“Guimarães precisa de um espaço museológico dedicado à indústria” defendeu Maria João Vasconcelos, ex-directora do Museu de Alberto Sampaio, ao recordar os contornos da tentativa de salvaguarda da Zona de Couros, com uma proposta de classificação de património industrial que gerou polémica no final da década de setenta do século XX.
Durante a conversa “Património e Educação: o papel dos museus na relação com a comunidade”, realizada no passado sábado nas instalações da antiga Fábrica de Curtumes Âncora, actual Curtir Ciência, no âmbito do programa do 3º aniversário da inscrição da Zona de Couros na lista de Património Mundial da UNESCO, Maria João Vasconcelos recordou que iniciou funções na direção do Museu em novembro de 1975, três dias após o assalto que ocorreu a 16 de novembro desse ano, em que foram roubadas várias peças de ouro do tesouro da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira.
Revelando que o seu contacto com a área das antigas manufacturas de curtumes surgiu quando se discutia o Plano de Urbanização da Cidade e se projectava a demolição daqueles edifícios desactivados, a oradora apontou o contraste “entre a aparente ‘miséria’ existente naquele lugar com a nobreza da Cidade Berço de Portugal e o “orgulho” da monumentalidade da Colina Sagrada e todos os outros testemunhos históricos de um passado glorioso”.
Com Edmundo Marques de Campos na presidência da Câmara Municipal de Guimarães, após ter sido eleito nas eleições autárquicas de 12 de dezembro de 1976, surgiu, em abril do ano seguinte, a primeira proposta de classificação de um bem como património industrial em Portugal.
Maria João Vasconcelos lembrou que “as questões do ambiente não eram compreendidas de forma generalizada e o entendimento do valor patrimonial dos recursos naturais, fazendo-os equivaler ao património cultural”, revelando que o Museu de Alberto Sampaio ensaiou uma acção de sensibilização da comunidade para a importância de uma visão mais global dos valores patrimoniais, envolvendo as pessoas de Guimarães neste processo”.
Face “ao projecto de saneamento previsto para resolver a situação insalubre da zona das fábricas de curtumes, tapando o rio de Couros”, contextualizou, “iniciou-se o trabalho de preparação de uma proposta que permitisse salvar os edifícios e encontrar uma forma de salvaguardar o rio a céu aberto e conseguir a revisão das soluções previstas no plano de urbanização”.
Recuando no tempo, observou, “não era fácil para muita gente aceitar que fosse atribuído o mesmo tipo de protecção patrimonial a um conjunto de edifícios fabris numa zona insalubre e mal cheirosa semelhante aos monumentos históricos da Cidade”.
Apesar da controvérsia gerada, o Município de Guimarães adquiriu em 1978 a Fábrica de Curtumes Âncora, com o intuito de poder acolher um núcleo do projectado Museu da Indústria. O projecto não chegou a concretizar-se, mas Maria João Vasconcelos insistiu na importância da criação de um espaço museológico dedicado à compreensão das dinâmicas do território que sofreu profundas alterações no processo de industrialização. “Como se ergueram as fábricas em terrenos agrícolas? Como foi a transição do trabalho artesanal para a era industrial e os impactos na comunidade?” desafiou, ao sustentar que “os museus têm a obrigação de perceberem a realidade onde estão inseridos”.
Na mesma sessão, a actual Diretora do Museu de Alberto Sampaio afirmou que “o maior norte que pode ter o director de um Museu é sonhar”. “Trabalhar na área do património e da cultura é sonhar”, referiu Maria de Lurdes Rufino, lamentando verificar “uma certa apatia relativamente às questões culturais”. “O envolvimento, a discussão e o pensamento critico que alimenta a discussão é a maior riqueza que a sociedade pode ter. Daí ser tão importante o sonho e pessoas inconformadas com o estado das coisas”, assinalou, acrescentando: “é uma perda enorme para a Cidade este sítio não ser verdadeiramente interpretado e há mil e uma maneiras de o fazer”.
Autora de um trabalho académico pioneiro na área da educação patrimonial, Helena Pinto deu a conhecer a motivação que a tem conduzido no percurso multifacetado, colocando em diálogo a actividade escolar com a acção dos serviços educativos.
Licenciada em História, a investigadora e docente no Agrupamento de Escolas do Vale de São Torcato recordou que, na frequência do Mestrado em Património e Turismo, da Universidade do Minho, teve como docente a ex-directora do Museu Alberto Sampaio Isabel Fernandes. “Cruzaram-se os caminhos, cruzaram-se as histórias. Esta ligação ao Museu culminou com a colaboração com o serviço educativo, explorando a toponímia e aprendizagens relacionadas com o património”, sublinhou, ao explicar como o projecto que começou por envolver alunos permitiu alargar “o sonho” aos professores.
No doutoramento em Ciências da Educação, na Universidade do Minho, prosseguiu os estudos em educação patrimonial, com um projecto que abrangeu sete escolas do Município de Guimarães. “Os professores aceitaram sair à rua e relacionar o curriculum com o espaço local, num desafio centrado no espaço urbano”, frisou, revelando que os resultados foram surpreendentes: “as crianças, do 7º ano, mais questionadoras, problematizam mais certas situações, nomeadamente na Zona de Couros, do que os mais velhos, do secundário, que já têm no seu horizonte académico a realização de exames nacionais em que a busca da informação certa é a preocupação principal, em que se nota o medo de errar”. Esta constatação levou-a a lançar uma interrogação: não estará o espírito crítico a sofrer uma regressão?”
Na relação com os serviços educativos dos museus, Helena Pinto insistiu que “o professor tem de ir ao Museu, de conhecer o espaço que vai visitar, assim como o espaço urbano”, tornando-se esta prática ainda mais importante num momento em que a escola recebe alunos oriundos de outras geografias.
No Agrupamento de Escolas do Vale de São Torcato, no terceiro ciclo a disciplina de oferta complementar “Cultura e Comunidades” relaciona as aprendizagens com a história local, resultando dessa aliança uma forte ligação com manifestações culturais daquela vila.
Na qualidade de docente no Mestrado em Ensino de História, na Universidade de Coimbra, Helena Pinto valoriza “a educação patrimonial e o (g)local no ensino de história”. “É a ideia do (g)local relacionado com os conteúdos, para permitir que a identidade não seja alicerçada em bairrismos exacerbados. O turismo, as migrações e as mentalidades têm de ser inclusivas e essa é a ideia do (g)local porque permite ver que aquilo que existe aqui também existe noutros locais e contextos. Se quisermos implementar este conceito na comunidade, poderemos ter a Zona de Couros mais compreendida”, admitiu.
O evento promovido pela Associação Coral Cultural de Guimarães, no âmbito do programa promovido pelo Município, antecedeu os espectáculos do Festival Co(u)ral, sob orientação de Marisa Oliveira, que voltou a preencher espaços improváveis da Zona de Couros com atuações de coros oriundos de cidades relacionadas com o Património Mundial da UNESCO. Este ano com o Coro En’ Canto, Corué e Modern Choir, o Orfeão de Guimarães, o Grupo Coral de Azurém.
Publicado em: 24/09/2026