Chegou a Guimarães em Fevereiro com a missão de dirigir três monumentos nacionais emblemáticos da Cidade: o Paço dos Duques de Bragança, o Castelo de Guimarães e a igreja de São Miguel do Castelo. Milton Pacheco é historiador, especializado em história de arte, e abraçou o desafio imbuído pela vontade de saber mais, de aprofundar o conhecimento existente sobre o conjunto edificado indissociável do Monte Latito, onde se destaca o palácio edificado por D. Afonso, filho bastardo do rei D. João I e de D. Inês Pires Esteves, 1.º Duque da Casa de Bragança.
Em entrevista ao programa «Largo do Toural», da Rádio Santiago, https://www.guimaraesdigital.pt/index.php/informacao/radio-santiago/94819-programa-lrgo-do-toural-entrevista-a-milton-pacheco-e-eduardo-magalhaes-sobre-os-novos-projectos-para-o-paco-dos-duques-de-braganca-e-castelo-de-guimaraes, Milton Pacheco enalteceu a capacidade da equipa com quem trabalha, por ser capaz de responder com um atendimento de qualidade à elevada afluência de visitantes do Paço dos Duques de Bragança nesta época do ano, conciliando essa função “com as obras que estão a decorrer ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR)”. “Quando iniciei funções em Fevereiro, as obras já tinham começado. A equipa tem a tarefa hercúlea de assegurar a realização desta campanha sem encerrar na totalidade o Paço, fazendo uma gestão interna muito cautelosa para isolar algumas áreas durante as intervenções para que os visitantes possam usufruir da experiência e percorrerem os espaços normalmente”, assinalou, ao explicar que as obras abrangem a renovação da cablagem eléctrica do edifício, a colocação de sistemas de videovigilância, de redes de wi-fi e uma componente mais arquitectónica que visa a colocação de um piso radiante para aquecimento nos períodos mais frios do ano, bem como a colocação de sinalética nos espaços de circulação.
“Não é uma intervenção arquitectónica de fundo, mas um complemento para melhorar o conforto e a circulação dos visitantes e as condições de trabalho da equipa que garante o funcionamento deste edifício”, continuou, ao dar conta do estímulo académico que constitui a compreensão de um edifício senhorial construído na primeira metade do século XV.
“Como é que se habitava num edifício como este? Certamente, havia preocupações com o conforto e comodidade, das quais não temos a totalidade do conhecimento. A colocação das tapeçarias nas paredes nos períodos mais frios e substituição pelos guadamecis nos períodos mais quentes, justifica-se precisamente para se ir alternando e controlando as temperaturas interiores”, observou, elogiando o esforço e a “intuição” do arquitecto Rogério de Azevedo, “que dirigiu a primeira campanha de obras” no século XX, numa ampla e complexa intervenção de reconstrução que demorou cerca de duas décadas, durante o período do Estado Novo. “Foi um estudioso que, com a ausência de muitas fontes documentais que foram surgindo nos últimos anos, teve uma intuição incrível com a qual orientou a recuperação do edifício. Todas as intervenções foram muito cautelosas, tentando manter os vestígios existentes, o que se nota por exemplo nas padieiras das portas”, salientou, assumindo que o que o levou a candidatar-se ao concurso público aberto pela Museus e Monumentos de Portugal para o cargo de Director foi “a história do Paço dos Duques”, complementada com a simbologia e o peso histórico e simbólico que tem o castelo de Guimarães”. “A minha área de especialidade é a arquitectura palaciana, este era um desafio incrível, surgiu no momento oportuno. Avancei sem qualquer receio de deixar Coimbra ao fim de 25 anos. Nem pensei duas vezes”, afirmou, ao sublinhar que tem “a tarefa simplificada graças à acção dos anteriores directores e da equipa com quem trabalha”. “Entrei em Fevereiro e fui extremamente bem acolhido e integrado pela Cidade e pela equipa. Nem tenho palavras para descrever. Guimarães é uma cidade que aposta na cultura, uma cidade de cultura. A minha integração foi fácil”, apontou, reconhecendo que a intensidade do fluxo de visitantes nos monumentos “é uma prova do trabalho que está a ser feito há décadas”.
