O treinador Ivo Roque faz o balanço da experiência de quatro temporadas na equipa feminina do Vitória. Na entrevista ao Grupo Santiago, o treinador vimaranense recorda o trajecto até à Liga BPI.
O que fica do ciclo de quatro anos no Vitória?: “Ficam quatro épocas muito boas, ficam mais de 100 jogos, ficam muitas coisas boas, algumas menos boas, mas todas elas com muita importância. Ficam dois apuramentos para a fase de subida na 2ª Divisão, fica um título de campeão nacional da 2ª Divisão e uma subida à Liga BPI. Fica ainda um 6º lugar na Liga BPI e umas meias-finais da Taça de Portugal. É um trajeto que muito me orgulha e que deve ser valorizado ao máximo.”
Por tudo isso, acaba por ser surpreendente a não continuidade no comando técnico do Vitória? Também o surpreendeu a decisão?: “Não vou considerar que seja uma surpresa, porque quem anda no futebol há muito tempo tem que perceber como é que as coisas vão funcionando e acho que tudo tem o seu momento. Quem lidera o Vitória atualmente entendeu que o contrato não seria para renovar, só tenho que respeitar e aceitar e desejar a melhor sorte para o futuro do feminino do Vitória.”
Mas, acreditava que depois do trabalho que foi feito nos últimos quatro poderia haver alguma continuidade?: “Dependia muito daquilo que seriam os objectivos do clube em relação àquilo que quer fazer com a equipa feminina. Acho que havia algumas coisas que deveriam mudar para melhor e para podermos ser mais competitivos, além de termos uma capacidade diferente na Liga BPI. Mas, se calhar, é mais importante sair, neste momento, pela porta grande, como se costuma dizer, com o trabalho feito e com a responsabilidade e o sentimento de dever cumprido e pensar noutros objectivos.”
Que caminho é este que foi feito durante quatro anos na liderança da equipa feminina do Vitória?: “Foi um caminho de conquista diária por parte da coordenação e das equipas técnicas. Diariamente conquistamos o espaço, respeitando muito aquilo que é o espaço da equipa masculina do Vitória. Mas, pouco a pouco, e com resultados, que era fundamental que assim fosse, fomos conquistando o nosso espaço, fomos ganhando melhores condições, o que é mérito de toda a coordenação do futebol feminino. Deixamos o Vitória a ser respeitado por todos os clubes em Portugal. Na Liga BPI já todos olham para nós de outra forma que não olhavam há quatro épocas atrás. Acho que deixamos o Vitória num patamar bom daquilo que é o futebol feminino português. E acho que isso foi conquistado com os pés bem assentos no chão e com a capacidade de fazer melhor todos os anos, de maneira a podermos atingir o nível que atingimos, que eu considero que é um nível bom.”
Entende que foi um dos obreiros dessa afirmação do Vitória a nível nacional?: “Entendo que sim, acho que quem lidera as equipas e quem põe a equipa em campo tem de se sentir parte muito integrante e muito forte daquilo que foram algumas decisões que o clube teve de tomar, principalmente na construção dos plantéis. E acho que aí tivemos sempre a capacidade de, com pouco, fazer muito e conseguirmos atingir os resultados que tivemos.”
Há quatro anos, quando iniciou este percurso, acreditava que a Vitória atingiria este patamar?: “Quando fui convidado, na altura pelo André Pereira, que tinha responsabilidades na Academia, aquilo que me foi pedido por ele, basicamente, foi tentar tornar a equipa feminina da Vitória o mais profissional possível e o mais competitiva possível no panorama nacional. Definimos e traçámos um objectivo, que era subir a equipa à Liga BPI no espaço de três épocas. Foi aquilo que nós conseguimos fazer, atingimos esse objectivo, conseguimos cimentar a nossa posição. O clube conseguiu dar condições às atletas e uma exigência alta para que seja possível ser competitivo. Aquilo que nós fizemos com o plantel que conseguimos construir, com muito critério, com uma ideia de jogo – muitas vezes não tão agradável para algumas pessoas -, conduziu-nos ao alcançar dos objectivos do Vitória, que era a permanência na Liga BPI. Eu considero que hoje estamos nos primeiros seis, acho que é muito bom para o Vitória. Para tentar intrometer-se acima desta classificação e ser uma das referências a nível nacional, acho que temos que dar um passo ainda ligeiramente grande.”
E acredita que esse é um desafio que pode ser concretizado em breve prazo, que o clube tem estrutura para isso?: “Não sei, não consigo saber qual é o investimento que o Vitória entende para aquilo que é o futebol feminino. Acho que se mantivermos aquilo que foi feito até agora e com um bocadinho de critério, com vontade e com qualidade das atletas e das equipas técnicas, acho que é possível conseguirmos bons resultados. É isso que eu espero.”
Publicado em: 02/07/2026