É um encanto de senhora, dotada de um talento natural para a conversa animada com uma ou outra brincadeira, capaz de despertar sorrisos pela perspicácia das suas observações.
Nasceu há cem anos na freguesia de Estorãos, em Fafe, mas construiu a sua vida em Guimarães, onde casou e residiu durante muitos anos na Rua da Liberdade.
Deolinda Novais completa esta quinta-feira o centenário, uma data memorável e especial celebrada numa festa partilhada com familiares, os utentes e funcionários do Centro de Solidariedade Humana Prof. Emídio Guerreiro, instituição gerida pela Santa Casa da Misericórdia de Guimarães.
“Sou muito feliz!”, afirma, ao realçar que goza de boa saúde, apesar de ter alguma dificuldade de mobilidade que a leva a caminhar amparada. “Graças a Deus, estou num sítio onde gostam muito de mim, onde sou bem tratada e não me falta nada”, observa a centenária, ao mostrar as unhas irrepreensivelmente pintadas de cor-de-rosa, numa tonalidade a combinar com o casaco novo. “Sempre gostei de arranjar-me e de ser briosa. Quando era nova, quando trabalhava como encarregada na antiga fábrica de confecção Confil e agora… Já tenho esta idade, mas gosto de me apresentar e agradeço às funcionárias que cuidam de mim”, salienta, ao sublinhar que por sua iniciativa ingressou naquela instituição em 1999.
“Vim para aqui com o meu marido. Fui eu que tratei de tudo, quando soube que não podia zelar pela vida de casa. Diagnosticaram-me um problema nas costas, tive de ser operada e encontrei esta solução. Se não estivesse aqui já tinha morrido. Não gosto de mentiras e digo-lhe de coração cheio: sou muito feliz aqui!”, continua, ao lamentar a morte do marido, “companheiro de uma vida, num romance lindo, repleto de aventuras”.
Com o marido, viveu durante algum tempo em Angola, mas teve de regressar “como tanta gente que lá estava” antes do 25 de Abril de 1974. Nunca teve filhos, mas essa circunstância nunca lhe roubou a alegria, o entusiasmo pela dádiva da vida, sempre com uma atitude positiva perante a adversidade.
A resposta à pergunta: ‘quantos anos celebra hoje?’ é elucidativa da sua energia, um exemplo inspirador. “Faço cem… sem volta”, diz a sorrir, repetindo: “cem… sem volta!”, numa observação que soa como uma lição de vida para quem a ouve. “Nada de andar de beiça caída, dizer uma tolice sem ofender ninguém, sabe sempre bem para chegar aos cem”, aconselha, recordando com saudade o tempo em que trabalhava e todos os dias tinha a responsabilidade de orientar o trabalho, abrir e fechar a fábrica Confil “do sr. Sidónio”.
“Foram bons tempos, de uma grande camaradagem entre as pessoas que lá trabalhavam e com toda a vizinhança da Rua da Liberdade”, recorda.
Com o sentido de humor apurado, Deolinda Novais faz questão de partilhar o segredo da longevidade: “Não trabalhar muito, porque senão gastam-se as energias muito cedo. Dormir bastante! Comer o essencial… com alguns, poucos, abusos! E andar muito. O melhor da vida é caminhar!”
Em dia de centenário, a aniversariante agradece o dom da amizade. “A minha festa começou ontem, num almoço com a D. Custódia e a professora de música Helena. Estou tão feliz, tão feliz! Todos os anos, aquela professora faz essa surpresa. Passei lá um dia em cheio, comi um arroz de cabidela que estava delicioso. Não pode ser sempre, mas assim uma ‘lamba’ de vez em quando é abençoada!”
É esse o presente que espera receber “enquanto Deus quiser” que ande neste mundo. “Gosto de viver. De cantar, de rezar e de conviver. O meu marido está lá no alto à minha espera. Era um homem bonito e muito meu amigo. Tinha 26 anos quando casei com o Fernando Mendes, não é o da televisão”, indica, sorrindo e fazendo sorrir, com um ânimo jovial contagiante. A título de conselho, conclui: “A mocidade tem de ser muito bem apreciada”.
Publicado em: 31/07/2025