O Movimento Vencer, Sentir, Crescer – que nasceu da candidatura de Viriato Sampaio às últimas eleições para os Órgãos Sociais do Vitória – emitiu um comunicado, esta tarde, em que se posiciona sobre os temas que vão ser votados na Assembleia Geral Extraordinária desta sexta-feira.
O texto assinado por Ricardo Martins Lobo, presidente do Conselho Fiscal entre Março de 2022 e Março de 2025, começa por abordar “a ilusão dos 17% e o abismo dos 100 milhões” para depois vincar que “o acordo de 2026 não é o acordo de 2023.”
O comunicado, na íntegra, diz o seguinte:
“VITÓRIA SC: A ILUSÃO DOS 17% E O ABISMO DOS 100 MILHÕES
No dia 30 de outubro, os sócios do Vitória Sport Clube serão chamados a pronunciar-se sobre a alienação de mais 17% do capital da Vitória Futebol SAD à V Sports. Formalmente, a votação incide sobre uma participação acionista. Na realidade, o que está em causa é muito mais profundo: a capacidade do Vitória para continuar a decidir o seu próprio futuro. O Movimento VSC considera que esta decisão deve ser enquadrada na gravidade da situação económica e financeira da SAD, e não apresentada como uma resposta isolada às dificuldades de tesouraria. Há dois problemas que não podem continuar a ser adiados: um défice económico estrutural e um passivo que já ultrapassa os 85 milhões de euros, podendo aproximar-se dos 100 milhões a curto prazo.
1. OS NÚMEROS EXIGEM UMA RESPOSTA ESTRUTURAL
A série de seis exercícios apresentada no quadro anexo é inequívoca. A SAD acumula cerca de 38,4 milhões de euros de resultados líquidos negativos, correspondentes a uma perda média anual de 6,4 milhões de euros. Houve resultados positivos em apenas dois dos seis exercícios. O passivo ascende a 85,3 milhões de euros, o valor mais elevado da série, e os capitais próprios são negativos em 36,8 milhões de euros. O passivo de curto prazo atinge 71,8 milhões de euros, enquanto o défice financeiro de curto prazo se situa em 52,5 milhões de euros. Os juros anuais passaram de cerca de 685 mil euros para 5,6 milhões de euros, representando atualmente 15% dos gastos considerados. As receitas sem vendas de jogadores, de 14,9 milhões de euros, ficam muito aquém dos 36,3 milhões de euros de gastos com pessoal, fornecimentos e serviços externos e juros. Daqui resulta um défice económico superior a 21,4 milhões de euros. Estes indicadores não descrevem uma dificuldade conjuntural. Revelam um modelo de funcionamento que, sem reestruturação, continuará a consumir recursos e a acumular responsabilidades. A tabela completa, com os valores de cada exercício e as médias, consta do Anexo I.
2. O ACORDO DE 2026 NÃO É O ACORDO DE 2023
A comparação com março de 2023 é indispensável, mas não pode ignorar as diferenças entre as duas operações.
Destino dos dois milhões de euros. Em 2023, o montante destinava-se ao Clube sob a forma de doação. Na proposta de 2026, o Clube recebe dois milhões de euros, mas fica obrigado a colocá-los na SAD como prestações acessórias.
Agravamento financeiro. O passivo da SAD cresceu acentuadamente desde 2023. A pressão sobre a tesouraria, a dimensão das responsabilidades de curto prazo e os encargos com juros reduzem a margem de autonomia do Vitória.
Liquidação de uma obrigação existente. A operação de 2023 permitiu liquidar a dívida associada à aquisição das ações anteriormente detidas por Mário Ferreira, resolvendo um compromisso concreto do Clube.
Linha de crédito. O acordo de 2023 previa uma linha de crédito de 20 milhões de euros, à taxa de 5,5%. Essa condição tinha um peso relevante no enquadramento financeiro da operação e deve ser considerada ao comparar as propostas.
Defesa da maioria. Em 2023, a preservação da maioria do capital pelo Vitória era assumida como um princípio central. É precisamente essa salvaguarda que importa defender agora, num contexto financeiro muito mais exigente.
3. A ILUSÃO DOS 17%
A operação agora proposta representa, segundo os elementos apresentados, um encaixe de 3,8 milhões de euros para a SAD, sob a forma de prestações acessórias. Mas que problema estrutural pode esse montante resolver quando os resultados negativos recorrentes, os encargos financeiros e as responsabilidades acumuladas assumem a dimensão revelada pelos indicadores? A resposta é clara: não resolve o desequilíbrio económico da SAD, não reestrutura o passivo e não restitui, por si só, a sustentabilidade financeira. Constitui um alívio pontual, não uma solução. Mais preocupante é o risco de, perante a persistência das dificuldades financeiras, surgir em breve a necessidade de novos aumentos de capital. Se o Clube não tiver capacidade para os acompanhar, poderá ficar comprometida a manutenção da maioria na SAD. Esse desfecho não é juridicamente automático, mas é um risco sério que exige uma resposta concreta e credível. A verdadeira decisão dos sócios não se limita, portanto, aos 17% de hoje. Obriga a ponderar as consequências que esta operação poderá ter sobre o controlo efetivo da SAD amanhã.
4. HÁ OUTRO CAMINHO PARA O VITÓRIA
O Vitória precisa de uma reestruturação completa da SAD, orientada por dois objetivos indissociáveis: adequar a estrutura de gastos às receitas correntes e renegociar o passivo para reduzir os encargos financeiros e recuperar margem de atuação. Isso exige um plano quantificado, com metas, calendário, responsabilização pela execução e informação transparente aos sócios. Exige também mobilizar competências, parceiros e soluções de financiamento compatíveis com a preservação do controlo do Clube. Não basta afirmar que há alternativas: é necessário estudá-las, estruturá-las e colocá-las perante os associados. A gravidade da situação não justifica que se aceite qualquer solução. Pelo contrário, impõe maior exigência na escolha do caminho a seguir.
5. UMA POSIÇÃO DE RESPONSABILIDADE
A nossa oposição a esta proposta não é um voto contra pessoas nem contra uma direção. É uma posição fundada na convicção de que a operação não enfrenta as causas da crise financeira e poderá agravar a dependência futura da SAD. Por estas razões, o meu voto na Assembleia Geral será CONTRA. Um voto consciente, em defesa de uma reestruturação séria e do direito dos vitorianos a continuarem a decidir o futuro do seu Clube. Apelamos à participação massiva dos sócios na Assembleia Geral de 30 de outubro. Perante uma decisão desta importância, a ausência não é uma resposta. O Vitória precisa da exigência, da coragem e do compromisso de todos.
O Futuro do Vitória não se vende para adiar o presente. Constrói-se com responsabilidade, competência e independência.”
Publicado em: 29/10/2026