Há 100 anos Guimarães viveu um acontecimento social de grande impacto. No Largo do Toural abriu portas um café. Um café distinto, original e que não deixou ninguém indiferente. A notícia preencheu a edição de 18 de dezembro de 1925 do nosso jornal O Commercio de Guimarães, com uma descrição detalhada do projecto com “página de honra”, exaltando a sua importância para a Cidade. O café encerrou a 18 de Julho de 1967 para dar origem a uma dependência bancária do Banco Português do Atlântico.
O centenário da abertura do estabelecimento será assinalado esta sexta-feira, pelas 17h30, na Sociedade Martins Sarmento, com uma exposição organizada pela Muralha – Associação de Guimarães para a Defesa do Património e o lançamento do livro “Café Oriental (Egípcio) – Esbôço Explicativo”, da autoria do Capitão Luís de Pina. A apresentação estará a cargo dos professores José das Candeias Sales e Susana Mota, e contará ainda com um momento musical pelo guitarrista Filipe Neves Curral.
Em 1925, a notícia da abertura foi publicada no jornal O Commercio de Guimarães:
“Parou a vergonha, porque o era de facto.
Levou talvez tempo a reparação, o enchimento da falha, mas lucrou vantajosamente a Cidade com a demora, porque amanhã, sábado, vai ser, solenemente inaugurado, ali no Toural, na antiga Casa Magalhães, o mais distinto estabelecimento em concepção artística, em apuro inteligente de gosto, moldado em feição e em costumes à maneira egípcia, apuro meticuloso de uma observação, rigorosa, onde tudo se calha em uniformidade, desde as figuras de maior nomeada egípcia, espalhadas com largueza, traçadas em linhas correctas e em avivado tom de pinceladas firmes nos dois panos altos de parede, até os miudeiros motivos de adorno, que são como que a nota etnográfica dos nossos esgrafitos portugueses, em enfeite nas frontarias das casas velhas e solares antigos.
Ali dentro, está-se perfeitamente em ambiente Oriental.
Apetece tomar café, porque se está em confortável, luxuoso e cómodo estabelecimento, apetecendo mais ainda, para completa integração de cenário e ambiente, embriaguez sonhadora de mamadeiras de ópio, saídas de borralho abafado de potes de oiro fomegantes.
Merece bem, e sem favor louvaminheiro, porque está dentro do nosso princípio o justo encarecimento de todas as alevantadas iniciativas que surjam a dar nome à nossa terra e cumulativamente à indústria e ao comércio locais, merece bem que o nosso jornal preste hoje, em solene embandeirar de merecido louvor, uma página de honra, dedicado inteiramente aos vimaranenses de arrojado empreendimento e sacudido rasgo de iniciativa que vão abrir, num momento de precisão e de falha, um estabelecimento modelar, aberto, e ainda bem, para fazer quedar a vergonha que tantas vezes nos fez corar às primeiras perguntas de viajeiro, a quem tínhamos de dizer, num encolher de ombros, que cafés não existiam nesta cidade, de créditos manifestos pela expansão larga de todos os ramos da sua actividade de luta e de trabalho.
Assim compreendemos nós o progresso e o engrandecimento do comércio, pois que progresso e engrandecimento não devem ser só a largueza do ramo a explorar e o crescimento da burra na proporção dos grandes lucros, é também na parte que diz respeito ao florescer desse ramo a ligação de uma nota de beleza para enobrecimento e aprumo duma empresa que se preze, prezando o nome da terra.
É ver-se já as filiais dos bancos do Minho e Ultramarino.
Honram com as suas casas de transações o valor do seu poder, honrando por sua vez a terra de Guimarães.
Que fazem os que muito dinheiro auferem?
O luxo da sua casa em conforto e comodidades.
Que deve fazer o comércio?
O atractivo confortável dos seus estabelecimentos, para honra e brio próprios e orgulho duma terra.
Compreenderam bem a orientação da corrente moderna, desempoeirada e livre dos ronceirismo do mata-bicho em copos de dedal, pousados em centros chatos de muitos buraquinhos para aproveitamento das sobras não escurrupichadas, os vimaranenses de arrojo a quem prestamos hoja justa homenagem, os nossos simpáticos amigos os senhores José e Francisco Magalhães, Eugénio Leite Basto e José Fernandes da Costa Abreu, societários do novo café, moderno, sem espelhos barbeirais e sem mesas de pedra marmora, pouco decentes e pouco airosas, modelar estabelecimento que não tem parceiro, em gosto apuro e elegância, em terras de Portugal.
