Há um momento particularmente perigoso na vida democrática: quando deixamos de avaliar as decisões pelos seus resultados e passamos a julgá-las
apenas em função de quem as tomou. Nesse momento, os factos deixam de orientar o debate e são substituídos pelo preconceito, pela conveniência partidária e pela lógica das claques.
Se uma iniciativa parte de quem partilha as nossas convicções, tendemos a enaltecê-la. Se nasce de um adversário político, procuramos, quase por instinto, uma razão para a desvalorizar. O critério deixa de ser o interesse coletivo e passa a ser a identidade de quem decide. É esta uma das fragilidades mais evidentes da nossa vida pública.
Uma democracia madura exige o contrário: espírito crítico, independência de pensamento e a capacidade de reconhecer mérito quando os factos o justificam, independentemente de quem exerce o poder.
O Festival MIMO, realizado no passado fim de semana em Guimarães, oferece um bom exemplo desta realidade.
Muito antes de começar, o debate já estava instalado. Não em torno da qualidade artística da programação, que naturalmente ninguém podia ainda avaliar, mas do investimento público que lhe estava associado. Era um debate legítimo. Sempre que estão em causa recursos públicos desta dimensão, o escrutínio não é apenas um direito; é um dever de cidadania.
Agora que o festival terminou, importa fazer aquilo que tantas vezes esquecemos: substituir as previsões pela avaliação dos resultados.
Seria intelectualmente desonesto formular um juízo sobre a qualidade artística da programação sem a ter acompanhado diretamente. Mas os testemunhos de quem viveu o festival, aliados ao impacto observado na cidade, apontam todos no mesmo sentido: Guimarães recebeu milhares de visitantes, dinamizou o comércio local e confirmou que continua a reunir condições para acolher eventos culturais de dimensão internacional.
Toda a decisão pública tem um responsável político. Quando essa decisão produz resultados positivos, a honestidade intelectual obriga a reconhecer o mérito de quem a assumiu. Não por simpatia partidária, mas por respeito pelos factos. Também é assim que se mede a qualidade de uma democracia.
Isso não elimina o dever de escrutinar. Pelo contrário.
Quanto maior é o investimento público, maior deve ser a exigência.
Transparência, responsabilidade, prestação de contas e avaliação rigorosa são condições indispensáveis de qualquer decisão política. O dinheiro dos contribuintes nunca pode ficar dispensado de justificação.
Mas o mesmo rigor que legitima a crítica impõe também o dever de reconhecer os acertos. Não existe verdadeira independência intelectual quando apenas sabemos apontar erros e nunca somos capazes de reconhecer decisões bem sucedidas.
Talvez por isso a pergunta decisiva nunca tenha sido apenas quanto custou o Festival MIMO. A questão essencial é outra: valeu a pena?
Se contribuiu para projetar Guimarães, atrair visitantes, dinamizar a economia local, reforçar a oferta cultural e consolidar a imagem do concelho como uma referência nacional e internacional, então essa realidade deve ser reconhecida com a mesma objetividade com que teria sido criticado um eventual fracasso.
Porque a cultura nunca é apenas despesa. É identidade coletiva. É educação.
É economia. É turismo. É criatividade. É inovação. É um investimento na capacidade de uma comunidade se reconhecer, atrair talento e construir futuro.
As cidades que hoje admiramos compreenderam isso muito antes de nós. Não investiram em cultura porque eram ricas; tornaram-se mais fortes porque perceberam que a cultura também gera riqueza, coesão social, desenvolvimento e confiança.
Mas seria um erro concluir que uma política cultural se esgota na realização de grandes eventos.
Os grandes festivais projetam uma cidade. A sua identidade cultural, porém, começa a construir-se muito antes de o primeiro palco ser montado e continua muito depois de o último ser desmontado. Vive no trabalho discreto e persistente de centenas de pessoas que, todos os dias, criam, ensinam, preservam tradições, renovam expressões artísticas e despertam novas vocações. É essa dedicação silenciosa que forma públicos, fortalece o sentimento de pertença e garante que a cultura não se esgota nos grandes acontecimentos, mas faz parte da vida quotidiana de uma comunidade.
É por isso que o debate nunca deve ser colocado entre grandes festivais e cultura de proximidade. Essa é uma falsa escolha. Uma cidade culturalmente ambiciosa precisa das duas. Precisa de iniciativas capazes de projetar o seu nome muito para além das suas fronteiras, mas precisa, com igual convicção, de continuar a investir em quem, ao longo de todo o ano, mantém viva a sua identidade cultural.
Os grandes eventos dão visibilidade. A cultura de proximidade dá identidade.
Guimarães precisa das duas.
Talvez o maior legado do Festival MIMO nem resida apenas na qualidade da programação ou no impacto económico que possa ter gerado. Talvez o seu maior mérito seja recordar-nos que a cultura não deve ser discutida apenas em função do seu custo, mas sobretudo do valor que acrescenta a uma comunidade.
No fim, desmontam-se os palcos. Apagam-se as luzes. As multidões regressam a casa.
O que permanece não são os cartazes, nem as fotografias, nem os números da organização. O que permanece é a identidade que uma comunidade fortalece, o orgulho que desperta e a visão que constrói para o futuro.
É aí que começa a verdadeira política cultural.
É por isso que o MIMO foi, afinal, muito mais do que um festival.
Sérgio Castro Rocha
Publicado em: 06/07/2026