“Se a máquina está a funcionar bem, não há motivos para fazer grandes mudanças”, vincou, firme, ao declarar: “quero descobrir mais”. “Temos uma série de projectos na área da promoção e da arquitectura palatina que vamos querer implementar no contexto nacional, mas também com outros países, nomeadamente na tentativa de identificar os percursos de D. Afonso, 1º Duque de Bragança, para tentar perceber a ligação com Espanha, França, Inglaterra, Escócia, Itália e o norte de África, procurando perceber que monumentos o inspiraram, que ideias terá trazido para o palácio que veio a edificar em Guimarães. Estamos na Cidade Berço da Nação e não podemos esquecer que o Paço dos Duques é o berço da casa de Bragança. É a última dinastia, a que vai fechar a monarquia em 1910”, insistiu, ao considerar a importância de cruzar o conhecimento com a investigação produzida em outras geografias para melhor compreender as opções arquitetónicas e decorativas do palácio ducal.
“Para conhecermos o edifício, temos de compreender todos os elementos que o influenciaram dentro e fora de fronteiras. O arquitecto Rogério de Azevedo fez essa primeira recolha de informação, com campanhas pela Europa, nomeadamente em França, para tentar perceber quais os monumentos que poderiam ter influenciado a construção do Paço em Guimarães. Outro investigador, José Custódio Vieira da Silva, encontrou um modelo muito próximo, no palácio dos Reis de Maiorca, em Perpignan, onde havia dois ou três elementos arquitectónicos que se o D. Afonso não conheceu… Resultam do gosto da época”, indicou.
Há novas abordagens que Milton Pacheco pretende explorar, alicerçado nas abordagens da sua área de investigação – a arquitectura palatina em Portugal, nomeadamente dos palácios da Inquisição. Por isso, aponta também para uma possível ligação entre o palácio de Guimarães e o Palácio dos Estaus, construído no século XV em Lisboa, no local onde hoje se encontra o Teatro D. Maria II. “Numa gravura do século XVI, há uma tipologia muito próxima deste palácio, quer nos torreões, num conjunto de chaminés. Por isso, quando se diz que o Paço dos Duques de Bragança é um palácio reinventado e feito com base nos elementos estrangeiros, importa considerar que existia este tipo de construções em Portugal. Se considerarmos 1420/1422 como a data apontada para a construção do Paço em Guimarães, o Palácio de Estaus foi mandado construir cerca de vinte anos depois. Há a tipologia, o gosto e o saber construtivo muito próximo um do outro”, destacou, ao frisar que o palácio resulta “da preferência estética de D. Afonso e do gosto da época da primeira metade do século XV e que vai continuar ao longo do século”.
Orgulhoso pela forma como “o povo de Guimarães defendeu a integridade do palácio”, impedindo ao longo dos séculos o seu desmantelamento para a construção de outros edifícios da Cidade até que, já no século XX, a sua importância histórica, cultural e patrimonial culminou com a criação do Museu e da residência oficial da Presidência da República, Milton Pacheco espera que as obras em curso fiquem concluídas até ao final do ano ou início de 2026 para que o seu programa de acção, com projectos académicos, científicos, educativos e de envolvimento da comunidade possam ser implementado. “As obras são muito absorventes pelas exigências na gestão do tempo e do espaço, para evitar que os visitantes sejam incomodados”, justificou, salvaguardando que a igreja de São Miguel do Castelo poderá ser sujeita a uma “repavimentação do piso” para permitir um outro uso do espaço. “Há um conjunto de lápides importantes do ponto de vista histórico e artístico que terão de ser acauteladas, com a necessidade de preservar a pedra, pela simbologia da mitografia associada ao baptismo do Primeiro Rei”, explicou, fazendo questão de realçar: “temos três filhos na Colina Sagrada e todos têm de ser tratados por igual; o Paço dos Duques de Bragança com as suas colecções e um elevado número de visitantes, o Castelo pela simbologia histórica e igualmente pelo número de visitantes e a igreja de São Miguel do Castelo, um espaço que também é muito procurado”.
Quando as obras estiverem concluídas, Milton Pacheco prevê a possibilidade de alargar a abrangência das actividades, envolvendo os monumentos e todo o parque, contando com a parceria do Município e outras entidades locais, assim como o apoio da Associação dos Amigos do Paço dos Duques de Bragança. O seu presidente, Eduardo Magalhães, também participou na entrevista, assumindo a continuidade da colaboração profícua estabelecida desde a fundação da Instituição.
*Texto do artigo publicado na edição do jornal O Comércio de Guimarães, de 3 de setembro de 2025.
Publicado em: 08/09/2025