesta época em análise, tudo se convergiu. Tivemos um aumento da receita ordinária, um aumento exponencial daquilo que é a receita da UEFA e tivemos também um aumento exponencial das receitas extraordinárias. No último ano e meio foram tomadas decisões muito difíceis e não nos podemos esquecer que, no ano passado, demos um resultado negativo de 14 milhões de euros. Isso foi calculado, foi falado aos sócios na Assembleia Geral, o porquê daquele resultado. Um clube que não tem fluxo financeiro, porque foram tomadas as receitas de 19 milhões de euros em três épocas, faz com que tenhamos uma pressão muito grande para gerir todos estes milhões de dívida. Houve sucesso no mandato, mas não quer dizer que temos a vida resolvida. Temos outros desafios pela frente para tentar valorizar ao máximo os nossos ativos, porque só dessa forma é que conseguimos ter sustentabilidade e independência sobre a entrada de terceiros, O último exercício vem-nos dizer que estamos a trabalhar bem e que o clube, efetivamente, está melhor do que estava, fruto do trabalho de toda a gente, da administração e de todos os funcionários. Há um empenho de todos e temos a certeza que, com a união que sentimos e com a vontade de todos, as coisas vão continuar no caminho certo.”

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Esta última época pode, portanto, ser simbólica e é isso que se pretende replicar daqui para o futuro, ainda que no futebol tudo seja muito imprevisível?: “Esta época foi a melhor de todas da história do Vitória, em termos daquilo que são os resultados e os proveitos. Há que reconhecer, porque isso é factual. Se tirarmos aquele negócio maquilhado com o FC Porto, que tivemos que assumir nestes três anos, com 9,7 milhões de euros de amortizações, o nosso conjunto de resultado líquido é positivo quase em 4 milhões de euros. Portanto, estamos a falar de uma performance muito positiva dentro de um contexto extremamente delicado quando entrámos. Invertemos um resultado negativo de 13,7 milhões de euros para um resultado positivo, passados três anos, de 7,6 milhões. Ou seja, temos aqui uma recuperação de 20 milhões de euros. Evidentemente, que o nosso objetivo é replicar e criar estabilidade para que fiquemos mais fortes e possamos reforçar a nossa posição financeira, sobretudo a nível de capitais próprios.”

Este resultado positivo de que fala, os 7,6 milhões, é assente sobretudo nas mais-valias geradas pelas transferências do Jota Silva, do Alberto Costa, do Kaio César e do Manu Silva e da participação do Vitória na Liga Conferência. A verdade é que os ativos foram vendidos por quase 50 milhões de euros e depois das deduções o resultado é de apenas 27,5 milhões de euros de lucro. Se me permite a expressão, como é que se perde tanto dinheiro pelo caminho?: “Entre a venda bruta e a venda líquida, temos que perceber que há os agentes pelo meio, os clubes, os atletas, os mecanismos de solidariedade, o desconto que temos que fazer antecipado dessas vendas porque a nossa necessidade financeira assim o obriga… Temos que descontar esse dinheiro… Temos os juros a pagar à cabeça e, portanto, a venda e a subtração dessas componentes todas dá-nos o valor líquido. Tentamos negociar da melhor forma e obter o máximo de dinheiro porque também significa que vamos estar mais descansados no que é o dia de amanhã, mas há que tentar perceber que há todo um conjunto de pessoas, de clubes, de intermediários a quem pagar.”

Estamos a falar de um quadro que afeta genericamente o futebol ou afeta sobretudo clubes como o Vitória, que tem uma maior debilidade.: “Isto afeta todos os clubes, mas evidentemente que o mercado hoje não anda de olhos fechados. O mercado hoje estuda as contas dos clubes, faz pressão aos clubes e, sabendo das dificuldades que eles têm, tentam eles próprios fazer os melhores negócios.”

Quando há pouco estávamos a falar da importância de replicar a última temporada, olhando já para aquilo que serão os próximos meses, a pergunta que lhe coloco de uma forma muito direta é esta: é imperativo vender em Janeiro?: “Claro que sim. Fala-se muito daquilo que é o nosso passivo. Em 2022, tínhamos um passivo exigível à volta dos 44 milhões de euros. Agora aumentámos 3,2 milhões de euros. O passivo exigível é aquilo que temos mesmo que pagar. O passivo total vem de 52 milhões de euros e chegou aos 69, mas grande parte deste passivo são de operações de factoring que fazemos, ou seja, vendemos os atletas e os fundos que nos descontam não têm confiança no mercado ou nos clubes para onde eles vão e obrigam-nos a fazer o desconto com o recurso. Significa que quando o dinheiro entra na conta do Vitória, aumentamos o passivo, mas mantemos o ativo que é a dívida que aquele clube tem connosco. Normalmente, fazemos um negócio para um clube que tenha a sua condição estável, por exemplo, o Manu para o Benfica, o Alberto para a Juventus… Como é um clube fidedigno, não tem recurso, o que significa que quando recebemos o dinheiro, só desaparece o ativo, a dívida do cliente. A maior parte das vendas são feitas com pagamentos em 2, 3 anos, portanto os clubes são obrigados a pagar diretamente ao fundo e, nesse momento, desaparece o passivo e desaparece o ativo, o que significa que não é exigível.”

Essa é a explicação para o facto do passivo, apesar do resultado positivo dos 7,6 milhões, ter passado de 67 para 69 milhões?: “É essa a razão. Relativamente ao passivo líquido que temos, há um aumento de 3,2 milhões de euros desde 2022, mas este aumento não é por desequilíbrio daquilo que foi a gestão durante estes três anos. Foi aumentado porque investimos em atletas, porque investimos em infraestruturas e em formação. É um aumento que gera valor. E, simultaneamente, também estamos a falar de um passivo do lado negativo pela necessidade de liquidez que tivemos, também em virtude do adiantamento dos 19 milhões de euros que foi feito pela administração anterior. A necessidade de liquidez, para fazer face às despesas correntes, fez com que nos financiássemos numa instituição bancária e, desde que fizemos esse financiamento, tivemos um custo associado em juros de 3,3 milhões de euros. O facto de terem adiantado os direitos televisivos no outro mandato, fez com que o Vitória tivesse uma perda de 3,3 milhões de euros na nossa gestão só em juros.”

Repito a questão: vender ativos em Janeiro é indispensável?: “Hoje, na Academia, trabalha-se como nunca se trabalhou e acreditamos que o futuro passa muito pela nossa formação. Tem havido um investimento muito forte, seja em condições de trabalho, seja em recursos humanos, para ajudar a alavancar todos aqueles miúdos. Nós precisamos de dinheiro e de estabilidade, Portanto, precisamos de vender, como é óbvio. Senão estagnamos e criamos aqui um problema interno que é difícil de gerir. Só a partir de Janeiro é que vamos começar a receber a receita da televisão, mas quase todos os clubes têm esta necessidade das vendas, dos resultados extraordinários. Estamos também a trabalhar numa reestruturação da dívida que nos poderá dar alguma capacidade de passar o passivo para médio-longo prazo, com taxas mais atrativas que possamos suportar para passar, eventualmente, para um mercado que seja menos interventivo. Mas se tivermos que vender, vamos vender. O nosso objectivo neste momento é potenciar a equipa e dar-lhe confiança.”

Publicado em: 22/10/2025

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