O Presidente da Câmara de Guimarães vai propor a atribuição da Medalha de Mérito, grau Ouro, a título póstumo, a Eduardo Ribeiro, honrando assim a memória do resistente à ditadura na sessão solene das comemorações do 24 de Junho – Dia Um de Portugal.
A proposta será apreciada e votada na reunião do executivo vimaranense marcada para a próxima segunda-feira. A revelação foi feita por Ricardo Araújo durante a apresentação da Comissão de Honra do Centenário do nascimento do vimaranense, realizada ontem no salão nobre do Município, durante a qual assumiu o compromisso de “garantir que a memória de Eduardo Ribeiro seja tratada como património vimaranense”.
“Eduardo Ribeiro lutou para que o poder deixasse de estar distante das pessoas, lutou para que o Município pudesse ser a casa democrática da nossa comunidade, lutou para que pudéssemos estar aqui livremente a concordar e a discordar, a construir, a lembrar, a decidir”, disse, ao colocar a “instituição municipal ao serviço da valorização da memória de quem ajudou a tornar possível a democracia e o poder local”.
“Todos aqui percebem que Eduardo Ribeiro é daquelas pessoas que ficam, que permanecem sempre na nossa vida, a partir do momento em que as conhecemos e temos o privilégio de com elas conviver. Pessoas como Eduardo Ribeiro ou como Joaquim Santos Simões”, assinalou, considerando-os exemplos de “que a liberdade é um bem maior”.
“Eduardo Ribeiro pertence àquele conjunto de pessoas que nos mostraram pelo exemplo que a política só tem dignidade quando nasce de uma responsabilidade perante os outros. Ou seja, na voz dele, a democracia e a liberdade nunca apareciam separadas da vida concreta, das pessoas”, considerou, reconhecendo o trabalho de César Machado, autor do livro “Daqui Houve Resistência”. “É uma expressão muito feliz, porque é bom que todos entendam que a democracia e a liberdade também se construíram em Guimarães. Longe, tantas vezes, dos grandes centros de decisão, mas perto das pessoas, perto da comunidade, perto da vida real”, apontou, acrescentando: “Eduardo Ribeiro pertence à memória democrática do país, mas pertence orgulhosamente à memória democrática de Guimarães. Pertence à Cidade, pertence às freguesias, pertence às escolas que devem conhecer a sua história, pertence aos jovens que devem saber que a liberdade teve autores, teve rostos, teve riscos e teve consequências”.
Insistindo na responsabilidade do Município “valorizar aqueles que são os nossos melhores”, Ricardo Araújo salientou que “eternizar o nome de Eduardo Ribeiro é, acima de tudo, uma responsabilidade com a história e com os valores e os princípios que ele defendeu e que nos permitiram chegar até aqui”, numa lição que, no seu entender, deve ser explicada aos mais novos: “a liberdade não caiu do céu como manhã limpa. Foi feita de medo vencido e de coragem, de gente que podia ter escolhido a comodidade, mas sempre escolheu a exigência e a consciência, mesmo perante a perseguição e a tortura”.
Para além da condecoração municipal, o Presidente da Câmara manifestou o desejo de que o nome de Eduardo Ribeiro possa constar na toponímia de Guimarães.
Construtor de edifícios distintos
e defensor da democracia
Em representação da família, Inês Ribeiro lembrou um episódio da vida do avô que reúne “os vários interesses aos quais se dedicou ao longo da sua vida”. “Enquanto preso em Caxias, em 1968, como consequência da sua luta antifascista, pediu uma folha e usou a lapiseira que de alguma forma lhe deixaram no bolso para desenhar o projecto que tinha na cabeça de uma casa para o Dr. Santos Simões, entretanto construída e demolida. Contou-a assim: ‘Fiquei no isolamento, o que é dramático. Mas ainda me deu para fazer lá um projecto. Tinha uma lapiseira que ficou esquecida num bolso, pedi papel e ainda fiz o projecto para o Santos Simões para a casa que ele mandou construir na Apúlia. Eu conhecia o terreno, fiz o projecto à escala e com cotas. Pus lá a indicação a lápis “Residência de Santos Simões”.
