A Citânia de Briteiros será o local privilegiado no concelho de Guimarães, esta quarta-feira, para a observação do maior eclipse solar visível em Portugal no último século.
Mais de uma centena de pessoas vão assistir ao fenómeno, numa iniciativa organizada pela Sociedade Martins Sarmento sujeita a inscrição prévia. A lotação esgotou em poucos dias, estando garantida a disponibilização de óculos certificados a todos os participantes.
A observação do eclipse solar começará às 18h00 com uma visita guiada por António Ribeiro, seguindo-se uma conversa orientada pelas arqueólogas Paula Ramalho e Sofia Silva sobre o impacto deste fenómeno astronómico que, ao longo dos tempos, sempre impressionou a Humanidade.
Em declarações ao Grupo Santiago, o Presidente da centenária instituição cultural vimaranense que gere aquele sítio arqueológico revela que a observação será livre, complementada com uma visita guiada ao sítio arqueológico.
Antero Ferreira justificou que “a interpretação dos eclipses pelas sociedades humanas, desde tempos imemoriais, tendeu a articular o temor reverencial em relação ao desconhecido com estruturas de mundividência espiritual”.
“Com esta iniciativa, o nosso foco é guiar as pessoas, organizar uma visita guiada à Citânia de Briteiros e depois ter um momento de observação do eclipse, acompanhado por arqueólogos que vão explicar a ligação entre estes fenómenos astronómicos e a evolução da humanidade. Não é propriamente uma observação conduzida por astrónomos. É uma observação livre. Nós fornecemos óculos a todas as pessoas inscritas, num ambiente propício à conversa sobre o impacto que este tipo de fenómeno sempre teve na humanidade”, salientou o responsável, ao frisar que o número de inscrições surpreendeu a organização, não permitindo aceitar a participação de mais pessoas devido à lotação do espaço.
“As sociedades do passado interpretavam o obscurecimento repentino do Sol ou da Lua como um indicador de descontentamento ou ira divina”
“Sem o enquadramento da ciência moderna, as sociedades do passado interpretavam o obscurecimento repentino do Sol ou da Lua como um indicador de descontentamento ou ira divina, narrativas de teor zoomórfico ou, até, um sinal cósmico precursor de desastres naturais e de mutações no poder político”, refere o folheto informativo.
“A transição para explicações científicas dos eclipses não ocorreu de forma abrupta, resultando antes de um processo historicamente lento e gradual: no século VIII a.C., os babilónios descobriram o Ciclo de Saros, provando matematicamente a regularidade do fenómeno, o que culminou na famosa previsão de Tales de Mileto em 585 a.C. Entretanto, pensadores da Grécia Antiga usaram a geometria para provar que a Lua bloqueia fisicamente o Sol, enquanto astrónomos islâmicos medievais aplicaram as leis da ótica e a câmara escura para demonstrar como as sombras dos astros se projetam no espaço. Já no século XX, o fenómeno passou a servir de teste à física moderna em 1919, ano em que as observações do eclipse solar na Ilha do Príncipe e em Sobral (Brasil) mediram o desvio da luz das estrelas, confirmando a Teoria da Relatividade Geral de Einstein”, prossegue.
“Para as comunidades proto-históricas que habitaram a Citânia de Briteiros, o céu constituía uma referência fundamental para compreender e organizar o mundo. A observação regular do sol, da lua e das estrelas permitia acompanhar a passagem do tempo, reconhecer as mudanças das estações e orientar as atividades essenciais, como a agricultura e o pastoreio. As evidências arqueológicas e os estudos de arqueoastronomia têm vindo a demonstrar a importância que os fenómenos celestes assumiam nas sociedades antigas, não só como instrumentos de orientação no tempo e no espaço, mas também como elementos carregados de significados cultural e simbólico”, acrescenta o documento, ao sublinhar que “o eclipse solar oferece uma oportunidade única para imaginar o impacto que um acontecimento desta natureza poderia ter causado nos habitantes deste povoado há mais de dois mil anos”.
Publicado em: 12/08/2026