Há escritores que inventam lugares. João Zamith prefere escutar os que já existem. Guimarães, cidade onde cresceu e que conhece de perto, voltou a ser o território escolhido para a sua nova história, «Que o Inferno Pareça Aqui», um livro que cruza folk horror, policial e thriller e que chega pouco mais de um ano depois de «Coisas Ruins». Se o primeiro romance já tinha colocado a cidade no centro da narrativa, agora Guimarães assume quase o estatuto de personagem.
Não se trata, contudo, de uma continuação. Os dois livros vivem no mesmo universo ficcional e há personagens e referências que fazem pequenas pontes entre ambos, mas a história e os protagonistas são diferentes. Quem não leu a obra «Coisas Ruins» pode entrar directamente neste novo livro.
Em «Que o Inferno Pareça Aqui», a escolha das Festas Nicolinas não foi apenas uma questão de cenário. João encontrou nelas o contraponto perfeito para uma das ideias que atravessam o romance: a forma como as nossas vidas estão progressivamente a migrar para o digital. Num tempo em que cada pessoa pode construir diferentes identidades e consumir uma realidade própria através do telemóvel, as Nicolinas representam precisamente o contrário, uma tradição física, colectiva e intergeracional, vivida de forma semelhante por diferentes gerações.
É também por isso que o livro percorre as ruas de Guimarães. O cortejo do Pinheiro, as Maçãzinhas, as Roubalheiras e o Pregão, que são passadas nas principais artérias e espaços da Cidade-Berço, nomeadamente, Praça S. Tiago, Largo do Toural e outros locais que entram na narrativa, fazendo com que, desta vez, Guimarães esteja ainda mais presente do que no livro anterior. “Não são apenas referências geográficas: ajudam a construir o ambiente em que as personagens se movimentam”, revelou.
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Publicado em: 07/10/2026