O percurso profissional de Eduardo Ribeiro esteve ligado à empresa de construção da família – a CARI, tendo concluído a Mestrança de Construtor Civil em 1965, na Escola Carlos Amarante de Braga, já com 39 anos. Começou a primária apenas com 9 anos e o percurso estudantil foi interrompido para que o irmão António o pudesse continuar. Formou-se como Técnico de Engenharia Civil no ISEP em 1982 e completou, em 2001, o seu percurso académico com a licenciatura em Engenharia Civil.
“Construiu de raíz o edifício da Assembleia de Guimarães, o Bloco residencial Belo Horizonte”, observou, indicando que a empresa fez as obras de reabilitação de edifícios icónicos da cidade de Guimarães, dos quais são exemplo: a fase final da Sociedade Martins Sarmento, continuação do projecto inicial do Arquitecto José Marques da Silva, a Pousada da Oliveira, o Mosteiro de Santa Marinha da Costa, que transformaria de ruína em pousada nos anos 80. Estes dois últimos são projectos do Arq.º Fernando Távora – de quem se tornou próximo”, referiu.
Quanto à intervenção política, prosseguiu, “ainda solteiro, despertou para a luta antifascista com o comício do General Norton de Matos no Teatro Jordão, em 1949. Em 1958, é um dos elementos da comissão concelhia de apoio à candidatura do General Humberto Delgado. É este momento que virá a afirmá-lo, definitivamente, como um dos mais activos resistentes antifascistas da nossa região. A sua infância, em Gondar, aproximou-o da pobreza e falta de literacia a que estava sujeito o país não-urbano, onde lia jornais a operários que, sendo analfabetos, lhe pediam. Escreve no seu livro de memórias: ‘A censura gerava um efeito castrador da mentalidade e da cultura, o que é atestado pelo actual baixo índice cultural dos portugueses, causador de muitas infelicidades e incertezas’.
Após o 25 de Abril, Eduardo Ribeiro teve participação activa no MDP/CDE, de que foi dirigente. A par disso, teve intensa vida cívica em várias associações de Guimarães, de que foi dirigente, tendo sido sócio-fundador do Cineclube de Guimarães e da Livraria Raúl Brandão, fundador d’ “A Muralha – Associação para a Defesa do Património” e Cooperativa Editorial “O Povo de Guimarães” – onde também escreveu. Foi ainda Presidente do Rotary Clube de Guimarães entre 1971 e 72. “Nunca parou de “acrescentar” à comunidade em que viveu”, realçou a neta.
Presidida pelo Presidente da Câmara Ricardo Araújo, a Comissão de Honra das Comemorações do Centenário de Eduardo Ribeiro integra o Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães, Rui Armindo Freitas, a vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Guimarães Isabel Ferreira, António Casimiro Ribeiro, Inês Abreu Ribeiro, Isabel Santos Simões, o Presidente da Sociedade Martins sarmento, Antero Ferreira, António Amaro das Neves, César Machado, Torcato Ribeiro, Carlos Mesquita, Vitor Louro, José Manuel Mendes e Henrique Barreto Nunes.
Programação com cine-concerto,
exposição, mesas-redondas e livro
Depois da tomada de posse da comissão de honra, o programa comemorativo do centenário de Eduardo Ribeiro continua sexta-feira, 19 de junho, – dia do centenário do nascimento de Eduardo Ribeiro, com o cine-concerto “Daqui Houve Resistência”, às 21h30, no Largo Condessa do Juncal, com a participação de Manuel de Oliveira, Sandra Martins e Mário Gonçalves, constituindo uma homenagem aos resistentes e um alerta contra o esquecimento. Nesse dia será lançada uma gravura de autoria da sua neta Inês Ribeiro.
As comemorações envolvem ainda outras iniciativas, a realizar entre 12 de dezembro deste ano, na evocação das primeiras eleições autárquicas após o 25 de Abril de 1974, e 31 de janeiro de 2027, assinalando a revolta republicana do Porto, data aproveitada pela oposição democrática para marcar a resistência ao regime, em que participou Eduardo Ribeiro.
Nesse período ocorrerá uma exposição que abordará a vida política, o artista (pintura, sobretudo), o projectista de construção civil, o associativista e o cidadão Eduardo Ribeiro, serão realizadas duas “mesas redondas” sobre temas cruzados com os da exposição e será lançado um livro. Brevemente será criada uma página electrónica dedicada ao Centenário do Centenário de Eduardo Ribeiro onde serão publicadas as iniciativas a realizar para a divulgação da sua vida e obra.
Publicado em: 17/06/2026