São, pois, pelo seu arrojado empreendimento, que define claramente uma inteligente orientação de preparo futuro, para seguir em triunfo no batalhar da concorrência, dignos da nossa mais sincera admiração, admiração manifestamente pública, aos moços que tão alto se abalançaram dotando e servindo a terra com um estabelecimento de modelar elegância e conforto.
O café Oriental, que, como atrás se diz, abre as portas ao público na tarde d’amanhã, é, nunca será de mais repeti-lo, um estabelecimento que, no género, não tem parceiro em terras portuguesas.
Podem aqueles nossos amigos, em quem concorrem magníficas qualidades de caracter e de trabalho, que os impõe à estima pública, ufanar-se d´isso!
É, pois, um grande estabelecimento, um estabelecimento que honra e engrandece a terra de Guimarães.
Tiveram a ajudá-los, e deu-lhes a alma toda, alma sacudida de vida, em volta dos predicados mais distintos de concepção artística, de beleza e bom gosto, o de votado vimaranense o senhor Capitão Pina Guimarães, que fez dum estabelecimento acanhado, atarracado, escuro, uma obra de ampla perspectiva, aproveitada em todos os recantos e corrigida inteligentemente nos mais pequenos e maiores defeitos da estrutura antiga e do arcaboiço velho do prédio.
Aquela obra é digna do seu nome. Pertence-lhe.
Caprichou e fez em beleza uma revelação do seu talento artístico, que é grande.
Honra lhe seja.
O Comércio de Guimarães, a quem muito interessa o embelezamento e o desenvolvimento d´esta querida terra, não podia, pois, deixar de prestar hoje pública homenagem ao senhor Capitão Pina Guimarães. E fá-lo gostosamente apontando-o como tendo sido a alma do modelar estabelecimento que é o Café Oriental.
Em breve abrirá também, e dentro do mesmo plano de desenvolvimento, o salão de jogos, que ficará virado à porta da vila, e um outro café com entrada pela mesma rua, para gente mais modesta e mais envergonhada.
O Café Oriental é, em Guimarães, o único representante do magnífico café de «A Brazileira».
Assim, pode o público adquiri-lo, ali, em pó.
É saboroso. Não tem rival».
Em 1967, na sua edição de 22 de julho, o Comércio de Guimarães declarava:
“Encerrou as suas portas no pretérito dia 18 do corrente mês de Julho o Café Oriental, situado no Largo do Toural.
Com as suas formosas pinturas inspiradas em motivos da civilização egípcia, este Café era motivo de interesse para as pessoas que visitavam a cidade de Guimarães.
A sua concepção e execução devem-se ao talentoso artista vimaranense Capitão Luís de Pina, tendo a colaboração de Joaquim Panchorca.
Foi com alvoroço e viva satisfação que a população vimaranense assistiu à sua inauguração, pois veio enriquecer o nosso património artístico.
Agora assiste com pesar ao seu encerramento. Em sua substituição vai surgir um estabelecimento bancário.
Às sucessivas tertúlias de intelectuais que por ali passaram com a sua verve e cintilância de espírito sucede o mercantilismo da banca. É esta a mentalidade dos tempos que passam”.
Numa outra edição, publicada nesse verão de 1967, escreve-se: “Se por graça divina nos fosse dado escutar e rever, analisar de novo as confidências, os projectos, os anseios, as camisolas amarelas de amores escondidos, tudo que as paredes e seus desenhos escutaram nestas últimas dezenas de anos, que magnífico seria, que de horas de deleite nós passaríamos de novo.
Quanto ramo ali se deu com o vinho noutro lugar, que de sonhos se sonharam vivendo despertos a julgar, que de amores se criticaram só pelo mínimo olhar, que de verdade e tristeza o Oriental acabar. Não mais se voltará a pedir ao Monteiro, no inverno, um cafezinho quentinho, nem mesmo no verão um “fresco e natural” nos será oferecido na salinha acolhedora com risco oriental, com mágua vimos partir qualquer coisa importante do nosso querido Toural. Camartelo, camartelo, o que nos vieste roubar”.
Publicado em: 19/12/2025